bz_canada Tallitha Campos – Edmonton, Canadá

Hoje quero falar um pouco sobre como foi e como tem sido o meu convívio social em Edmonton, Canadá. Tenho que assumir que foi fácil conhecer gente nova, difícil foi conhecer e manter o relacionamento com pessoas com quem eu realmente tivesse afinidade.

Amizade interétnica: difícil, mas possível.

Chegamos em Edmonton com a ideia de não querer “se misturar” com brasileiros e focar em conhecer melhor e se aproximar do canadense. Ledo engano. Rodrigo estava focado no doutorado, e eu fiquei alguns meses sem trabalhar. O pouco convívio com o mundo externo dificultou conhecer novas pessoas.

Tivemos, porém, o primeiro contato com novos amigos na mesma semana que chegamos em Edmonton e mantemos contato até hoje. Aliás, foi essa família que nos proveu nosso primeiro lar. Awww. Detalhe, são brasileiros. Um ou dois meses depois conhecemos mais pessoas, também todos brasileiros. Meses mais tarde, comecei a trabalhar em um restaurante como hostess, e eu tinha a expectativa de fazer amigos canadenses. 

Seguimos esse ritmo de vida de expatriado por vários meses. A dificuldade inicial foi se identificar com essas novas pessoas. Muitos eram mais novos que a gente, ou apenas solteiros que tinham outras prioridades, como fazer festa por exemplo. Balada definitivamente não era nossa prioridade, hahaha. A mesma característica encontrei nos canadenses que conheci no restaurante onde trabalhei. Todos super novinhos que ainda estavam estudando, e que gostavam de noitadas. Nada errado com eles, apenas estavam vivendo um estágio da vida diferente do meu, além de não rolar aquela afinidade. Ou então, ja haviam formado família com pacote completo (filhos). Pessoalmente, não vejo isso como uma barreira, mas percebo que essas famílias têm outras prioridades e nos veem (casal sem filhos) da mesma maneira que eu via meus colegas de trabalho e conhecidos brasileiros (festeiros e jovens demais pra entender meus dilemas).

Quando comecei a trabalhar no meu emprego atual, pensei comigo “agora vai”. Não foi bem assim. Eu convivo muito bem com meus colegas dentro do ambiente de trabalho, mas são poucas as interações fora do escritório – apesar de eu já ter passado uma semana dormindo na casa de uma colega canadense. É difícil pra mim estabelecer um vínculo com os canadenses. Eles já tem os amigos deles, a experiência de vida deles é completamente diferente da minha, os problemas que eles enfrentaram é completamente diferente dos meus, a educação que eles tiveram é diferente da nossa, eles não tem problemas sociais como nós do terceiro mundo, entre outros. Juro que já tentei até fazer fofoca com uma colega pra tentar me aproximar, mas o máximo que arranquei dela foi um “Oh”, “Really?”, “Oh that’s bad”. E era isso. Canadense não gosta de dar pitaco na vida do outro ou de dar opinião sem conhecimento de campo. A gente tenta fazer piada, mas ninguém ri. Ou, a gente não entende a piada deles ou as referências que eles fazem aos personagens da infância deles. Há quem diga que o povo em Edmonton é preconceituoso, mas eu ainda não acredito nisso.

Hoje, Rodrigo e eu, temos um grupo seleto de amigos e diversos conhecidos. Todos brasileiros. Eu chamo de “amigo” aquele que visita minha casa, que me convida para um café e que manda mensagem. Ainda assim, nem se compara com a quantidade e qualidade da amizade que deixei no Brasil. Eu acabei me forçando a me abrir para o novo e aceitando perfis que talvez nunca me chamariam a atenção se eu continuasse no meu mundinho no Brasil. Porém se a gente negar esses novos amigos, viveremos num mundo solitário, e solidão é o que menos queremos morando longe da família e dos amigos. Notei nesses quase três anos morando no Canada que nos relacionamos com pessoas com o objetivo de criar uma tribo. Todos chegam aqui sozinhos, com um parceiro ou com filhos, e buscam se enturmar. Somos criados para viver em grupo. Às vezes, porém, perdemos o controle da configuração desse grupo e nele você encontrará homofóbicos e pessoas do bem que combinam com a sua moral.

Esses dias eu li na revista “Bons Fluidos” um artigo sobre solidão e gostei da menção que eles fizeram para o fato que a sensação de não ser visto, não ser considerado, machuca. Então a gente procura por atenção e núcleos onde podemos nos inserir.

Um pouco da minha dificuldade em criar novas amizades é porque sou introvertida e às vezes não me permito conhecer gente nova. Me acostumei com os brasileiros que temos aqui porque é fácil e temos alguma coisa em comum, mas o mundo em Edmonton vai muito além do pt-br. Eu queria mesmo é ter as minhas amigas e amigos de verdade perto de mim. Digo de verdade porque elas sim me conhecem, entendem a minha sinceridade ácida, não levam tudo a sério, não viram os olhos quando eu faço um comentário que não combina com a índole delas, (quase) sempre respondem as minhas mensagens mesmo quando é apenas um link bobo. 🙂 Conversam sobre política, feminismo, carreira, casamento, maternidade… sem julgamentos. Eu ainda estou procurando esse tipo de amizade no Canadá.

Eu sei que não sou a Tallitha perfeita em Edmonton. Sei que tenho minha parte de culpa. Mas basta eu me abrir um pouco mais e explorar essa cidade cheia de imigrante e nativo querendo fazer amigos.

E você, leitor, é um expatriado também? Como foi a adaptação em um novo círculo de amizade? Teria alguma dica pra me passar? Obrigada.

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Tallitha Campos é gaúcha, engenheira por formação, trabalha com qualidade e desenvolvimento de software. Mora em Edmonton com o marido desde 2014. Sigam-nos no Facebook para atualizações diárias sobre morar fora e dicas de turismo no exterior. Blog Brasil com Z, um blog feito por brasileiros expatriados vivendo nos quatro cantos do mundo!  Sigam-nos também no Twitter e Instagram para acompanhar as fotos dos nossos autores.