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Entrevistando Expatriados: Eliane Gomes

24/10/2018

Ana Fonseca – Haarlem, Holanda

Depois de entrevistarmos nossa colaboradora de Munique e nosso colaborador da Áustria, hoje entrevistamos uma leitora e seguidora fiel do blog Brasil com Z há muitos anos: Eliane Gomes, que tem uma empresa própria de encadernação artesanal e restauro de papel e livros, a Nautilus. Ela nos conta sobre o povo holandês, como mudou de carreira e dá dicas de turismo em Haarlem, onde mora.

Eliane, você é de Santos (SP) e atualmente mora em Haarlem. Como foi sua vinda para a Holanda/saída do Brasil?

Até eu chegar aqui, morei e estudei em outros países: Itália, Austria, Suíça e mesmo na Holanda antes de parar em Haarlem passei por Arnhem, Amsterdã e Diemen. Nessa minha primeira fase na Holanda estava casada com um holandês. Depois de várias reviravoltas da vida e um divórcio traumático, 15 anos atrás, eu vim para essa cidade e me apaixonei por um  outro holandês e pela cidade, que é linda. Sem falar que o cidadão em Haarlem se orgulha em ser educado e atencioso. Para um expatriado isso faz um mundo de diferença: a sensação de inclusão. Foi algo que não tive na época que vivi em Amsterdã – que também é linda, mas o ritmo de vida é completamente diferente.

 

Como foi sua adaptação ao país, poderia elaborar sobre isso? 

Como eu já tinha experiência em ser uma expatriada, achei que a vinda para a Holanda não seria complicada. Porém minha adaptação foi difícil e lenta. Foi uma experiência de um isolamento incrível, difícil fazer um círculo de amigos com holandeses  e entender o porquê de certas atitudes e costumes. Eles geralmente mantém-se felizes com seus amigos de infância e raramente expandem esse quadro de amigos. No começo eles demonstram bastante curiosidade por você, mas passada a novidade… você está só novamente. E Ana, você sabe bem que eles tem a cara de pau de perguntar umas coisas que às vezes chocam! Às vezes é até engraçado, às vezes você se ofende. Várias pessoas de outras culturas acabam passando por isso também. Apesar de aparentemente ser uma sociedade aberta, eles são bastante reservados com suas vidas particulares. No Brasil é o contrário. Os holandeses são abertos nos conceitos no que toca ao status, liderdades e garantias pessoais, procuram ser sempre um estado laico e às vezes isso choca e muito outras culturas.

Lógico isso muda, e aprender o idioma ajuda, mas o que me ajudou mesmo foi estudar a história do país e trabalhar.  Uma coisa é certa: se você precisa de ajuda, tem que aprender a pedí-la. Exemplo: você está bela e formosa andando na rua com suas compras, tropeça nessas ruas irregulares e cai… se estatela na calçada, tremendo vexame. Passa um holandês e ele sequer move um dedo. Você levanta, pega suas compras sacode a poeira e segue a vida pensando: “Putz, o cara nem para me ajudar a levantar”; ou “êita, povo frio! “ Porém, depois de alguns anos entendi que a lógica era outra. Na verdade o holandês fingiu não ver você cair, notou que não se machucou, e então decidiu ignorar para você não perder sua pose por ter tropeçado e ridiculamente se estatelado. É como se diseesse “Tranquilo, eu não vi você passar vexame e vou respeitar sua privacidade”. Lógico, caso você tenha se machucado ou pior, eles param e ajudam. Aqui eu aprendi que a privacidade é importantíssima. Caso você precise de ajuda, tem que aprender a verbalizar o pedido. Caso contrário, eles se mantem respeitosamente à distância e esperam o mesmo de você.

Diante da cervejaria “Uiltjes” em Haarlem, com o marido. 

Aqui na Holanda você precisa estar preparada para ser contestada e saber contestar com educação, a manter a cabeça fria, ter uma mente curiosa e  dar-se o devido valor. Aquele papo de humildade com seus talentos aqui dá errado, eles irão pensar que você não é bom no que diz que é (risos).A diferença entre a cultura aqui e outros países que morei foi grande. Em relação ao Brasil então nem se fala!

Hoje tenho amigos holandeses e estrangeiros. Porém, curiosamente, poucos brasileiros.

Fotos acima e abaixo: Bares e cafés no centro de Haarlem, arquivo pessoal Eliane Gomes.

Aqui, tambem aprendi o sentido da expressão “carpe diem” (aproveite o dia) por razões práticas: o clima. Durante um dia de sol no fim de semana o pessoal vai para rua mesmo! Vão para as praças, para os cafés, passear, usar os terraços dos restaurantes ou ficar numa espreguiçadeira no quintal pegando sol. Lembro-me uma vez eu arrumando a casa no sábado e o maior sol lá fora. Passei o dia na lida, pois na minha cabeça eu iria aproveitar eese tremendo sol no dia seguinte, com certeza. Ledo engano! O tempo virou no domingo, veio a chuva e eu fiquei sem aproveitar meu fim de semana. Quando você conhece o clima holandês, sabe que dia de sol no fim de semana é para aproveitar imediatamente, o serviço grande na casa ou no quintal que aguarde os dias nublados e de chuva!

Eu moro no interior e tenho um casal de vizinhos realmente maravilhosos na Holanda, todos se falam na minha rua – mas percebo que alguns outros são totalmente indiferentes, não gostam nem de dar “bom-dia”. Claro que você tem que ter um espírito aberto, flexível e colaborativo para ter um bom relacionamento com os vizinhos. No fim das contas, é uma questão de sorte – porque os vizinhos tem que ser abertos e colaborativos também. Como é o seu relacionamento com os vizinhos? Isso é muito importante na adaptação a uma cidade na Holanda. 

No dia-a-dia holandês existe muita atenção em não causar um impacto negativo nas pessoas ao redor. O bom relacionamento com vizinhos aqui é fundamental, verdade o que você disse. É um país pequeno e densamente povoado. Tem um senso comunitário forte, porem um tanto menos em grandes cidades como Amsterdã, Haia e Rotterdã.

Muitas coisas que afetam a vizinhança, trabalho e outras áreas são discutidas até chegarem a um acordo em comum (“poldermodel”). Dois dos meus vizinhos tem as chaves de casa e vice-versa. Nas férias, eles cuidam da minha gata, recolhem as cartas, dão água as plantas e você retorna a gentileza quando eles precisam. Isso sim foi um choque em relação ao Brasil (risos).

Belos jardins em áreas residenciais de Haarlem, e uma boa vizinhança com gente educada e ruas limpas. Fotos via Eliane Gomes.

 

Eu sou suspeita para falar, adoro Haarlem. Pela localização, pelo tamanho, pela educação e sotaque das pessoas e pelo que oferece (lojas, escolas, parques) acho a cidade holandesa ideal. Explique por favor para os leitores  por favor como é a cidade de Haarlem para você, e o que tem de mais interessante para se fazer?  

Como cidade, é mais antiga que Amsterdã e é a capital da província Noord Holland. E pasmem: só tem cerca de 157.000 habitantes (censo de 2015). Com o trem, Haarlem fica a 15 minutos de Amsterdã e 20 minutos de Leiden, 30 minutos de Haia e 50 minutos de Rotterdam. De bicicleta você está a meia hora da praia em Zandvoort, ou 10 minutos de trem para os preguiçoso (risos).

Acho que seria melhor falar de Haarlem em um outro post! (rs) Tem muita coisa interessante para se fazer aqui, e muita paisagem romântica.

Qual sua profissão na Holanda? Como foi o processo de chegar a esse seu métier? 

Estudei administração de empresas, psicologia, hotelaria, vários idiomas e por último: encadernação artesanal e restauro de papel e livros.

Por anos eu trabalhei para grandes multinacionais nas áreas de RH e no gerenciamento de projetos internacionais em IT e operações logísticas. Até que um dia…puf! Um belo e doído burn-out me fez mudar de direção. Desde 2007 eu encadernava livros por hobby, e foi então que voltei ao banco do estudante e tirei minha certificação profissional de encadernadora artesanal com especialidade em restauro de papel e livros. Foram 4 anos de estudo, mas nessa área você continua se aperfeiçoando e estudando.

A restauração exige conhecimento aprofundado de muitas técnicas e perfeição do trabalho.

Acima: documentos e um livro antes e depois de passar um processo de restauração feito pela Eliane.

Em 2015 eu abri meu atelier de restauro, o Nautilus. É uma profissao competitiva, intrigante e fascinante. Tem um pouco de tudo que já fiz na vida e mais: tem arqueologia, técnica, história, química, gerenciamento de verbas e projetos, tecnologia moderna e antiga. Porém é um trabalho solitário e requer delicadeza e foco.  Trabalho com galerias de arte, instituições privadas, bibliotecas de igrejas e colecionadores particulares. O livro mais antigo que restaurei foi uma bíblia de 1560 em pergaminho ao qual só existem outras 18 iguais. Essa parte da profissão requer muita atenção pois você lida com objetos preciosos, as vezes dá um friozinho na barriga. Porém também lido com os mais variados tipos de livros e documentos. Vários colecionadores de gibis, às vezes restauro livros de infância que trazem memórias e emocionalmente são valiosíssimos. Para esses eu dedico o mesmo cuidado, respeito e técnicas aplicadas aos demais livros. Não há distinção no tratamento dos projetos. Livros caros não custam mais que livros mais baratos. O preço é baseado sempre no serviço a ser prestado e quantidades de horas e material envolvido.

 

Em encadernação, eu recentemente ganhei um prêmio de um desafio de encadernação moderna. Todavia, na verdade, meu trabalho principal é o restauro.

E como podemos entrar em contato com você para contratar seus serviços? 

Por e-mail ou telefone. Visitas ao atelier são sempre agendas por motivos logísticos e de segurança. Eu planejo as atividades baseada nisso pois dependendo do dia estou lidando com  algum tipo de atividade que não posso parar, colocar de lado e dar atenção ao cliente. O atelier fica na minha casa. Dependendo do volume a ser trabalhado ou investigado, eu vou ao cliente. Na cidade faço tudo de bicicleta e até tenho mochila especial para carregar livros seguramente e sem molhar. No caso de visitas a outras localidades ou áreas além de 5 km, há uma taxa de visita.

O blog Brasil com Z agradece à Eliane Gomes por essa entrevista muito informativa da vida de uma expatriada bem adaptada! Mais info sobre a trabalho da Eliane via website da empresa dela, a Nautilus. Fotos dos trabalhos via Instagram e Facebook. Essa semana estamos publicando belas fotos e videos no Instagram do BZ e na nossa página no Facebook sobre o trabalho da Eliane e Haarlem, fiquem ligados! 

_________________

Ana Fonseca mora na Holanda e administra o BZ, um blog feito por brasileiros expatriados vivendo nos quatro cantos do mundo. Dicas de turismo, viagens e culinária, diferenças e choques culturais, as dificuldades em se fazer novos amigos e integrar-se, estudo e trabalho no exterior… falamos sobre tudo isso por aqui, e muito mais! Gostou do que leu? Então curta nossa página do Blog Brasil com Z no Facebook, nossa conta no Instagram e compartilhe nossas postagens com seus contatos. Agradecemos! Mora no exterior, gosta de escrever e quer se candidatar a participar mensalmente do BZ? Seja ousado (a) e escreva-nos um e-mail contando quem você é e sua motivação para fazer parte da equipe de autores: blogbrasilcomz@gmail.com Boa-sorte!

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