Hoje temos o primeiro texto de um novo colaborador. Num relato muito sincero, ele nos conta como optou por ir morar definitivamente na China e os perrengues iniciais por quais passou como imigrante. 

Olá gente (大家好),

Se você esta lendo esse texto e apresenta os seguintes sintomas: não se sente bem onde mora, acha que a vida não está abrindo todas as portas que esperava ou sente-se desmotivado profissionalmente… Talvez seja hora de entrar de cabeça em uma mudança que eu chamo carinhosamente de “virada em 180 graus”. Mude de cidade, mude de carreira, mude para algo que te dê um desafio, que te estimule ou que, simplesmente, te torne uma pessoa diferente do que era antes. Como assim? Parece óbvio, né? Mas aquilo que está bem na nossa frente às vezes não parece estar tão claro. Vou explicar como o meu processo de 180 graus funcionou na minha vida indo para a China contando um pouco da minha estória.

Há três anos eu estava morando em Manaus (no Amazonas) e faltavam poucos meses para terminar meu curso de jornalismo. Profissionalmente, eu já trabalhava na área havia mais ou menos 2 – 3 anos, só que nesse pouco tempo eu havia experimentado as dores e delícias de ser um jornalista. Fui demitido por escrever um assunto que incomodou um político local. E meu salário, mesmo eu não sendo formado, já era acima de alguns colegas meus da mesma redação. E, isso provocou um certo desconforto, claro. Minha vida nunca foi fácil e se eu tinha uma remuneração boa para um início de carreira era porque eu me esforçava para dar o meu melhor, indo atrás das melhores notícias. Um belo dia cheguei para trabalhar e fui chamado ao RH. Chegando lá, a moça mal olhou na minha cara. Ela pediu para que assinasse um papel no qual estava escrito “aviso de desligamento”. Fiquei surpreso com aquilo. Perguntei para mim mesmo: como assim? Minha editora sempre elogiava meu trabalho e por isso eu não entendia o porquê da demissão. Após o ocorrido, uma das minhas editoras me disse a verdade. Alguns colegas estavam reclamando o porquê do meu salário ser diferente e havia também o desafeto político em relação a um secretário da prefeitura de Manaus estar provocando impacto em terras públicas e pessoas estavam sendo assassinadas por conta disso.

Meu mundo havia caído. Eu percebi que minha função como jornalista era servir aos interesses do veículo de comunicação ao qual eu trabalha. A informação era/é manipulada ao bel prazer dos dos grupos de comunicação. Esse foi o primeiro grande choque sobre o que era ser jornalista. Passados umas semanas, comecei a trabalhar em uma emissora de TV local, dessa vez ganhando um salário mínimo (naquela época eram R$ 800). O ambiente de trabalho era ótimo, mas eu queria fazer mais, porém não podia. Eu também queria conhecer o mundo, ampliar meu conhecimento, fazer coisas diferentes. E foi, então, que percebi que eu me tornei jornalista porque desde criança eu tinha o sonho de ser um correspondente internacional, mostrando o mundo como ele é. Naquela época, além da TV também fazia assessoria de comunicação para uma empresa pequena e ainda tinha que terminar a faculdade. Um belo dia, cansado de tudo por achar que eu estava apenas na rotina trabalho > estudo > cama, falei que era tempo de mudar. Eu queria mais, eu queria descobrir meus limites. Peguei o meu chefe e minha mãe de surpresa ao dizer que estava pedindo demissão. Eles me perguntaram porque eu estava pedindo demissão. Fui bem enfático e disse:

– Vou para o Japão!

E assim, me demiti. Minha mãe achou aquilo uma loucura. “Como assim você vai morar no Japão? Você sabe como fazer para morar no Japão? Você fala inglês ao menos? Com que dinheiro você vai pagar as passagens de avião?” Minhas respostas foram:

– Não sei. Não falo inglês muito bem, mãe, e por isso escolhi um país que não fala inglês…

Essa foi a minha lógica (ok?!). Pois bem, passou um dia e entrei em contato com uma organização estudantil chamada AIESEC e vi que eles ajudam estudantes do mundo todo a fazer intercambio tanto profissional quanto educativo. Como eu não tinha dinheiro a única opção era descolar uma vaga na modalidade profissional, pois esse tipo de intercambio dava acomodação e salário. O desafio seria primeiro encontrar uma empresa que me aceitasse como estagiário e segundo é que eu só teria 1 mês para encontrar essa vaga porque era o tempo em que eu poderia ficar desempregado. A moça da AIESEC que me acompanhou durante todo o período achou uma loucura porque as vagas para estágio profissional levavam meses e nunca ninguém consegui fazer todo o processo em apenas 1 mês.  Resumindo: fiz o impossível e em 23 dias consegui achar um estágio para ser assistente de professor em uma escola de idioma, não no Japão, mas na China.

Wuhan Cherry Edvan Fleury de Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Cerejeiras em flor num parque em Wuhan, via english.sina.com

Meu Deus! Eu não sabia nem a língua que se falava na China! Aceitei sem pensar muito. Minha mãe me ajudou a comprar as passagens e foi bem sábia ao dizer:

– Vá para ficar 1 mês porque se não gostar você pode voltar!

Mas o que eu queria mesmo era ficar 1 ano. Aí eu comecei a ver vídeos no Youtube sobre a China e lê histórias de intercambistas na Ásia. Apaixonei-me por tudo, eu estava totalmente fascinado porque simplesmente ia desbravar o mundo.

Coloquei na minha cabeça o conselho de mamãe e vim: “Se não der certo eu volto em 1 mês”.

Vim com um frio na barriga. Meu nível de inglês era horrível. Apesar de todo o medo, coloquei em meu coração muita esperança e sonhos. Esta seria uma oportunidade única. Não vou detalhar muito o que aconteceu quando cheguei na China… Mas posso adiantar que não foi exatamente como eu esperava. Tudo o que eu imaginei e pensei para mim, não aconteceu. Fui enganado pela empresa que contratou a AISEC. A equipe da AISEC no Brasil me deu todo o apoio, porém eu estava sozinho. Sem ninguém, em um país no qual eu mal falava o idioma.

Então, eu já sabia que ficaria só 1 mês e voltaria para o Brasil. Mas algo dentro de mim sabia que eu não poderia deixar o dono da empresa impune. Eu teria que lutar. E fui o que fiz. Indo a caminho do aeroporto e com o sentimento de derrota. resolvi dar meia volta e lutar para ter meu dinheiro, meu salário. Gente, o que eu fiz foi loucura, pois eu não tinha mais nenhum dinheiro no bolso. Posso dizer que uma pessoa revoltada e com fome pode fazer tudo para sobreviver. E foi o que eu fiz. O dono da empresa chamou a policia para que eu fosse deportado. Ele disse na minha cara que o meu contrato não valia de nada e que ele ia pagar só se quisesse. Lembro-me como se fosse hoje ele dizendo:

– Você pode até tentar me denunciar, mas ninguém vai acreditar em você porque eu sou conhecido, tenho pessoas que vão me ajudar. Já você? Nem chinês fala. Será a sua palavra contra a minha.

Em uma semana tive que fugir da imigração e lutar para provar que eu era a vítima e não o bandido. Eu perdi o meu voo de volta ao Brasil e não poderia mais voltar tão cedo (até porque eu não tinha dinheiro). Depois de provar minha inocência e, enfim, receber meu primeiro salário na China, decidi que o que eu queria era aquilo: era ter uma experiência diferente, viver uma vida em 180 graus. Ter uma motivação todos os dias.

Shanghai Edvan Fleury de Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Shanghai, China. Foto via Bigstock

Com o meu primeiro salário, aluguei um quartinho e comprei as minhas primeiras roupas de frio (antes eu havia passado 1 mês usando a mesma roupa de frio). Fiz uma bela refeição para tirar a barriga da miséria e decidi que daquele em dia em diante eu viveria uma vida de desafios, tava aí a motivação que eu queria. Então, lá estava eu como mais um imigrante ilegal vivendo na China sem saber nem falar “oi” em chinês.

Wuhan Edvan Fleury de Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Wuhan, China. Via: americantesol.com

Tentei resumir um pouco da minha história para mostrar para você que a gente é do tamanho que quer. Às vezes nos limitamos por bobagem. Nós somos nossos primeiros obstáculos. Muita gente falou para mim que eu jamais conseguiria passar 1 ano morando no exterior, inclusive minha mãe. Bom, já fazem 3 que estou por aqui e não foi e nem está sendo fácil. Comecei em Shenzen, passei uns meses em Wuhan e estou há dois anos em Beijing. Sim, hoje estou 100% legal, tenho um trabalho estável, mas esse processo de 180 graus foi complicado. Mudar sua vida ao oposto exige força e determinação. Não falo de coragem, pois essa surge naturalmente; já aquelas, exigem foco e planejamento. Não vou falar aqui do óbvio do que uma experiência no exterior dá a uma pessoa, mas sim que antes de tudo é necessário planejar bem e conhecer ao máximo sobre o país para onde se vai. Não faça o que eu fiz porque foi tudo errado. Mas se não tivesse me apegado a minha filosofia de 180 graus eu teria me perdido na China e com certeza teria voltado ao Brasil com um sentimento de frustração.

Edvan Fleury de Guangzhou Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Guanzhou, China. Foto via Bigstock

Por enquanto continuo por aqui com a missão de mostrar o que a China tem para oferecer para nós estrangeiros. Espero que vocês gostem da China que eu vejo através do meus próximos textos. Não vejo a hora de publicar o meu próximo post aqui no Brasil com Z !

Um abraço e  再见  (Zai Jian) !