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Filmes holandeses de arte

13/08/2019

 Ana Fonseca – Holanda

Selecionei alguns filmes holandeses de arte para quem quer entender melhor e apreciar a história e cultura holandeses.  São filmes muito caros, densos, de produção impecável e com excelentes atores e direção.

The Black Book

(Título original: “Zwart Boek”)

Direção: Paul Verhoeven, 2006

Com Carice van Houten, Halina van Rijn, Sebastian Koch.

A fotografia é belíssima, e a Carice Van houten brilha absoluta do início ao fim do filme, num papel muito difícil. É ela quem segura a credibilidade dessa obra do Paul Verhoeven, que sempre se declarou totalmente encantado por ela.

BLOG Carice 4

BLOG Carice 2

Foi esse filme o “Black Book” que projetou a Carice van Houten e o Michiel Huisman (acima) internacionalmente. Bonitos, talentosos, jovens, ótimo inglês… Depois dele, ambos receberam convites para testes de personagens no “Game of Thrones” (se tornaram “Melissandre” e “Daario Naharis”, respectivamente), com muito sucesso diga-se de passagem. Acompanhe a vida dela no Instagram: @leavecaricealone e do Michiel: @michielhuisman (o nome dele é Michiel mesmo, e não “Michael” porque os nomes holandeses são tudo doido mesmo).

BLOG Carice 3

A história do BlackBook tem uma série de reviravoltas que só mesmo um filme da II Guerra permite. A série de “coincidências” no final subestima um pouco a inteligência do espectador, ai ai… Se aproximando do final, a história parece bem concluída em um determinado momento.  Mas os minutos finaizinhos do filme, filmados em Israel, são inesperados e bem interessantes.

Soldier of Orange (título original: “Soldaat van Oranje”)

Direção: Paul Verhoeven, 1977

Com Rutger Hauer

Um clássico entre os filmes holandeses do século passado, adorado “em casa” na Holanda e nos EUA, tanto pelo público quanto pela crítica especializada. O Verhoeven é um diretor muito controverso, tendo feito tanto grandes filmes de arte (Black Book, Elle) como grandes porcarias (Robocop, Showgirls, Total Recall). Aqui, com “Soldier of Orange” ele acerta na mão, isso já nos anos 70.  Volta e meia passa na televisão holandesa (e meu marido continua assistindo pela enésima vez). É um enredo cheio de reviravoltas, vou tentar resumir assim: As vidas de um grupo de amigos de Leiden tomam diversas direções durante a Segunda Guerra Mundial: uns optam pela resistência, outros o lado inimigo. Há até uma personagem judia que toma o lado de um alemão.

Esse filme é tão idolatrado na Holanda, que virou musical de sucesso. E catapultou a carreira do Rutger Hauer.

Um detalhe histórico: os belgas e franceses sempre criticaram o comportamento dos holandeses por terem tido uma resistência pouco expressiva diante do domínio alemão. Há que se ver que a Holanda caiu rápido diante da invasão dos alemães, e sempre foram um povo pouco acostumado a subterfúgios. Além do mais, a crítica dos franceses e belgas procede: a proporção do número de mulheres holandesas que “andaram” com o invasor alemão é estimado entre 120 a 150 mil mulheres – e cerca de 12 a 15 mil chegaram a ter filhos com eles. (Fonte: http://www.isgeschiedenis.nl/nieuws/moffenmeiden-foute-relaties-de-tweede-wereldoorlog/).

Certamente, Soldier of Orange dá um quadro bom para o telespectador analisar como foi difícil organizar a Resistência holandesa diante do domínio alemão.

The Storm

(Título original em holandês: “De Storm”)

Direção: Ben Sombogaart, 2009

Com Sylvia Hoeks e Barry Atsma

O início de filme é todo cinza, nublado, escuro. Filmar com água e com fogo é muito, muito difícil, e nesse filme foi muito bem feito. As atuações da Sylvia Hoeks e Barry Atsma são fortes e perfeitas. A história faz referência à grande inundação que aconteceu de verdade na Holanda em 1953, quando os diques arrebentaram de vez numa noite de inverno (e pior ainda: num fim de semana), e deixou um trauma de décadas em toda uma geração de holandeses da Zelândia, no sul do país. A água chegou até o telhado das casas, num inverno de -0ºC, e muita gente morreu enquanto esperava ajuda.

A mocinha do filme, Julia, é uma filha de fazendeiros que engravida do namorado também agricultor, tem um filho, e é rejeitada como mãe solteira pelo próprio pai e gente da comunidade dela, comunidade religiosa e grossa por sinal. De personalidade forte, durante a enchente ela se refugia no ático da casa com os pais, a irmã e o bebê, protegido numa caixa. A família toda morre devido à demora por ajuda. Julia se salva com a ajuda de um oficial mas deixa o bebê para trás, e suspeita que ele tenha sido salvo das águas. O filme todo é só desespero, água pra todo lado, falta de comida, luta pela sobrevivência, vento gélido, egoísmo e mortes, somada à quase paranoia da mãe buscando pelo bebê. O final do filme pula para os coloridos anos 70, quando vemos os protagonistas testemunhando a inauguração dos mega diques na área da Zelândia inundada décadas antes. E eles têm uma surpresa pessoal muito dura.

É um filme bonito e muito triste, mas ajuda a compreender porque os holandeses são como são, muito dedicados em encontrar soluções tecnológicas para proteger a sua terrinha.

BLOG De Storm

Esse filme projetou o Barry Atsma, que acabou fazendo o papel do Van Gogh numa mini série (e eu me rasgo inteirinha por ainda não ter visto). Ele e a Sylvia Hoeks são atores jovens, muito seguros e de peso no cinema holandês. Olha ele aí embaixo como o Van Gogh:

BLOG Van Gogh

O Barry é perfeito para o papel e aparece na mini série falando francês também. Detalhe: Ele fala várias línguas, pois já morou e atuou em vários países, incluindo o Brasil.

BLOG Van Gogh 2

Bride Flight

(Título original do filme holandês: “Bride Flight” em inglês mesmo, baseado no romance Bruidsvlucht. O interessante é que o título em holandês do livro tanto poderia ser traduzido tanto como “voo” ou “fuga” de noivas.)

Direção: Ben Sombogaart, 2008

Com Waldemar Torenstra, Anna Drijver, Karina Smulders e Rutger Hauer.

Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos europeus foram tentar a vida em outros continentes. Nos anos 50 a vida na Holanda era muito precária e pobre, e o investimento dos americanos com seu “Plano Marshall” ainda não tinha decolado. Gente jovem e ambiciosa na Holanda foi em grandes quantidades para a África do Sul, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, majoritariamente. O título “Voo da Noivas” faz referência a 50 mulheres holandesas que foram se casar com neozelandeses, tomando um voo da KLM – e esse voo aconteceu de verdade.

BLOG Bride Flight 4

Esse filme de ficção vai de 1953 a 2008, mas não de maneira sequencial. As três mulheres da história – Marjorie, Esther e Ada –  fazem escolhas morais dramáticas no novo país, e as vidas delas passam a se interligar para sempre.

O filme levanta algumas questões morais e religiosas, e portanto sentimentos como amizade, culpa, arrependimento e traição. Temos que ver sempre os personagens como produtos de uma época, claro. Mas esse filme não é “datado” e tenho certeza que muitos espectadores se identificariam hoje com os dilemas dos personagens. Aqui não há mocinho(a) nem bandido, mas gente vivendo numa época tumultuada (o pós-guerra) e transição (a vida como estrangeiro num novo país).

Os atores Waldemar Torentra e Anna Driver, muito talentosos. 

O “bônus” para o espectador é ver o Rutger Hauer fazendo o personagem principal já idoso. Muito bom!

Com toda sinceridade, Bride Flight não entra na minha lista de filmes holandeses favoritos, pois acho algumas situações forçadas ou improváveis. Por outro lado, as paisagens da Nova Zelândia dão um show!

Para concluir, gostaria de observar que os filmes holandeses batem um bolão com papéis femininos. E os atores holandeses me parecem que estão a fazer um esforço grande para estar à altura da beleza e talento das parceiras holandesas, muito seguras e naturais. Na sociedade e na arte holandesas, a mulher brilha.

**********

Bom, no post de hoje, esses são os filmes de arte holandeses de destaque. Tem muito mais? Tem muito mais. Coloquem dúvidas e mais sugestões aí nos comentários, são sempre bem-vindos.

Portanto…. Geniet ervan en tot ziens! 

________________

Ana Fonseca mora na Holanda desde 1999. Administradora do blog Brasil com Z,  é também autora da série de livros “Comida de Gringo”. O primeiro volume da série está à venda na loja da Constelação Editorial. O segundo volume será publicado pela mesma editora em novembro de 2019. 

Blog Brasil com Z, um blog coletivo feito por brasileiros vivendo nos quatro cantos do mundo. 

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