Olá Brasil com Z! Eu sou Milene Patrial, moro nos Emirados Árabes Unidos, mais precisamente em Ajman, Emirado próximo de Dubai (ficou mais fácil dizer assim, não é?). Ajman é um Emirado menor que funciona como uma cidade satélite da grande Dubai.

Em Dubai.

Mas não pensem que dirijo uma Ferrari, frequento o Burj Al Arab ou estou coberta de ouro. Isso é para poucos e não faz parte da minha realidade e da maioria dos habitantes que aqui vivem. Para falar a verdade, Dubai nunca esteve na minha lista de cidade ideal para morar, mesmo sendo arquiteta e admirando as inovações tecnológicas e os projetos ousados, que não faltam aqui onde tudo é monumental e icônico. Pelo contrário, sempre apreciei a simplicidade das pequenas cidades, poder andar a pé, de bicicleta, encontrar com pessoas independente da relação comércio e serviço. Mas como nem tudo na vida acontece conforme idealizamos, fui surpreendida e convidada a experimentar algo novo. Isso aconteceu através do meu marido.

Há quatro anos, ele, Carlos André, foi selecionado para trabalhar em uma empresa de Abu Dhabi. Ficou muito entusiasmado porque era a chance de viver a experiência de morar no exterior trabalhando com o que ele gostava de fazer, lutar e ensinar jiu-jitsu, foi realmente algo inesperado. Na época, eu trabalhava em um escritório de arquitetura e representações de equipamentos e materiais para construção de lojas comerciais, atuando na elaboração de projetos e vendas. A decisão em aceitar veio depois de muita conversa e análise sobre o que tínhamos conquistado, o que poderíamos vivenciar e, principalmente, oferecer aos nossos filhos.

Carlos mudou-se em abril de 2015, enquanto eu permaneci no Brasil por quase um ano com nossos filhos, Camila (17) e Caio (12). Foi uma fase difícil para todos nós, além da distância, muito trabalho, questionamentos, organização, estudo, desprendimento e despedidas.

Em março de 2016 iniciamos nossa jornada às margens do Golfo Pérsico. Finalmente estávamos juntos. Recebi o visto impresso no meu passaporte com minha nova condição de trabalho: Housewife, assustador? À primeira vista sim, mas depois de trabalhar 19 anos sem intervalo, cheguei em rítmo de férias, não falava inglês e muito menos árabe, sabia que não iria trabalhar fora por um bom tempo, então aceitei o novo posto e me tornei mãe e esposa período integral.

Optamos por morar em Ajman onde encontramos escola, universidade e moradia próximos uns dos outros, o que nos ajudou nesse primeiro momento de adaptação. Levamos mais ou menos seis meses para nos organizarmos. Lembram quando falei “juntos”? Então, isso significa não só o encontro mas passar o dia todo “juntos”. Tive a oportunidade de realmente conviver com minha família, contávamos nossas histórias de infância, nossos sonhos e planos. O Carlos nos paparicava ao máximo nos horários de folga do trabalho. Foi um período de muita cumplicidade, diversão e passeios para explorar o novo ambiente. Parecia com aquelas férias de final de ano de quando éramos crianças na casa dos avós: comida, diversão, dias curtos e noites longas…

Claro que nem tudo foi diversão, as preocupações e medos estavam presentes e as dificuldades foram muitas. As diferenças culturais e de costumes pareciam gritantes, tudo novo aos nossos olhos. Eu ficava admirada com os projetos urbanos e construções mirabolantes e, ao mesmo tempo, horrorizada com a acessibilidade inexistente em muitos espaços públicos. A existência de ducha higiênica até mesmo nos banheiros dos parques (estão sempre com o piso molhado ou “alguém” está enxugando incessantemente) e a inexistência de calçada ou respeito ao pedestre na maior parte dos lugares fora das áreas nobres ou turísticas. O automóvel parece ser o elemento principal. Tinha vontade de relatar tudo que via mas não poderia julgar o lugar e as pessoas a partir da primeira impressão, de pouca informação ou pelo desconhecimento da história local e do mundo árabe. É difícil para nós ocidentais entendermos que nem todo árabe é islâmico, nem todo islâmico é árabe, que as roupas não identificam a religião, ou que a comida árabe que conhecemos no Brasil não é a mesma servida em todos os países dessa cultura. Através da leitura, do convívio com amigos oriundos de países árabes e o dia a dia nas ruas e comércio local, comecei a entender melhor a diferença existente entre eles, seus costumes, língua e culinária.

Pouco a pouco fui me afeiçoando ao lugar, que já chamo de lar, e me despindo do preconceito para aprender que podemos viver a simplicidade à sombra do maior prédio do mundo ou pisando nas areias mais ricas do deserto.

Hoje me sinto mais à vontade e gostaria de compartilhar algumas curiosidades e experiências vividas neste país que, mesmo pequeno em sua extensão, acolhe pessoas de todos os continentes, de diferentes credos e tradições. Ma’a Salama! Até a próxima…

*Ma’a Salama=  com paz , (expressão usada para se dizer Adeus)

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Milene Patrial é sul-mato-grossense e formada em Arquitetura & Urbanismo. Mora com a família nos Emirados Árabes desde 2016.

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