Se tem uma coisa que sempre me chamou a atenção (positivamente) é a onipresença de nossa bandeira verde amarela nos eventos mais importantes do mundo. Quando um novo papa é anunciado diante de uma multidão na Praça São Pedro, quando um piloto de Fórmula 1 de qualquer país sobe ao pódio ou quando o Rolling Stones surge no palco de qualquer grande estádio de futebol, ela está sempre presente, tremulando faceira e mostrando ao mundo que em qualquer canto do nosso planetinha tem um brasileiro marcando o território.

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No Brasil este fenômeno não poderia ser diferente. A Copa do Mundo, por exemplo, é um destes eventos que multiplicam sua presença nas ruas, pracinhas, favelas e mansões. É algo bonito de se ver, apesar de que, particularmente, acho mais patriótico votar conscientemente do que exibir bandeirinhas na janela, mas isso fica para outro post. No quesito “exibição pública de bandeira”, só perdemos para os americanos, que adoram ostentar orgulhosamente sua “Star-Spangled Banner” no quintal de suas casas, na roupinha de seus mascotes e até na cabeceira de suas camas.

Além da bandeira, outro símbolo forte de patriotismo é o hino nacional. Recentemente, o nosso país chamou a atenção da imprensa mundial durante a Copa de 2014 quando a torcida brasileira, num belo gesto, diga-se de passagem, começou a cantar a versão quase completa do nosso hino “a capela” para todo mundo ouvir (manifestação imitada pela torcida chilena que logo foi vaiada pela falta de criatividade).

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Bom, a Espanha tem uma peculiaridade que eu não acredito que se repita em nenhum outro país. O hino nacional não tem letra!!! Além disso, exibir a bandeira espanhola publicamente não é lá um bom negócio. Trata-se de uma triste realidade que tem suas origens na ditadura franquista e que tentarei explicar de forma breve neste post, já que se trata de um assunto polêmico que costuma render muito pano para manga. Comecemos pelo hino espanhol.

O hino da Espanha, denominado como “La Marcha Real” foi estabelecido em 1770 durante o reinado de Carlos III e não tinha letra pelo fato de se tratar de uma peça musical de origem militar. Durante a revolução de 1869 foi organizado um concurso a nível nacional para a escolha de um hino novo (de preferencia com letra), mas a escassa participação popular fez com o que o governo mantivesse a “Marcha Real” como o hino oficial do Estado Espanhol, que continua vigente até os dias de hoje.

A letra (finalmente!!!) chegou em 1843, da mão de Ventura de la Vega, mas nunca foi utilizado. Outra tentativa surgiu em 1909, durante o reinado de Alfonso XIII. Escrita por Eduardo Marquina, sua composição chegou a ser cantada em alguns atos oficiais, mas nunca caiu no gosto popular, desaparecendo gradativamente.

Em 1939, com o fim da Guerra Civil Espanhola, deu-se início a um período de ditadura que durou longos 36 anos. Como todo o ditador que se preze, Francisco Franco tratou de exaltar o orgulho nacional através de seus símbolos máximos: a bandeira e o hino. E aí começaram os problemas. A ditadura espanhola não foi diferente de outros regimes autoritários: os chamados “inimigos da pátria” foram fuzilados, milhares de cidadãos fugiram para o exílio e a população se viu obrigada a obedecer as ordens impostas pelo novo governo. Tudo isso com um pacote que incluia racionamento de alimentos, prisões sumárias e inúmeras restrições. Ou seja, a receitinha básica de qualquer ditadura convencional. Onipresente e faceira, a bandeira espanhola marcou sua presença nos quatro cantos do país como símbolo máximo de um período que hoje todo o espanhol prefere esquecer. Coitada da bandeira, ela não tem culpa da ignorância humana, mas foi ela quem acabou pagando o pato.

A ditadura franquista terminou após a morte de Franco em 1975, dando lugar a uma democracia sólida que continua vigente até os dias de hoje. O ressentimento daqueles anos, no entanto, ainda se faz presente, e muitos espanhóis associam a bandeira espanhola com aquele tenebroso período da história, criando estereótipos infundados, mas que se tornaram “verdade popular” no país. Portanto, se você tem um carro com um adesivo da bandeira espanhola, ou costuma pendurar uma bandeira da Espanha na varanda da sua casa, você certamente será taxado de fascista. É verdade ! Se você quiser ser politicamente correto, você tem duas opções: ou não usa bandeira nenhuma ou usa a bandeira de sua região autônomica (Andaluzia, Baleares, Galicia, etc… ) Para fugir de polêmicas, o Fernando Alonso –  piloto espanhol mais famoso do momento – costuma exibir a bandeira de Astúrias (sua terra natal), preocupação que parece não incomodar a Rafael Nadal, 3º melhor tenista do mundo no ranking da ATP, que tem sempre à mão uma bandeirinha espanhola para adornar os seus troféus. Mas ele é ídolo do esporte, então pode (a não ser que fosse catalão, aí sería odiado, mas vamos também deixar isso para outro post – ô país complicado !!!).

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Para fechar este tema, existe uma lei espanhola de bandeiras (Ley 39/1981) que regula o seu uso em prédios públicos. Basicamente esta lei determina que todos os prédios que acolhem organismos públicos devem hastear (pelo menos) a bandeira da região autonômica correspondente, a bandeira da Espanha e bandeira da União Européia. Em alguns edifícios públicos das regiões consideradas históricas (Galicia, Pais Basco e Cataluña) a bandeira espanhola costuma estar ausente. Mais do que desobedecer a lei de bandeiras, se trata de um ato simbólico de repúdio à Espanha, já que existe nesta região um forte sentimento de independência. A foto abaixo, da fachada da prefeitura da cidade de Montgat na Catalunha, ilustra perfeitamente essa postura. Reparem que o prédio tem três mastros, mas só tem duas bandeiras: a da Catalunha e a da União Europeia. O mastro onde deveria estar à bandeira espanhola está intencionalmente vazio, uma situação que se repete em dezenas de outros municípios rebeldes.

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A Alemanha, que também teve seus duros anos de ditadura teve melhor sorte. Ao subir ao poder, Hitler retirou dos mastros a tradicional bandeira alemã para dar lugar à bandeira nazista. Já hino nacional alemão “Das Deutschlandlied“ foi substituido pelo nazista “Horst Wessel Lied”. Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, todos os símbolos nazistas desapareceram, dando lugar à antiga bandeira e hino alemães, completamente livres de qualquer associação ditatorial, ao contrario do que ocorreu com a Espanha, cuja bandeira e o hino não mudaram com o fim da ditadura franquista.

Em 2008 o Comitê Olímpico Espanhol fez mais uma tentativa de criar uma letra para o hino, atendendo a uma antiga petição de seus atletas, que se sentiam inferiorizados ao verem seus rivais enchendo os pulmões para cantar a letra de seus hinos nacionais. Mais de 7.000 letras de todo o país chegaram ao COE e o ganhador foi Paulino Cubero, um simples agricultor de  Granátula de Calatrava (Ciudad Real). Fico imaginando a alegria desse senhor, que entraria para história como autor do hino nacional espanhol, uma façanha praticamente impossível para qualquer outro ser humano já que todos os países do mundo – com exceção de San Marino e Bosnia-Herzegovina – tem letra e não estão dispostos a mudá-la.

Bom, sua alegria durou pouco. A letra criada por Cubero não foi capaz de agradar a gregos e troianos. Muitos diziam que o hino tinha conotações fascistas por conter palavras como “Pátria” e (pasmem) “España”… !!! O Comitê Olímpico Espanhol decidiu então anular o concurso e tudo voltou ao ser o que era antes (menos para o senhor Cubero que deve estar revoltado até hoje!).

Nas olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, podem reparar, os atletas espanhóis cantarão o hino da Espanha com monossilábicos “lá lá lá” e aqueles que chegarem ao pódio talvez exibam as bandeiras de suas cidades natais. Aqui na Espanha eu uso um chaveiro com a bandeira brasileira. Assim não sou taxado de fascista. Sou apenas um “ser tropical exótico!”

P.S. A foto que encabeça este post foi tirada em um estádio durante um evento esportivo aqui na Espanha. Alguém conseguiu achar alguma bandeira espanhola ? Deve estar com o Wally!