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Japão: primeiros momentos

02/08/2008

Os Ventos Divinos…

… ou kamikaze como são conhecidos mundo a fora na verdade não se referem aos pilotos-suicidas japoneses da 2ª guerra. Em fato dizem respeito a um fenômeno onde fortes ventanias em alto-mar repeliram tropas conquistadoras vindo da mongólia em idos de 1280. Acreditou-se na época que o Deus-vento havia defendido o Japão de uma imensa frota de bárbaros, o que para mim faz sentido já que aconteceu 2 vezes! Embalado nesses mesmos ventos desembarcou na ilha um outro bárbaro, brasileiro dessa vez.

Esse texto, acredite, não é sobre pilotos-suicidas, deuses-vento ou história japonesa. É sobre minhas primeiras impressões sobre o Japão. Contando do momento em que desci do avião em 7 de janeiro de 2007. Para poder relembrar detalhes, estive lendo meus primeiros posts e revendo fotos da época. Nessas horas é que agente se dá conta de como as coisas mudam rápido, bate até uma certa melancolia e aquela nostagia precoce típica de quem viveu fortes emoções num curto espaço de tempo.

Preparativos para a Viagem: cadeados, passaporte, passagem, marcadores, caneta estilo pincel e é claro meu sketch book! Foto tirada no dia do embarque no Brasil.

Como escrevi demais, recomendo certo preparo antes de continuar: clique no link abaixo e, enquanto a outra página carrega, puxe uma almofada e pegue alguns pesticos pois a leitura será um pouco longa!

Para situar melhor, vou dizer o que pensava do Japão antes de sair da cabine pressurizada: eu não tinha a menor idéia do que era esse país. Na melhor das hipóteses imagina algo como os antigos seriados japoneses que assistia quando criança. Jaspion e Jiraya para mim simbolizavam o modo de vida japonês, algo como Batman e X-men eram referência de como se vivia nos EUA. Mesmo tentando amenizar a ignorância lendo livros sobre samurais, acompanhando anime e vendo filmes japoneses o impacto foi grande. Nunca havia viajado para o exterior na vida, queria que o primeiro lugar fosse inesqueçível e fosse algo que eu realmente quisesse conhecer. Nenhum lugar serviria senão a terra ancestral, de onde ouvi inúmeras histórias fascinantes; desde dos tempos de criança, com os olhos esbugalhados ouvindo meus parentes mais velhos enquanto me lambuzava comendo manju.

Vendo do alto a ainda desconhecida Tóquio, fiquei espantado com as verdejantes montanhas e os infindáveis campos de arroz. O Japão era muito maior do que eu havia imaginado de fato, apesar de ser 80% montanhoso. Ao aterrizar, todos passageiros relaxaram seus tensos corpos nas poltronas enquanto a comissária de bordo anunciava orgulhosa ao fundo de um hino pomposo que havíamos chegado enfim no Japão.

Talvez a primeira coisa que notamos quando viajamos para longe é a mudança no clima, minha mãe sempre comenta como é mais frio em Minas Gerais que em São Paulo, mas só fui dar conta disso vindo do verão brasileiro e chegando no inverno japonês. Pensei por um momento que haviam esquecido o ar condicionado do aeroporto ligado no máximo. Mesmo do alto já tinha sido possível ver a organização das ruas e prédios, tudo quadradinho, limpinho, nada fora do lugar. “Não é a toa que os japoneses têm a fama de serem organizados” pensei com meus botões.

Vendedor de farmácia me explica onde existem clínicas perto de casa (essa foto é verdadeira!)

Extremamente educados, os japoneses parecem sempre dispostos a servir. Nos meus primeiros dias não conseguia dar uma volta no quarteirão sem me perder. Achar o lugar para onde estava indo e voltar para casa era uma aventura cheia de adrenalina. Fazer compras era como escolher o que comer com uma venda nos olhos, nessas horas eu tentava usar meu ínfimo japonês para perguntar ao funcionário do supermercado “isso é de comer?“. Por sorte minha, os sorridentes atendentes sempre se esforçaram para me fazer entender o que estava levando. Sendo por gestos, desenhos ou até mesmo apelando para o inglês (que eles morrem de vergonha de falar). Já no transporte coletivo tive muita ajuda de transeuntes comuns. Não foram poucas as vezes que, perdido, me vi obrigado a pedir orientações. Muitas vezes a pessoa, vendo que eu não compreendia bem o idioma, se dispôs a acompanhar-me até onde eu estava indo somente para assegurar-se que eu chegaria onde queria. Esse tipo de história é comun no Japão e espanta até mesmo europeus, americanos e povos asiáticos (que são considerados “de educação superior”).

Um típica ruela interiorana japonesa. No caso algum lugar perto do primeiro lugar onde me instalei, em Nishio (Japão-Central)

Como morava no interior, a impressão que eu tinha é que haviam muitos velhos aqui e que japoneses não gostavam de passear na rua, frequentar parques ou brincar com os filhos em frente suas casas. Agora digo que nem todas as impressões estavam erradas, realmente a população de idosos no Japão é impressionante e chega a ser um problema sério para a previdência desse país; talvez por isso divertir-se na rua é algo mal-visto. Quem nunca morou perto de algum velho-chato que não deixava se fazer nada na rua para não atrapalhar a soneca do meio da tarde? Imagine agora um país só com gente assim! Mas calma, não estou dizendo que os idosos japoneses são chatos, muito pelo contrário. São apenas rigorosos com a educação. Num país apertado como o Japão, é necessário sempre se pensar no próximo. Coisa que eu não tinha muita noção antes. Aqui não se fala alto nas ruas, não se faz festa em casa e também evita-se barulho ao máximo. Isso é algo bem típico de povos latinos.

É um país silencioso, limpo, organizado… e chato muitas vezes. É fácil aborrecer-se aqui, principalmente no começo, quando não se conhece nada, não se fala nada e não se tem muito dinheiro para passear. Mas conhecendo as pessoas certas pode ser ter grandes momentos. O comprometimento que o japonês tem com seu trabalho é algo a admirar-se. Parece até que eles não têm preguiça. Isso nota-se quando se faz a primeira compra aqui. É tudo tão rápido e perfeito que você até se espanta em como foi simples comprar. Sem filas de caixas, produtos com defeito e outras coisas que para mim eram comuns no Brasil.

Japoneses adoram ler. É normal encontrar um monte de gente lendo a revista inteira nas lojas. Alguns até esquecem que estão no shopping e se esparramam , vide o moçoilo da figura

Eu poderia continuar ainda mais, pois minhas “primeiras impressões” ainda não acabaram. Foi só a pouco que me dei conta de que é impossível absorver milênios de cultura oriental em 1 ano ou por toda a vida. A cada momento eu tenho uma nova experiência, fica difícil dizer quando passou a novidade e quando começou a rotina.

A vida muda muito rápido aqui onde o sol se levanta. Ainda mais quando se é um kamikaze como eu, que mergulhou com tudo naquilo que acreditava ser o melhor que se poderia fazer sem olhar para trás.

Matta kondo!

postado por Gabriel Shiguemoto

6 Comentários leave one →
  1. 02/08/2008 20:47

    Muito bom, tbem comecei pelo comeco, mas parei no comeco.
    Vou ver se completo mais logo…
    Abracao!

  2. 04/08/2008 3:53

    Entendo perfeitamente!! Mas se vc pensa que essa melancolia e volta ao passado ficarao para tras, vc esta redondamente enganado. E com frequencia que lembro dos meus primeiros momentos em terras niponicas. Lembro de sensacoes, de situacoes e ate de cheiros!! E olha que falo de coisas que me aconteceram ha pouco mais de 10 anos. Boa Sorte pra vc agora no presente e, claro, no futuro tbm!

  3. kauecorrea permalink
    04/08/2008 7:12

    Achei muito interessante vc comentando que o tempo passa rapido por ai, seria essa uma impressao de todo imigrante? rs. Eu tenho o mesmo problema aqui no Canada, as vezes tenho a impressão que nao disponho do mesmo tempo que tinha no Brasil aqui.

    Tirando a rigidez com a educação e consequentemente a “esperteza” das pessoas, acho que o japão até se parece com o Canada, incluindo o clima ! rs.

  4. persistenciadamemoria permalink
    04/08/2008 7:57

    Ola querido,

    Ler as suas primeiras impressoes eh como viver novamente as minhas. Como estar em uma montanha russa, uma mistura de friozinho na barriga com adrenalina.
    Morar em outro pais eh ter primeiras impressoes por muito tempo.

    Beijos
    gui

  5. Kelly permalink
    06/08/2008 15:12

    oi Gabriel,
    acredito que a beleza em se viajar pelo mundo está em aprender todos os aspectos que ele tem a mostrar, e espero que vc ainda tenha muito a descobrir sobre essa terrinha. 🙂
    Espero poder fazer isso logo também, conhecer a terra da onde meus avós vieram é um sonho de infância.

    Um beijo!
    K.

  6. Camila Plaster permalink
    14/09/2008 4:17

    Oi Gabriel,
    achei suas primeiras impressões muito interessantes.^_^
    Pretendo viajar para o Japão nos próximos meses.

    Bjos
    Boa sorte!

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