japãoW. Anderson – Japão

Eu já tive a oportunidade de morar fora do Brasil por algumas vezes. Isso me abriu uma grande oportunidade de trabalho e cultura, pois, me fez saber que posso me adaptar facilmente em vários ambientes.

Quando deixei o Brasil pela primeira vez, foi para fazer um intercâmbio de inglês. Eu estava num nível avançado na então CCI/ELS, uma escola que focava o modo britânico. Me candidatei ao intercâmbio, numa época que realmente se fazia intercâmbios, onde famílias de alunos candidatos se comprometiam a receber também alunos vindos do exterior. O objetivo daquele intercâmbio era de 1 ano. Acabei fazendo toda a high school em Londres e, voltando ao Brasil tentei  carreira militar na Aeronáutica.

Depois de deixar a vida militar, a próxima oportunidade para deixar o Brasil foi para fazer um curso na Novell Inc, em San Diego, nos EUA. Naquela época, não existia ainda nenhuma empresa de treinamento desta plataforma e, como estava em processo de implantar a Rede Novell numa nova empresa do Grupo Votorantin, fui consultado se aceitaria ficar por 5 meses iniciais nos EUA, fazendo um primeiro curso. Como a adaptação foi bem tranquila, acabei ficando para o segundo curso também, fazendo assim, a formação completa que havia naquela época. Foram pouco mais de 9 meses e, se tivesse tido algum convite para ficar de vez, provavelmente teria ficado.

Em ambas as vezes, tanto na Inglaterra como nos EUA,  tive oportunidade de encontrar uma comunidade brasileira  bastante unida, num sentido bem diferente do que encontrei no Japão.

Talvez pela idade que tinha naquela época não tenha percebido. Mas pelo que pude conviver, notei que havia uma certa cumplicidade entre os brasileiros, pouca fofoca, e acima de tudo, um modo de proteger um ao outro. Talvez porque, naquela época, a maioria dos brasileiros vivendo na Inglaterra ou nos Estados Unidos, eram ilegais, geralmente turistas que ficaram sem regularizar seu visto e condição. Não era o meu caso, pois ambas as vezes, eu tinha o visto adequado para residência por longo período.

Mas aqui no Japão, aprendi algo muito diferente. Brasileiro aqui é o “Óh”, no sentido pejorativo mesmo. É claro que não são todos, mas uma grande parcela, principalmente por parte daqueles que insistem em viver unicamente dentro da comunidade e não buscar interação com a sociedade de onde se vive.

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Sátira sobre a união de brasileiros no Japão – by google.com

Minha teoria pode ser contestada por qualquer um, mas é o que mais perto consegue explicar a diferença que senti quando estive nos Estados Unidos e na Inglaterra. É claro que no final dos anos 80, quando os primeiros brasileiros chegaram ao Japão pelo movimento decasségui, encontrar outro brasileiro na fila do telefone público era motivo de festa, mas hoje…

telefonepublico

No início do movimento decasségui, encontrar outro brasileiro na fila querendo ligar para o Brasil, era motivo de alegria

Os brasileiros aqui, eu dividiria em dois grupos principais. O primeiro, em sua maioria pessoas com alta formação e especialização, portanto com pelo menos um curso superior, que decepcionado com o Brasil, decidiu vir pra cá. E o segundo grupo é de brasileiros que possuem pouco estudo, muitas vezes, nem mesmo o segundo grau completo e que consideram na maioria das vezes, que somente pessoas iguais a eles que poderiam vir ao Japão para trabalhar em “chão de fábrica”. E isso tem uma agravante maior, pois possuem filhos que muitas vezes, possuem menos estudo ainda, pois estudaram em escolas brasileiras ou em escolas japonesas, abandonando os estudos perto dos 15 anos de idade. Esse segundo grupo, geralmente possuem melhor conhecimento do idioma para conversação, portanto, muitos se consideram superiores aos demais, ou porque trabalham como intérpretes em empresas de alocação de mão de obra (empreiteiras) ou porque, por terem muito tempo de Japão, não enxergam com bons olhos outros brasileiros que mesmo com formação e carreira no Brasil, jogaram tudo pro alto em busca de algo melhor que o Brasil também não ofereceu à eles.

Eu conheci médicos, pediatras, dentistas, psicólogos, advogados, outros engenheiros e tantos outros formados (inclusive em boas faculdades) no Brasil, que optaram em vir ao Japão, não como decasségui, mas como imigrantes como eu, que também se decepcionaram com o Brasil. Desta forma, não é demérito algum trabalhar em “chão de fábrica”, mesmo que ao lado de pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades de estudo, isso porque, a dignidade e o sucesso de uma pessoa não se julga pelo diploma que possuir, nem pela dificuldade que passou no Brasil, mas sim, se pode conhecer uma pessoa, sem julgar, pela ética e pelo comprometimento que se tem pelo serviço e pela conduta social que se adota, coisas que muitos aqui, por não terem condições de mudarem a si, por acomodação ou simplesmente por uma deficiência do caráter, prefere igualar bons brasileiros iguais a si próprios, ao invés de se equiparar e ver no colega de trabalho, um exemplo a seguir.

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Trabalhador brasileiro em linha de produção automotiva – by japaoemfoco.jp

É muito comum pessoas do segundo grupo fazer fofocas contra as pessoas do primeiro grupo. São os casos de bullying mais comuns entre brasileiros dentro da comunidade e, igual ao que sofri e relatei em post anterior. Não estou generalizando ou acusando, por favor. Apenas relatando o que presenciei e vivi. Já soube de uma pessoa que por esquecimento de renovar o visto antes do vencimento, foi denunciada por outro brasileiro que soube da situação, criando um transtorno desnecessário. A pessoa denunciada não chegou a ser deportada, mas teve de dar boas e conscientes explicações para não ter dificultado o processo de renovar o visto. Isso porque deixou vencer o visto apenas por alguns poucos dias.

Esse tipo de situação extrema, confesso que não tomei conhecimento nem na Inglaterra e nem nos Estados Unidos. Isso não significa que não aconteça, mas aqui no Japão é algo muito comum entre estrangeiros de qualquer nacionalidade, principalmente inclusive brasileiros.

Essa situação de “rivalidade”, talvez tenha influência de que para qualquer nacionalidade, a existência de imigrantes ilegais aqui é algo muito difícil, pois o controle de imigração é muito rígido e a vigilância, constante, o que difere da Europa ou Estados Unidos, onde o grande número de imigrantes ilegais de muitas nacionalidades é um problema existente e difícil de resolver.

Desta forma, esse comportamento existente dentro da comunidade brasileira aqui foi uma das razões para que eu pouco participasse e jamais ficasse unicamente inserido apenas dentro dela, de modo que, dentro da comunidade, a seleção de quem pode ser amigo é muito mais rígida. Além do mais, se eu escolhi viver no Japão, eu preciso e devo, me comportar como o ditado diz, “viver em Roma como os romanos”.

O diretor do Grupo Putz Network, que participou comigo de um artigo aqui, lembrou que há uma grande dificuldade de mobilizar brasileiros em torno do grupo, pois na maioria das vezes, preferem dividir seu tempo em trabalhar o máximo de horas e descansar outro máximo possível, esquecendo que uma participação consciente dos estrangeiros, dentro da sociedade e da própria comunidade, ajudará no seu próprio desenvolvimento e na melhor qualidade de vida, sem depender exclusivamente da ajuda voluntária de terceiros ou do poder público.

Um outra situação que ocorre dentro da comunidade brasileira, é a mania de muitos acharem obrigação do governo brasileiro ou do governo japonês e também de ambos, de dar aqui a  assistência que teriam no Brasil, seja em atendimento de saúde pública, de aposentadoria, de ensino público. Alguns acreditam piamente que mesmo estando fora do Brasil, o governo brasileiro tem tais obrigações aqui e acham também, que “por estarmos dando o suor pelo Japão”, o governo japonês tenha outras tantas obrigações para com os estrangeiros. Em minha opinião, tal situação de assistencialismo é mera hipocrisia e mascara a preguiça e a acomodação de conquistar as coisas por meritocracia.

A crise mundial que se iniciou em 2008, teve o lado positivo de proporcionar a uma grande parcela de “tranqueiras” o retorno ao Brasil (por intermédio de um programa de ajuda do governo japonês, que indenizava o visto de cada adulto e criança). E  hoje, muitos desses “tranqueiras” – mesmo sabendo que o Japão já não é mais o lugar de ganhar dinheiro fácil e rápido – estão loucos de vontade de voltar pra cá. É verdade que houve muitas pessoas de boa índole e dedicadas que foram embora por falta de melhores perspectivas aqui. Afinal de contas, principalmente para quem já vivia muito tempo aqui, uma crise como aquela era algo difícil para se imaginar na (então) segunda maior economia do planeta.

Antes da crise, era normal ver um brasileiro gastar algo perto de US$ 3,000 para comprar um jogo de pneus para drift, que na maioria das vezes, durava apenas naquele “evento”. Hoje, muitos não trocam de carro, a menos que seja muito necessário. Outros, nem mesmo um seguro (de responsabilidade civil) para o carro sequer fizeram.

Lembro que na região onde moro (6 cidades vizinhas), os brasileiros somavam perto de 10,000 pessoas. Havia cerca de 12 lojas de produtos brasileiros, 3 fornecedores de alimentação (marmitex / “obentou”), uma danceteria, um karaoke, 7 lojas brasileiras de automóveis usados. Hoje,  não atingimos ainda 3,000 pessoas, temos apenas 2 lojas de produtos brasileiros (numa delas, encontra-se vários produtos com validade expirada), nenhum fornecedor de marmitex, nenhum karaoke, nenhuma danceteria, 1 loja de automóveis usados. Segundo informação preliminar e extra-oficial, entre brasileiros, os inadimplentes com o pagamento de imposto automotivo (equivalente ao IPVA), chega a 20%, considerado alto demais. Isso significa que o poder aquisitivo da comunidade caiu vertiginosamente. Muitos outros, encontram-se com o pagamento do imposto municipal em atraso, o que tem criado certa dificuldade na renovação de visto, obtendo uma renovação de apenas 1 ano, ao invés de novos períodos de 3 e 5 anos, ou ainda, indeferido o pedido de visto permanente.

O ponto positivo foi que o nível intelectual das pessoas que ficaram aumentou muito, e o número de ocorrências de acidente de trânsito e crimes cometidos por brasileiros também caiu. As pessoas que permaneceram, dominam mais o idioma, escrevem e leem, estão mais integrados com a sociedade e muitos conseguiram se tornar empreendedores, gerando empregos ou promovendo cidadania social, integrando nativos e estrangeiros de modo geral.

Considero assim, que não se trata de haver um estresse, como uma matéria que li na internet sugeria, mas de não haver ainda, a consciência de que a vida dentro da comunidade e consequentemente, o melhor ambiente de trabalho onde há muitos brasileiros numa mesma fábrica, só vai melhorar quando as pessoas se conscientizarem que a grande maioria dos brasileiros aqui não são mais decasségui, mas sim, imigrantes que vieram e decidiram ficar. Portanto, não há a necessidade de criar rivalidades, passar a perna num outro brasileiro, desmerecer seu caráter ou sua honra, nem mesmo de induzir aos outros que aquela pessoa é ruim e você alguém do bem.

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W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 11 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui

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