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Pride & Prejudice

01/10/2008

Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

Conheci muitos brasileiros nestes oito anos que vivo em Londres. Das muitas reclamações que ouvi, poucas na verdade se tratavam de preconceito. A maior parte envolvia problemas com visto, acomodação, tempo ruim, saudade da família no Brasil, falta de dinheiro ou trabalho duro. Já ouvi gente falar que sofria mais preconceito quando viviam no Brasil. Não estou querendo afirmar que o preconceito não exista em Londres; apenas que os brasileiros são tão vítimas de preconceito ou estereótipos assim como qualquer outra nacionalidade, portanto, isto não é algo que deva desanimar ninguém com a intenção de vir para cá.

A obra Orgulho e Preconceito de Jane Austen retrata o preconceito na sociedade inglesa do seculo XVIII

A obra Orgulho e Preconceito de Jane Austen retrata o preconceito na sociedade inglesa do seculo XVIII

Muito se discute nos meios de comunicação sobre os imigrantes. Trata-se de um assunto que sempre aparece nas manchetes dos jornais ou nos discursos políticos. Os “xenófobos” temem a “invasão” de estrangeiros pois eles irão “tomar dos ingleses os poucos empregos disponíveis, usufruir dos benefícios sociais dados pelo governo e abusar do sistema público de saúde”. Isso faz com que estes tratem com hostilidade todos aqueles que não dominam a língua inglesa ou estão aqui em busca de trabalho. Felizmente, nem todos são assim.

Jade Goody e Shilpa Shetty

Jade Goody e Shilpa Shetty

Um exemplo disso foi o episódio ocorrido na edição do ano passado do Celebrity Big Brother inglês quando a inglesa Jade Goody foi massacrada publicamente por ter maltratado a indiana Shilpa Shetty. Além de cair em desgraça perante ao público devido aos seus comentários maldosos de teor racista, Goody ainda teve que engolir a vitória de Shetty no final.

Muitos empregadores dos setores de baixa remuneração estão habituados a contratar estrangeiros para aqueles empregos desprezados pelos ingleses. Alguns deles até dão preferência à certas nacionalidades. Por exemplo, grande parte dos imigrantes filipinos trabalha no setor de hotelaria enquanto, mais recentemente, os poloneses estabeleceram uma boa reputação na área de construção. Nos pubs, você facilmente encontrará atendentes australianos. E assim por diante.

Para os empregos qualificados, você só será considerado para um emprego se tiver vasta experiência além de falar e escrever em inglês fluentemente. Os melhores empregos serão quase sempre reservados aos ingleses já que naturalmente eles darão preferência aos seus próprios conterrâneos, salve as raras exceções ou quando trata-se de uma empresa multi-nacional ou “globalizada”.

Não é possível generalizar ao falar sobre preconceito em Londres pois cada um teve ou terá uma experiência particular com pessoas diferentes. Talvez você dê sorte de apenas conhecer ingleses receptivos aos estrangeiros. A grande maioria deles já está habituada com a presença dos estrangeiros, compreende a necessidade que o país tem de mão-de-obra barata e acredita que estes trarão benefícios ao país trabalhando e pagando impostos. Porém, ao colocar-mos na posição deles, é de se entender que haja uma certa desconfiança quanto às intenções das milhares de pessoas que passam pela imigração diariamente. O governo já admitiu que perdeu o controle de quantos imigrantes vivem ilegalmente no Reino Unido (muitos destes brasileiros) e não estão dando conta de processar os milhares de pedidos de asilo. Tudo isso causa uma preocupação nacional quanto aos efeitos disso tudo sobre a segurança e recursos públicos, o que gera uma certa antipatia contra aqueles que vêm para cá e não se esforçam em se integrar à sociedade.

Jean Charles de Menezes

Jean Charles de Menezes

A ameaça constante do terrorismo faz com que o foco caia sobre os imigrantes de origem islâmica. É comum passar por policiais parando e revistando suspeitos nas ruas ou em estações de metrô. Se por um lado isso provoca o aumento do preconceito dos ingleses contra os estrangeiros em geral, os brasileiros acabam se tornando mais aceitos por não representarem perigo à sociedade. A exceção nesse caso foi o que aconteceu com o brasileiro Jean Charles de Menezes numa fatídica manhã de Julho de 2005. Confundido pela polícia britânica com um suposto homem-bomba, ele foi morto a tiros na estação de metrô de Stockwell.

Posso estar enganada, mas creio que não exista nenhuma outra cidade européia com tamanha diversidade cultural como em Londres. Se levarmos em consideração quantas nacionalidades convivem lado a lado em uma certa harmonia, cada uma com seus costumes particulares, isso significa que o preconceito aqui não seja um problema tão grave como em outros lugares.

Outras formas de preconceito

Londres atrai homossexuais de toda parte do mundo. Não que não exista o preconceito, mas imagino que a vida de um gay aqui seja muito mais fácil do que em seus países de origem longe de seus familiares. Ser gay em Londres ou “sair do armário” é a coisa mais comum e casamento entre homossexuais já é permitido por lei desde 2005. Grande parte das celebridades gays são respeitadas e adoradas e existe até uma moda entre apresentadores heterossexuais se fazendo de gays para se aumentarem sua popularidade.

No futebol, existe uma grande rivalidade entre os times londrinos: Chelsea, Tottenham Hotspurs, West Ham, Fulham e Arsenal. Porém, quando algum desses times ou a própria seleção inglesa viaja para outros países europeus para jogos internacionais, é bem comum que os jogadores negros, verdadeiros astros no futebol inglês, sejam vítimas de insultos racistas por parte da torcida local. Esse problema é exatamente o mesmo quando a seleção brasileira joga na Argentina, no entanto esses episódios são levados muito a sério tanto pela imprensa como pelas autoridades esportivas.

Também existe preconceito entre os próprios britânicos. São chamados de chavs os jovem de classe baixa que se vestem com roupas informais, usam muita gíria e se comportam de maneira agressiva e vulgar. As WAGs (wives and girlfriends) são as esposas e namoradas de jogadores de futebol, normalmente modelos cujo passatempo é torrar a fortuna dos seus respectivos. Além destes estereótipos, existe a tradicional rivalidade entre os northerners e southerners. Em Londres, o mesmo se aplica à turma que vive ao norte e ao sul do Rio Tâmisa. E como em qualquer parte do mundo, há diferenciação entre gordos e magros, pretos e brancos, ricos e pobres, fumantes e não-fumantes etc. Não tem como escapar, sobra até para os ruivos! .

O humor inglês é conhecido mundialmente por ser inteligente, seco e negro. A série da rede BBC Little Britain tem feito o maior sucesso ao debochar de alguns estereótipos da sociedade britânica: um jovem gay que teima em dizer ser o único gay da sua cidade cheia de gays por toda parte, a senhora obesa preconceituosa que ministra sessões de perda de peso, o deficiente físico que na verdade é perfeitamente normal, o assistente gay apaixonado pelo seu chefe que é o primeiro-ministro, o travesti que se comporta como uma mocinha e, talvez a personagem mais famosa de todos, a adolescente Vicky Pollard, inspirada nos chaves que vive se metendo em confusão.

2 Comentários leave one →
  1. persistenciadamemoria permalink
    02/10/2008 11:45

    Texto fantástico, como sempre, flor!
    Aproveitando que esse wordpress aceita comentários grandes, queria contar uma história que aconteceu em Londres.
    Eu trabalhava em um bar cheio de brasileiros. Só os donos e meu supervisor que eram ingleses. Um dia, eu cheguei para trabalhar e meu chefe disse que a outra menina(também brasileria) que trabalhava comigo tinha pedido demissão.
    Eu perguntei o motivo de uma saída tão repentina e sem aviso prévio e ele me contou que ele jogou uma bandeira brasileira que tinha perto da janela no lixo, segundo ele, foi uma brincadeira (nesse humor negro descrito no texto), mas ela considerou muito preconceituosa e foi embora na hora.
    Não sei dizer quem é o certo e o errado na situação, mas acredito que as pessoas que moram fora do seu país ficam mais sensíveis ao comentário alheio e as vezes consideram preconceito o que não é e também acredito que meu ex supervisor tenha que ter mais cuidado com as piadinhas que faz. Mas como resultado, os chefes do bar deram uma bronca horrenda no meu supervisor e a menina ganhou todo direito de sair sem aviso prévio e foi paga normalmente.
    Como a flor bem descreveu no texto, os ingleses têm muito medo de atitudes preconceituosas.

  2. Fractal permalink
    09/10/2008 20:16

    É justamente a quantidade enorme de imigrantes em Londres que gera a discriminação. No fundo, as pessoas se ressentem de ver o seu país tomado por gente que não fala o idioma e nem está a fim de aprender, que deseja ver as leis alteradas para atender às suas necessidades específicas e que sim, acabam causando problemas ao superlotar hospitais e sistemas de transporte público.

    Antes da imigração em massa, a Inglaterra tinha sim várias vagas precisando ser preenchidas. Só que ao invés de forçar os ingleses que estavam se utilizando irregularmente da política de benefícios sociais para não trabalhar (as estatísticas da época e atuais provam isso), eles acharam mais simples e rápido “importar” quem de fato queria trabalhar. Funcionou bem durante algum tempo, até que a situação saiu do controle e gente em excesso começou a entrar, inclusive criminosos e algumas crianças, que eram abandonadas na porta de prefeituras e as cidades eram legalmente obrigadas a se responsabilizar por elas.

    Se você for ao countryside britânico, talvez encontre menos preconceito do que nas grandes cidades. Pelo menos essa é a minha experiência.

    Quanto ao comment anterior, fica difícil se mudar para um país onde o humor irreverente faz parte da vida das pessoas e querer bancar o ofendido sempre. O “medo de atitudes preconceituosas” é simplesmente o medo de ser processado. Pessoas muito “sensíveis” não sobrevivem muito tempo em Londres. Em resposta, ela poderia ter jogado a bandeira britânica no lixo, também – no final, todo mundo riria e acabaria por aí. Se adaptar à cultura alheia é preciso.

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