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Vida de expatriado: difícil e transformadora!

29/11/2018

 Elieser Borba – Áustria

A vida fora fora do local de origem sempre foi motivo de grandes debates para algumas pessoas. Existem os que não acreditam em levar a vida fora do Brasil, e pasmem, existe quem acredita que nem fora de seu bairro sua vida funcione. Há aqueles que dizem ser o termo “local de origem“ uma mera piada de mau gosto para manter indivíduos em suas “caixinhas“, dentro de suas próprias pátrias. Mas e quando a pátria amada é tão desolada que nos faz sentir exilados dentro de seus limites territoriais?

Molhobico bar. Ótimo lugar para ouvir filosfia de boteco. Foto: Paulo V. Lopes

Não irei me alongar em relação à história que me fez hoje ser um brasileiro residente em solo austríaco. Apenas gostaria de abordar questões que um amigo muito querido chamado Paulinho diz ser: “Genéricos muitos bons e que personificam–se em alguns aspectos que tornam as vidas de estrangeiros que vivem fora de seus locais de origem mais fáceis”. O Paulinho é responsável pelo Molhobico bar, para mim o boteco mais legal de Copacabana, no Rio de Janeiro. O estabelecimento fica na rua Ronald de Carvalho e foi onde conheci a mulher que hoje é minha esposa. Ela que é austríaca estava de férias quando nos conhecemos, curtindo o sol e a praia e eu parando pra tomar uma cerveja e colocar o papo em dia com meu camarada. Considero o Paulo um dos caras mais sábios e lúcidos que conheci na minha humilde existência. Um homem de meia idade, de fala mansa, mas pensamentos elevados. Que leva a vida em articular sua batalha diária com a caridade e a espiritualidade que são presentes em tudo. Ele viveu muitos anos em Portugal, onde construiu família e deixou bons amigos. Hoje faz uso do Skype e do Messenger para se comunicar com seus filhos e com os que são seus e lá ficaram.  Quando eu já apaixonado pela minha esposa me debruçava no balcão do bar e por vezes chorava de saudade pelo Atlântico de distância entre nós, ele não hesitava em me dizer que “apenas deixasse o tempo colocar as coisas no lugar que o restante era energia”.

Paulinho, Elieser e a namorada. Foto: arquivo pessoal Elieser Borba.

Um outro “genérico” do Paulinho que eu diria ser bacana é “Independentemente de grana, que cada pessoa se envolva com a cultura linguística do local onde vive”. A comunicação é a principal janela para a interação social e posteriores oportunidades de trabalho e renda, por exemplo. Percebo que enquanto no Brasil procura-se falar outros idiomas para ter um diferencial na corrida contra o desemprego, poucos parecem se dar à conhecer outras línguas para estreitar relações e entender processos sociais. Tudo é interessante do posto de vista concernente ao aprendizado quando nos tornamos mais recpetíveis ao novo, e pequenos detalhes no cotidiano podem valer muito mais do que um mês sentado numa sala de aula enfadonha. Trabalho num restaurante italiano, e certo dia, uma colega de trabalho que é da Eslováquia me perguntou o “porque de eu falar tanto o nome de Deus sem motivo na idioma dela”. De início não entendi absolutamente nada, mas ao conversarmos descobri que seu questionamento se dava em virtude de meu hábito genuínamente carioca de falar “porra” como se estivesse assistindo um filme e comendo pipoca. A palavra “Deus” tem grafia “Boh” em Eslovaco, mas a pronúncia é o mesmo que falar o nome do “Todo poderoso” em português. No fim das contas, hoje eu sei o que significa Deus na Eslováquia e minha colega faz uso do “porra” perfeitamente quando quebra uma garrafa ou algum prato por acidente…ou alguém discorda do fato de qua nada é mais cabível para momentos de fúria do que dizer um “porra” com bastante ênfase?

Noutra situação relacionada ao meu trabalho percebi que todas às vezes que perguntava se alguma mulher gostava de pepino elas torciam o nariz pra mim. Algumas faziam até cara de poucos amigos. Tenho o costume de perguntar em português se meus colegas gostam de legumes e verduras e assim aprendo os nomes noutros idiomas e ensino português à eles. Um dia uma das meninas me disse que “pepino” é a marca mais vendida de preservativos masculinos no Eslováquia e na Hungria.

Mas, deixando de lado por vezes constrangedor dos processos de aprendizado, é fato que até mesmo as menores situações para quem vive relações interculturais nos colocam as melhores posssibilidades para agregar conhecimento. E digo que é muito bacana ser brasileiro e em especial carioca e esperar ansioso pelo verão e até ver sentido em comerciais sobre essa estação na televisão. Eu, que nunca fui fã da cantora Marina, me pego cantarolando seu famoso hit sobre a estação nos meses de junho. E sendo um roqueiro nato me pego até ouvindo funk como se fosse o melhor ritmo do “cardápio” musical. Sinto falta do arroz com feijão e de ter feijoada no prato, de bater papo e entregar o café da manhã às sextas aos moradores de rua do Leme, sinto falta da família, dos amigos do grupo de cinema e por vezes sinto até falta do que realmente faz falta para que o brasileiro tenha uma vida mais digna e menos dura.

Mas a vida de quem mora fora não é fácil. A crise da razão que permeia minha mente e acredito que também seja algo presente na cuca de alguns ou de pelo menos os que tenham empatia é: Será possível viver num país que nos proporciona uma melhor qualidade de vida quando nosso país de origem padece na UTI sucateada na qual se tornou? Nesse momento não tenho resposta e talvez procure sentido para algo que não tem frente a realidade que está posta, mas meu recado hoje aos que vivem fora ou que almejam estudar, trabalhar, se mudar em definitivo ou apenas mochilar é só um: “viver é deixar viver” e deixar a vida acontecer. Sejam abertos a conhecer o novo, a provar outros sabores, talvez até a ter outros amores. Tenham principalmente coragem para se colocarem à prova. Isso é transformador!

 

No filme “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” quando o mago Gandalf convida Bilbo para uma aventura junto aos anões de Erebor ele pergunta ao feiticeiro:

– Você pode me prometer que irei voltar?

E Gandalf lhe responde:

– Não. E se você voltar, não será mais o mesmo!!

*******

Nota da administração do BZ: Para saber mais micos que os outros autores do BZ já pagaram pelo mundo (e algumas situações onde passaram vergonha e constrangimento) leia aqui, aqui e também aqui

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Eliezer Borba é carioca e escritor independente. Trabalha atualmente como cozinheiro e vive no interior da Áustria. Para saber mais sobre ele, visite a mini biografia.

Sigam-nos no FacebookInstagram e Twitter para atualizações diárias sobre turismo, viajar e morar no exterior. Blog “Brasil com Z”, um website feito por brasileiros vivendo nos quatro cantos do mundo!  

 

4 Comentários leave one →
  1. Arlete permalink
    10/12/2018 15:42

    Legal a sua reflexão, Elieser. Na minha opinião, a experiência de morar em outro país é tão transformadora e enriquecedora (com todas as suas facilidades e dificuldades) que todo mundo deveria, pelo menos uma vez na vida, vivê-la, mesmo que por algumas semanas. E nesse caso, não quero dizer passar três ou quatro semanas de férias num outro lugar. Viver num outro país é muito mais desafiador do que passar férias. Nos obriga a deixar a nossa zona de conforto, aprender um outro idioma e muito mais que isso, um novo modo de viver. Abraços

  2. 12/12/2018 14:57

    Fiquei curioso… qual o problema de se falar tanto em Deus na Eslováquia?

    • 12/12/2018 15:09

      A Eslováquia é um país bastante católico!! O que percebi na convivência com essa moça e outros colegas de trabalho dali é que eles (ou ao menos os que são católólicos ou Cristãos) levam muito ao pé da letra a coisa de “não falar o nome de Deus em vão” , por exemplo!! ✌🏽🤘🏽✊🏽

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