bz_holanda Ana Fonseca – Holanda

Leitores e  gente do meu círculo pessoal de amizades no Brasil às vezes me perguntam sobre crise econômica na Holanda. Vou tentar falar muito rápido e superficialmente a respeito nas próximas linhas.

Pra começar, penso que é claro para todos que a economia holandesa é bem administrada e dinâmica. Junto com a Alemanha a Holanda continua sendo um dos países mais fortes da zona do euro – e até mais forte que a Alemanha. Porém como membros fortes da zona do euro os holandeses se ressentem muito de terem que “pagar” por ajuda a países muito corruptos e extremamente mal administrados. Por aqui as pessoas trabalham até os 65 anos (muito em breve será até 67 anos), a produtividade é uma das mais altas do mundo os impostos são vorazes.  Por isso acham absurdo ter que financiar estradas em Portugal onde há pouco tráfego ou ajudar a Grécia a sair da crise, por exemplo.

Apesar de ser uma economia bem administrada como afirmei acima, desde 2008 ficou muito difícil arrumar emprego “part time” ou obter promoções/bônus/benefícios  se você já está empregado. O auxílio desemprego sofreu muitos cortes. O mercado de trabalho continua dinâmico (há ocupações variadas) mas é bem pouco flexível. Por exemplo: para quase tudo você precisa ser certificado, até para ocupações bem banais. E alguns cursos para se obter certificado só são oferecidos para jovens durante o ensino secundário (ex.: decorador de interiores, florista, etc.). A Holanda também protege seu mercado de trabalho ao máximo e a equivalência do diploma estrangeiro é muito difícil.  Mesmo pessoas que já chegam aqui formadas e com diploma de doutorado necessitam aprender holandês, tirar diploma de proficiência na língua e sentar em bancos universitários durante um par de anos.

O varejo é um bom espelho para ilustrar o que acontece no consumo do país. Nos últimos meses três cadeias de lojas muito importantes estão com a imagem aos solavancos: a Blokker, a Hema e a V&D. A Blokker, de perfil similar a uma Casa & Vídeo no Brasil,  semana passada anunciou que vai despedir 440 pessoas (a cadeia tem um total de 7.200 funcionários atualmente). Acho duvidosa a crise por qual a Blokker passa, afinal seus lucros com vendas online aumentaram em 40%.

Blokker hema

A Hema tem filiais no exterior (Bélgica, Alemanha, Luxemburgo e desde o ano passado Espanha) e principalmente na França – vai muitíssimo bem por sinal. Mas os rumores sobre sua falência na Holanda são constantes na imprensa. De fato, as liquidações e promoções são constantes e até absurdas no meu parecer. Do tipo “só hoje” e depois é prolongada por uma semana…. 70% de desconto, uau ! Ou 40% de desconto para albuns de fotografia (como pode???). Super bom para o consumidor, sim. Mas parece que a qualquer hora vai acontecer uma queima total para fechar as portas. O que é uma pena pois a Hema é muito inovadora, com produtos de design próprio, bom preço e duráveis.  Super queridinha dos holandeses com seus produtos descolados e indispensáveis. A fome da Hema de se expandir pela Europa é grande – já que o o mercado consumidor holandês anda cerrando os cordões da bolsa…

VD

E por fim temos a V&D (loja de departamentos). Uma marca de difícil posicionamento e que propôs o escandaloso 6% de redução de salarial aos funcionários para que não feche as portas. A Blokker, a Hema e a V&D são ícones do varejo holandês e andam mal das pernas. Por outro lado a crise testa a criatividade, flexibilidade e resiliência dos seus administradores de empresas. Buscam também avidamente mercados alternativos na China e no Brasil. Essas empresas podem sair fortalecidas dessa crise e talvez até maiores e mais poderosas – o tempo dirá.

Há crise na Holanda ? Há, fato inegável. Por outro lado todos os setores da economia se ajustam rápido e os próprios holandeses também – para ilustrar esse fato: “Milhares (!) de médicos holandeses partem por ano para trabalhar na Suécia”, foi notícia de destaque na imprensa semanas atrás. E cerca de 1% da população holandesa emigra definitivamente por  ano, principalmente para o Canadá, Escandinávia, Austrália e Nova Zelândia.

A Holanda foi um dos primeiros países a abolir o pagamento de taxas em produtos estrangeiros, ainda na idade Média, o que atraiu muitas trocas comerciais. Historicamente o aprendizado de no mínimo 3 línguas estrangeiras é incentivado desde a mais tenra idade para que toda a população possa ter chances de emprego no exterior e fazer-se entender em qualquer tipo de transação. Seus governantes calvinistas ao longo dos séculos sempre convidaram e acolheram perseguidos políticos, e comerciantes que sofriam perseguiçoes religiosas (historicamente os holandeses sempre foram chamados pejorativamente de “os judeus brancos da Europa” e atualmente século XXI são “os chineses da Europa”). Com exceção de alguns bolsões de gás no mar do norte o país praticamente não tem matéria prima nenhuma e ainda assim possui um número imenso de multinacionais – está no topo da lista dos países mais ricos do mundo. Por isso sempre digo que vivencio na Holanda uma situação de “crise –sem crises !”. Dramas contornáveis e calculados. Ou seja: a crise existe – e as oportunidades também.

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Ana Fonseca é carioca, publicitária e vive na Holanda desde 1999 trabalhando na área de turismo e hotelaria. Para saber mais acesse a mini-bio aqui. Sigam-nos no Instagram, Facebook e Twitter para atualizações diárias!