Rafael
Colaborando de São Paulo, Brasil

Olá, meu nome é Rafael, moro em São Paulo/SP há quase dois anos e meio. Quando uma amiga que escreve aqui neste site me convidou para escrever, tenho que admitir que, a princípio, fiquei receoso em aceitar. O motivo do convite: Londres. A cidade onde morei seis anos, e que agora… parece tão distante e ao mesmo tempo tão perto. Mas fiz uma auto-análise: caramba, por que o receio? Por que não escrever um pouco sobre essa cidade que me deu tantas alegrias e me fez penar tanto? Ela parece tão distante e tão perto agora… são adjetivos opostos que uso agora, são extremos, como o amor e ódio que sentia pela cidade. Completei minha auto-análise. O resultado está aqui, nestas linhas a seguir.

Conheço muita gente que vai para Londres para se encontrar – talvez a cidade inteira seja um depósito de achados e perdidos. Eu, eu fui para a cidade quase porque ela me escolheu. Em 1997, decidi fazer um curso lá, de dois meses. Sério, fui estudar inglês em Londres não porque amava a cidade sem nunca ter botado os pés lá (nossa, outra “moléstia” que acomete muita gente por aí). Fui estudar inglês lá porque na época tinha escolas boas e baratas e me pareceu lógico, na Grã-Bretanha, estudar inglês em Londres. Fui, passei o tempo lá e, na boa: não me apaixonei. Houve dias de sol, houve chuva, por isso não acho que foi o mau tempo que tantos dizem que é típico de lá tenha sido um fator para eu não ter caído de amores. Sei lá. A química não bateu. Voltei para o Brasil e fui à praia. Estava com saudade de uma boa praia, isso sim é verdade.

Até 1999, fiquei no Brasil. Aí, fiz um concurso para um emprego que exigiria que eu me mudasse para Londres. Minha vida profissional estava num limbo, achei que poderia ter chance. Passei. A empresa mandou passagem, mergulhei de cabeça. Nem me despedi dos meus pais, que estavam viajando justamente na Europa quando fui para lá. Botei os pés em Londres mais ou menos quando eles botaram os pés no aeroporto de Cumbica. Fui e teve aquele chororô romântico, estava deixando uma namorada aqui. Prometi que voltaria para passar a virada do Ano Novo com ela.

De novo, Londres me recebeu bem, com educação. Mas meu coração estava no Brasil. Reencontrei ela no Revéillon, para me despedir, dizendo que não dava para ficar num namoro à distância. Julgava eu que iria ser feliz lá, encontrar namoradas, amigos, me divertir demais. Julgava até que existia a possibilidade de não voltar ao Brasil. Londres, eu morava em Londres. Era legal falar isso. As pessoas parecem ter orgulho de estar ao lado de alguém que mora em Londres.

Bom, resumindo o resto da história. Não fiz amigos ingleses. Tive uns poucos rolos com brasileiras, jamais com britânicas. Continuei falando português (minha empresa só tinha brasileiros). Não me integrei – descobri que não sou de me integrar. Descobri que os pubs enchem o saco e fedem, descobri que a comida indiana é maravilhosa, mas quase sempre igual. Descobri que o frio do inverno é charmoso se você pode ficar em casa tomando chazinho embaixo do edredon, não tendo que sair para trabalhar às 6h da manhã. Descobri que um sistema de transporte que funciona é maravilhoso, mas pode ser caro, sujo, cheio de ratos e principalmente – principalmente – cheio de bêbados insuportáveis. Descobri que os ingleses em geral sofrem de esquisofrenia: são uma pessoa sem bebida e outra, bem diferente e asquerosa, com a bebida. Principalmente as mulheres. Eu poderia seguir em frente. Seria fácil: eu odiei, odiei muito Londres, e quando finalmente consegui transferência para o escritório da minha empresa no Brasil, estava genuinamente feliz de sair de lá.

O tempo passou e, incrível, hoje eu me permito ter saudade. Isso é realmente incômodo. Não sei se deveria me permitir isso, visto que fiz tanta propaganda contra aquela terra. A saudade não tem a ver com São Paulo – poderia ter, esta cidade é um caos, o trânsito é horrível, sofri sequestro relâmpago. Nem tem a ver com o Brasil em si. Eu gosto de praia, mas conseguia sobreviver pegando um avião de vez em quando para a Espanha ou a Itália, tem praias bonitas por lá. Outra coisa do Brasil são os políticos, mas também acho que eles não me incomodam tanto. O Brasil está mudando, acho, e para melhor, sou um otimista. Na Inglaterra, as coisas funcionam tão bem na política que chega a ser entediante. Não, eu sei que sou mais feliz aqui, simplesmente porque eu sou daqui. Para mim, funciona assim.

De onde vem a saudade então, essa saudade tão perturbadora para mim?

Acho que vem dos pequenos prazeres que não posso ter por aqui e que, lá, num mundo de solidão de seis anos, eram tudo para mim. Eu tenho muita gratidão a meus poucos amigos brasileiros por lá e a uma namorada brasileira, com quem hoje perdi o contato. Eles eram meu mundo. Quem volta de Londres sabe que, lá, você encontra com muito mais frequencia os amigos – o metrô facilita muito as coisas, e sempre você combina de levar uma garrafa de vinho e pegar a Northern Line para algum lugar onde você vai vencer o frio e ser recebido em uma casa quente pelo querido português dos seus amigos. Esses amigos, eles me deram felicidade, me ajudaram a enfrentar o inverno. Sinto falta de encontrá-los no frio.

Outro prazer pequeno, tão bobo: caminhar. Em Londres, ah, eu me perdia – caminhava horas e horas, descia em estações aleatórias do metrô com meu guia de ruas A to Z na mão e passeava, passeava…. até cansar, e encontrar um restaurante indiano ou turco, comer bem, e pegar o metrô de volta para casa. Como fazer isso aqui? Não dá.

Os parques. Perto da minha casa aqui em São Paulo, dou um suspiro diário – passo perto de imensos terrenos vazios, que eram ocupados por fábricas que há muito estão fechadas. São terrenos que o prefeito poderia tão facilmente transformar num parque legal! Mas não. Amanhã, vão virar prédios, é inevitável, e eu não vou ter uma graminha para me jogar e fazer piquenique a não ser em parques saturados, cheios de gente, como o Ibirapuera ou o Villa Lobos. Em Londres, putz, no Hampstead Heath você pode se perder e nunca mais encontrar a saída! E mesmo no Hyde Park, você pode ficar sozinho.

Sinto falta de ficar sozinho. São Paulo é minha cidade. Lotada, congestionada. E hoje tenho uma boa vida social, saudável. É legal ir no boteco aqui, encontrar a galera de vez em quando. Tomar um ótimo chopp. E tenho minha mãe e meu pai para visitar sempre, conversar, abraçar. Sozinho, eu raramente fico. E se fico, a solidão em São Paulo, com certeza, é mais chata do que em Londres. Interessante, sinto saudade da solidão de Londres!

Mas, enfim, o tempo passou e estou aqui. Valeu a pena voltar.

Queria que quem nunca esteve lá e morre de amores por Londres – acho que por qualquer cidade no exterior – refletisse um pouco. Não existe lugar perfeito, e nenhum substitui seu passado. Se seu passado é importante para você, pode ser que você sofra muito. Se você está disposto a abraçar um admirável mundo novo, você poderá se reinventar, essa é a graça. Se é o caso, vá, vá para Londres. Seja feliz. Só espero que você volte, nem que seja de férias. Pode ser que você então ache que o Brasil é substituível, mas eu tenho certeza que, para o Brasil, você é insubstituível.