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O extremo consumismo e desperdício em países ricos

12/02/2019

 Elieser Borba – Áustria

Há alguns dias atrás estive conversando com minha esposa sobre a preocupação que tenho acerca do desperdício em nosso carinhoso e aconchegante “mocó” aqui na village que moramos na Áustria. Somos só nós dois e nossa velha cadela, que apesar de comer até pedras não pesa muito no orçamento exceto por esporádicas internações veterinárias. No entanto, toda semana percebo o quanto de gêneros alimentícos ainda colocamos no lixo. Alguns, pasmem, sem nem ao menos ter provado, o que me causa ainda mais indignação!

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Os waffers Manner são muito tradicionais na Austria

Me lembro que em meus tempos “Menino do Rio”, solteirão em Copacabana quase nunca desperdiçava alimentos. Óbvio que sozinho sempre gastei muito pouco por ter poucos luxos. Entre meus gostos mais pitorescos e favoritos os principais são ter sempre uma jarra de suco dentro da geladeira e poder tomar um café logo ao acordar pela manhã. Como a vida é bela e geralmente temos o hábito de torna-la feia gosto demais de beber esse café acompanhado de um desgraçado cigarro. Fazer o que? Mas meu vício em cigarros é papo pra outra postagem (se acharem interessante leiam a matéria “A cultura do cigarro na Áustria” no link https://blogbrasilcomz.com/2018/03/06/a-cultura-do-cigarro-na-austria/).

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Chocolates Lindt, dentre os mais cobiçados no mundo

A questão cerne desta postagem é que nos últimos tempos tenho percebido o quanto a vida fora do país potencializou em mim – e acredito noutras pessoas que vivem fora do Brasil – a prática do consumo de utensílios que a sociologia denomina como utilidades marginais,. São coisas que apesar de deixar a vida mais legal não passam de futilidades para nos engordar, ter acnes, dores de cabeça, diarréia, crise de consciência e ostentação para no fim das contas terminarem nas latas de lixo ou serem agentes essencias no processo de fazer com que venhamos a nos sentir inúteis a cada dia útil que vivemos.

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Os chocolates Zotter produzidos em Riegersburg também são muitos tradicionais na Austria.

Me lembro que ainda vivendo no Brasil era comum ver nas despensas de amigos e conhecidos o célebre “sal rosa do Himalaia”. Eram muitos os lares em que eu adentrava e me deparava com os frascos des sal raro ornamentando prateleiras. Por vezes eu retornava meses depois à casa de alguém e a posição do objeto era a mesma, imponente, impassível e absolutamente sem uso. Me lembro que, certa vez, ajudando na mudança de uma amiga fui o responsável por ter colocado pelo menos três frascos do condimento no lixo. E assim é com azeites, arroz arbóreo, pedaços de filet mignon, aspargos e alcaparras em vidro, chocolates caros dos mais variados e o óleo de coco, o mais novo queridinho da cultura do consumo sem sentido de alguns. Bom, nem tão sem sentido assim!!

Levando em conta minha formação acadêmica em serviço social, atualmente é muito fácil para mim entender esses processos levando em consideração que os meus e os seus antepassados já nasceram imersos e envoltos na lógica capitalista. A prática do consumo é algo mais que natural. Mas, pelo menos há anos no âmbito do vestuário consegui me libertar da vontade louca que acomete alguns de ter mais do que o necessário em roupas.

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O arroz doce Müller. Outro produto requisitado por crianças e adultos.

Hoje compreendo claramente que avistar alguns produtos de bom preço em prateleiras gringas (os quais no Brasil eu teria que levar ao caixa, mostrar meus pulsos e perguntar se “poderia pagar com sangue” mediante o preço elevado) é um agente motivador para comprar. Ainda arriscaria dizer aqui que este é possivelmente o último resquício que carrego da matutice de ser um estrangeiro que se maravilha com as coisas em outros países. Fico completamente em transe ao adentrar o corredor de “imundíces” (tradução: doces) e observar todas as cores dos pacotes de chocolates, pudins, arroz doce, biscoitos, bebidas e etc.. . Coisas que para provar no Brasil teria que estar muito folgado no orçamento ou “enfiar o pé na jaca” literalmente, comprando para depois me afundar de sofrimento no “DAJA” (outro termo de meu dicionário particular para Day After do Junkie Arrependido).

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Me lembro de ter comprado certa vez uma lata de ovas de peixe em Lisboa e de caminhar empolgado pensando no quitute. Só depois me dei conta da quantidade de ovas de tainha que eu tinha dentro de meu freezer em casa. Um detalhe: Apesar das tainhas serem peixes muito baratos suas ovas estão entre as mais caras; e um outro detalhe é que eu mesmo as tinha pescado.

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Óleo de coco, uma das mais novas tendências de consumo saudável.

Por mais incrível que possa parecer tenho tido meus ensinamentos frente a essa questão retornando ao passado. Quando penso em minha infância e adolescencia, uma época em que vendia as frutas do quintal de meus pais na feira de quinta-feira na rua onde morávamos em Madureira percebo que hoje só faço me entristecer com o desperdício por ação de meus próprios atos. Nesta época, por exemplo, era muito comum eu vender frutas ou mesmo carregar as bolsas das mulheres até suas casas por uns trocados. Dava parte da grana para minha mãe e com a outra comprava meus gibis, livros da coleção vaga-lume, pacotes de chocolate confeti, barras de chocolate Garoto e comia um pastel com caldo de cana na feira pelo simples fato de querer experimentar o que não me era comum por ser de uma família muito pobre e que muitas vezes mal tinha para comer.

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Queijos, queijos e mais queijos.

Hoje, tenho pleno entendimento de que já experimentei o suficiente para conseguir refrear mais meus impulsos. E não devemos trocar os legumes e verduras do armário da cozinha por um abjeto prato de sopa pronta no jantar regado à um vinho que certamente está há anos no armário apenas esperando para ser jogado fora.

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Sal do Himalaia, requintado, fino e totalmente dispensável.

Essa foi minha conclusão depois de anos morando no exterior: é mais fácil e rápido para nós brasileiros consumir supérfluos quando moramos em países ricos, e o desperdício acaba sendo grande. Pelo menos nos primeiros anos. Devemos aprender a controlar esse materialismo, e nossos impulsos. Assim podemos ter vidas mais felizes e bem adaptadas.

Opiniões? Coloquem por favor nos comentários!

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Eliezer Borba é carioca e escritor independente. Trabalha atualmente como cozinheiro e vive no interior da Áustria. Para saber mais sobre ele, visite a mini biografia.

Sigam-nos no FacebookInstagram e Twitter para atualizações diárias sobre turismo, viajar e morar no exterior. Blog “Brasil com Z”, um website feito por brasileiros vivendo nos quatro cantos do mundo!

 

One Comment leave one →
  1. AnaFonseca permalink*
    12/02/2019 12:16

    Acho que todo brasileiro morando no exterior se identifica com algumas coisas que você disse. No meu caso, comprei muita roupa e acessórios nos primeiro anos na Holanda. Aqui tem muita loja boa e barata (com artigos Mede in Bangladesh, Made in Morocco, Made in Thailand) e para várias estações. A gente acaba tendo um guarda-roupa de inverno, um guarda roupa de meia estação e uma pequena coleção para o verão. Xales, luvas, meias, gorros, vários guarda-chuvas… Também vai a maior grana aí. Roupa durante a gravidez, também gastei dindin: tinha que ter roupa de grávida de inverno e de verão. Perdi essas roupas todas, tive que doar. Botas e sapatos, o investimento é muitíssimo maior que no BR. Sem falar que ao longo dos anos a gente engorda e tem que recomprar muita coisa. Hoje em dia estou muito mais comedida com roupas, sapatos e acessorios.

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