Ana Fonseca – Amsterdã, Holanda

Algumas pessoas me perguntam como é viver num país onde não há mão de obra para faxina doméstica. Isso me fez lembrar de várias fatos, histórias e acontecimentos da época em que eu vivia no Brasil. Por exemplo: Minha mãe sempre reclamava que “assistente” que gostava de cozinhar não gostava de limpar. E quem pegava firme na faxina não gostava de encarar uma fumaça de cozinha.

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Após crescer e observar mais a vida, acho que as pessoas em relação às rotinas doméstica se dividem mais ou menos nesses dois grupos mesmo: ou amantes da cozinha ou amantes da casa. Em qual você se encaixa?

Eu facilmente me encaixo no grupo das pessoas que adoram fazer supermercado, ir a mercados e lojas especializadas, comprar e ler livros de receitas, ter vários serviços de pratos, acessórios e talheres, fuçar blogs de culinária e, sobretudo, experimentar muito na cozinha. Por isso, encara um forno e um fogão tranquilamente. E gosto de manter tudo na cozinha, armários, geladeira e fornos super limpos. Mas meus móveis geralmente têm uma camadinha de poeira. Eu limpo com frequência os vasos sanitários mas os vidros das minhas janelas tem respingos de chuva e poeira… Eu acho que botar roupa pra lavar, passá-las e limpar um banheiro e um toalete duas vezes por semana já está de bom tamanho.  Maridão passa aspirador na casa comigo todo fim de semana e assim vamos vivendo (e o pó vai se acumulando nos móveis).

Vários amigos e familiares que já moraram na França e visitaram casas de franceses disseram que eles recebiam muito bem, cozinhavam bem razoavelmente – mas a casa tinha rolos de pó embaixo dos móveis, panelas mal areadas… Parece que italianos também são assim. Boa comida, variada… e casa meio suja. Até com bichinhos (traças, carunchos, aranhas) aqui e ali.

Os holandeses são o oposto: só tem uma refeição à noite (almoço é sanduíche) geralmente simples e a casa é impecável no quesito limpeza.

Sério, gente. As janelas são um cristal, os jardins impecáveis, os quintais, a conservação do imóvel, cortinas sempre limpas, móveis polidos a óleo, tudo sem um grão de pó. Muita energia, dinheiro, tempo e atenção são dedicados à manutenção do lar. Mesmo no inverno abaixo de zero abrem sempre as janelas para a casa respirar e colocam casacos e edredons pra fora dos armários, nos jardins ou nas janelas. Não é por acaso que o verbo “limpar” em holandês contem a palavra “beleza” (schoon). Assim, “limpar” significa “deixar/fazer bonito” (schoonmaken). “Limpo” é sinônimo de “belo” nos Países Baixos…

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Um bestseller na Holanda: o livro “Quão limpa é a sua casa?”. As autoras, Marja e Liny são duas socialites ricas na Holanda, mãe e filha, e tiveram um programa de TV muito interessante onde “invadiam” casas em estado calamitoso (em geral repúblicas de estudantes ou casas de viúvos idosos) e faziam uma limpeza geral. Ambas já confessaram em entrevista que, de fato, são muito obcecadas com limpeza. Há programas de TV na Holanda, geralmente muito engraçados, com dicas de limpeza e organização. Isso é um aspecto da herança calvinista onde a “obrigação” de manter tudo limpo deve vir sempre antes do prazer à mesa. Há também alguns provérbios na língua holandesa que insinuam que uma casa limpa é sinônimo de mente sana/saúde mental em ordem (“Schoon huis, schoon hoofd”). 

Eu tenho meus padrões e exigências. Mas na minha casa não está tudo limpo ao mesmo tempo durante os sete dias da semana. Não. Confesso que uma vez, em janeiro, depois de todas as celebrações de dezembro que aconteceram lá em casa (pense em: festa do Sinterklaas, primeiro Natal, segundo natal, Réveillon…) minha vizinha chegou para uma visita e disse: “Ana, faça o favor de limpar esse espelho!”. Dezembro tinha sido um mês de fondues & fumaça, croquetes & frituras, gourmette & bafo quente, perús, pururucas & forno. O grande espelho da sala de jantar estava meio embaçadinho…

Agora, nas escolas e empresas a situação é outra. Na escola dos meus filhos (uma escola de ensino básico, a “basisschool”) os faxineiros só limpam o piso no final do dia e passam um pano molhado. Também limpam os vasos sanitários e pias. As carteiras das crianças, janelas, brinquedos, armários, computadores, plantas (várias)… nada disso é limpo. Eles da direção da escola pedem ajuda dos pais sempre no início do ano escolar. Te dão uma lista das coisas a serem feitas e pedem que você escolha três itens. Por exemplo: encapar/plastificar livros, lavar panos de prato e toalha em casa a 60 graus na maquina de lavar, e grampear a newsletter (os itens que escolhi esse ano). DUREZA!! Esse ano encapei mais de uma centena de livros. E tem duas vezes por ano o “groot schoonmaken” quando uma batalhão de pais e mães esvaziam todas as salas, põem a escola de cabeça para baixo e ficam das 19h até depois das 23h na limpeza. Já soube de casos que passaram da meia noite… Eu realmente acho que algumas coisas saem fora do controle em termos de limpeza na Holanda.

Eu ano passado fiquei meio ano como voluntária da limpeza da sala do meu filho. Toda quarta feira durante meia hora de recreio eu limpava as carteiras, janelas e armários das crianças. Junto com outra mãe, que por ser uma mulher rica ou por ter visto que eu era estrangeira, raramente trocava uma ou duas palavras comigo (e fazia tudo muito lentamente e de má vontade). NUNCA MAIS!!  Hoje só limpo a carteira da minha filha todo dia quando levo ele até a sala de aula, leva 10 segundos, dou um beijinho nela e tchau!

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No meu antigo trabalho, outro drama. Tinha tanto pó nos carpetes, que no meio do dia todo mundo já estava com os saltos das botas e barra das calças brancos. A gente acabava de chegar ao escritório e já começava a espirrar, nariz entupia, os olhos ardiam. Passei a levar um pacote de paninhos umedecidos de limão e limpava meu telefone e mesa todo dia. Limpava também as mesas de alguns colegas mais próximos. Minhas mãos viviam corroídas desses paninhos ácidos e todo mundo vivia doente. Um dia escondi uns confetes de chocolates embaixo de umas mesas… Eles permaneceram semanas lá. Concluímos que os faxineiros só limpavam os grandes corredores, a sala do RH e da direção da empresa. Reclamamos tanto da falta de limpeza dos carpetes que a direção decidiu colocar um novo. Adivinham? Colocaram o novo carpete por cima do antigo gasto e super empoeirado! Nenhuma porta não se movia mais. Retiraram várias portas. Armaram então um esquema de limpeza de geladeira e da cozinha para distrair a atenção dos carpetes.

Mmmm… funcionou legal. Mas vou me abster de comentar sobre os toaletes, okay? Limpos, mas só no fim do dia.

Vida na Holanda… Casas “de boneca” limpinhas e fofoletes, com jardins manicurados. Mas não queiram saber como é o índice de ácaros, traças e bactérias nos ambientes corporativos.

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Ana Fonseca mora na Holanda desde 1999. Para atualizações diárias sobre viajar e morar fora do Brasil sigam nossa fanpage no Facebook. Fotos lindas dos nosso autores você encontra no nosso Instagram. Verifique também nosso Twitter. “Sharing is caring!” Gostou das nossas postagens? Então compartilhem com os amigos nas mídias sociais! Agradecemos. Blog Brasil com Z, um blog de cultura, viagens e gastronomia feito por brasileiros vivendo nos quatro cantos do mundo!