Há anos ando querendo falar de um assunto que penso que todo expatriado já se pegou divagando muito à respeito: o fator honestidade na nova sociedade onde ele/ela se encontra. Uma forma de honestidade bem disseminada entre a população e, em certo grau, entre os políticos que a governam. Principalmente se você está num país europeu nórdico e pequeno, no Japão, e outros poucos lugares bem desesnvolvidos (Canadá?), isso é um fato muito marcante. No sudeste asiático também.

A maioria dos leitores assíduos do blog sabem que vivo há muito tempo na Holanda. O holandês é, no geral, considerado um povo razoavelmente honesto. Claro que há furtos e assaltos a casas, assassinatos, estupros e todo tipo de violência na Holanda. Mas o índice é bem baixo. Os assaltos às casas, por exemplo, tem um verbo interessante: “Inbreken”, ou seja: quebrar a entrada. Os “(woning)inbraken” são feitos geralmente durante a ausência do morador. Se feito à noite, e se o morador ousa superar o medo e descer para ver o que está acontecendo, geralmente o bandido interrompe a ação e foge. E geralmente não está armado. Ele não quer matar nem torturam ninguém, ele quer obter tecnologia/aparelhos/cartões de crédito/chave de um automóvel, etc. e se mandar o mais rápido possível. Geralmente são homens e são estrangeiros. Triste fato.

Penso que os holandeses são também muito descuidados nesse aspecto, de zelar pela própria segurança. Não usam capacete, fazem jogging em parques escuros, não usam pneu especial no inverno… É comum para muita gente que mora no interior do país sair de casa e bater a porta, sem passar a chave. Ou deixar a casa destrancada à noite e apenas ligar o alarme. Ou não passar tranca no motor do barco. Isso porque pensam que moram no interior então todo mundo é honesto e o lugar é seguríssimo. Só que sai muito criminoso da cidade grande para ir assaltar casas no interior, à noite. Tem anúncio de TV dizendo para lembrar de trancar a casa durante uma saidinha, por mais rápida que seja. Veja no vídeo abaixo, uma campanha de prevenção feita pelo governo. Um casal sai de casa batendo a porta, a casa está toda escura. A casa imediatamente passa a ser um chamativo para ladrões. “Bem-vindos! Jóias! Entrem! Aberta!” Um bonequinho animado em forma de lâmpada avisa mais ou menos o seguinte, exasperado: “Hallo! Hallooo! Nunca bata a porta atrás de você. Volta e tranca a casa, nem que você saia só por um tempinho! Um ladrão consegue entrar em 10 segundos!”.

Os holandeses tendem a confiar em outros holandeses e, ultimamente nas últimas décadas, a desconfiar de estrangeiros. Isso porque eles durante muitas e muitas gerações sempre trabalharam em grupo, sempre dependeram uns dos outros para sobreviver como nação. Por isso, sempre confiaram na boa vontade do próximo para cumprir sua parte.  Pensem que esse povo sempre teve que dragar pântanos e agir em mutirão para o bem comum. Isso exige muita disciplina, pontualidade, planejamento, transparência, exposição (das forças e fraquezas de cada um), logística e cobrança de performance. Nem todo mundo de fora que chega ao país tem esse prática de entrar nesse ritmo. A honestidade pode ser brutal por aqui, preto no branco. Você volta e meia se sente “nú com a mão no bolso” – e está todo mundo olhando. Às vezes, num nível pessoal, eles ficam ainda muito tempo utilizando a famosa política de “fechar os olhos”, para ver se a pessoa desonesta/recalcitrante vai usar “semancol” um dia. Mas depois, esquecem dessa tolerância e falam tudo (pessoalmente ou enviando uma carta) que está engasgado na garganta diretamente para a pessoa com a qual têm um conflito ou discordância. Já soube de casos assim (carta rompendo a amizade, e as razões espalhadas em duas páginas, tenho a cópia) e fiquei com o queixo no chão!

Mas eu fico me perguntando se não é justamente essa honestidade, essa cobrança, exposição e controle social que fazem da Holanda um país civilizado e desenvolvido, com todas suas boas consequências e riqueza.

Não acho apropriado comparar países de culturas, populações e valores tão distintos sem uma perspectiva histórica. Mas o vídeo a seguir (do “Fantástico”) é bem feito, e levanta a questão dos fatores de controle social, transparência e honestidade como motores para o desenvolvimento de uma sociedade. Para quem não mora no Brasil creio que o vídeo é uma novidade, vale a pena ver:

Um povo honesto faz al longo dos séculos um país ser desenvolvido e rico? Ou seria o contrário: um país rico tende a ter uma população honesta nos valores morais? Considerações, perguntas, experiências próprias, dúvidas? Concorda, discorda? Deixe aí nos comentários!

Até a próxima, tot de volgende keer!