Luciana Rodrigues, que mora há 9 anos no exterior, nos enviou um ótimo texto mostrando um pouco como funciona o preconceito na Itália. Confira.

A foto retrata imigrantes clandestinos que chegam de barco na costa da Itália. Muitos barcos afundam e costuma-se dizer que o mar mediterrâneo é um grande cemitério de clandestinos.

Depois de quase nove anos residindo legalmente na Itália, posso responder que, sim, existe preconceitos contra estrangeiros, mas, não, não existe preconceito contra brasileiros. Muito pelo contrário: ser brasileiro é cool!

É óbvio que ser brasileiro gera uma série de pensamentos e opiniões pré concebidas, tipo: futebol, carnaval (e mulheres peladas) e muitos italianos que ainda acham que o Rio de Janeiro é a capital do Brasil, ou que o Brasil é só Rio, São Paulo, Fortaleza, Bahia e Amazônia. Aliás, muitos só conseguem mesmo lembrar das duas primeiras capitais citadas.

O brasileiro é visto como um estrangeiro legal, alegre, divertido, que segundo o italiano possui uma cultura bem próxima à cultura deles. Considerando ainda o enorme contingente de italianos que imigrou para o Brasil, quase todo italiano tem um parente próximo ou distante, ou um amigo com raízes ítalo-brasileira, contribuindo, então, para que o Brasil faça parte do imaginário coletivo italiano.Posso dizer que realmente os italianos gostam muito dos brasileiros.

Infelizmente esse quadro de amabilidade não é compartilhado em relação aos estrangeiros de outras nacionalidades: árabes (e pior ainda se muçulmanos), africanos, países do leste europeu, países “muito exóticos”. Os italianos costumam dizer que os estrangeiros estão invadindo a Itália, como se estivéssemos novamente no tempo das cruzadas. O governo vem varando leis muito restritivas e preconceituosas contra as novas ondas de imigrantes. Com o governo de direita no poder, com a sua matriz fascista-populista, escuta-se cada vez mais (de maneira aberta ou velada) o moto: “A Itália para os italianos”.

Mas é importante ressaltar que hoje em dia há muitos trabalhos que são feitos quase exclusivamente por imigrantes, normalmente os trabalhos mais humildes, mas de importância primária para a sociedade: babás, enfermeiras, domésticas, acompanhantes para idosos, pedreiros, costureiras, sapateiros, operários para a indústria pesada, frentistas de posto de gasolina, garçons, ajudantes de cozinha. Quase sempre trabalhos pesados e mal remunerados, mas sem os quais o país enfrentaria uma grande crise de mão-de-obra, já que o italiano hoje em dia não quer mais “sujar as suas mãos” com esse tipo de trabalho. Muitos italianos preferem o desemprego, ou pular de galho em galho, mas não fazem mais o trabalho dos “negros” que chegam aqui para dar seu sangue, suor e lágrimas em busca de um futuro melhor. Digo “negros” porque aqui na Itália existe um ditado que diz “lavorare come un nero”, ou seja, “trabalhar como um negro”, quando uma pessoa faz trabalhos pesados, normalmente feito por escravos.

Escrito por Luciana Rodrigues – Roma, Itália