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Saudades de Londres

06/10/2008

Rafael
Colaborando de São Paulo, Brasil

Olá, meu nome é Rafael, moro em São Paulo/SP há quase dois anos e meio. Quando uma amiga que escreve aqui neste site me convidou para escrever, tenho que admitir que, a princípio, fiquei receoso em aceitar. O motivo do convite: Londres. A cidade onde morei seis anos, e que agora… parece tão distante e ao mesmo tempo tão perto. Mas fiz uma auto-análise: caramba, por que o receio? Por que não escrever um pouco sobre essa cidade que me deu tantas alegrias e me fez penar tanto? Ela parece tão distante e tão perto agora… são adjetivos opostos que uso agora, são extremos, como o amor e ódio que sentia pela cidade. Completei minha auto-análise. O resultado está aqui, nestas linhas a seguir.

Conheço muita gente que vai para Londres para se encontrar – talvez a cidade inteira seja um depósito de achados e perdidos. Eu, eu fui para a cidade quase porque ela me escolheu. Em 1997, decidi fazer um curso lá, de dois meses. Sério, fui estudar inglês em Londres não porque amava a cidade sem nunca ter botado os pés lá (nossa, outra “moléstia” que acomete muita gente por aí). Fui estudar inglês lá porque na época tinha escolas boas e baratas e me pareceu lógico, na Grã-Bretanha, estudar inglês em Londres. Fui, passei o tempo lá e, na boa: não me apaixonei. Houve dias de sol, houve chuva, por isso não acho que foi o mau tempo que tantos dizem que é típico de lá tenha sido um fator para eu não ter caído de amores. Sei lá. A química não bateu. Voltei para o Brasil e fui à praia. Estava com saudade de uma boa praia, isso sim é verdade.

Até 1999, fiquei no Brasil. Aí, fiz um concurso para um emprego que exigiria que eu me mudasse para Londres. Minha vida profissional estava num limbo, achei que poderia ter chance. Passei. A empresa mandou passagem, mergulhei de cabeça. Nem me despedi dos meus pais, que estavam viajando justamente na Europa quando fui para lá. Botei os pés em Londres mais ou menos quando eles botaram os pés no aeroporto de Cumbica. Fui e teve aquele chororô romântico, estava deixando uma namorada aqui. Prometi que voltaria para passar a virada do Ano Novo com ela.

De novo, Londres me recebeu bem, com educação. Mas meu coração estava no Brasil. Reencontrei ela no Revéillon, para me despedir, dizendo que não dava para ficar num namoro à distância. Julgava eu que iria ser feliz lá, encontrar namoradas, amigos, me divertir demais. Julgava até que existia a possibilidade de não voltar ao Brasil. Londres, eu morava em Londres. Era legal falar isso. As pessoas parecem ter orgulho de estar ao lado de alguém que mora em Londres.

Bom, resumindo o resto da história. Não fiz amigos ingleses. Tive uns poucos rolos com brasileiras, jamais com britânicas. Continuei falando português (minha empresa só tinha brasileiros). Não me integrei – descobri que não sou de me integrar. Descobri que os pubs enchem o saco e fedem, descobri que a comida indiana é maravilhosa, mas quase sempre igual. Descobri que o frio do inverno é charmoso se você pode ficar em casa tomando chazinho embaixo do edredon, não tendo que sair para trabalhar às 6h da manhã. Descobri que um sistema de transporte que funciona é maravilhoso, mas pode ser caro, sujo, cheio de ratos e principalmente – principalmente – cheio de bêbados insuportáveis. Descobri que os ingleses em geral sofrem de esquisofrenia: são uma pessoa sem bebida e outra, bem diferente e asquerosa, com a bebida. Principalmente as mulheres. Eu poderia seguir em frente. Seria fácil: eu odiei, odiei muito Londres, e quando finalmente consegui transferência para o escritório da minha empresa no Brasil, estava genuinamente feliz de sair de lá.

O tempo passou e, incrível, hoje eu me permito ter saudade. Isso é realmente incômodo. Não sei se deveria me permitir isso, visto que fiz tanta propaganda contra aquela terra. A saudade não tem a ver com São Paulo – poderia ter, esta cidade é um caos, o trânsito é horrível, sofri sequestro relâmpago. Nem tem a ver com o Brasil em si. Eu gosto de praia, mas conseguia sobreviver pegando um avião de vez em quando para a Espanha ou a Itália, tem praias bonitas por lá. Outra coisa do Brasil são os políticos, mas também acho que eles não me incomodam tanto. O Brasil está mudando, acho, e para melhor, sou um otimista. Na Inglaterra, as coisas funcionam tão bem na política que chega a ser entediante. Não, eu sei que sou mais feliz aqui, simplesmente porque eu sou daqui. Para mim, funciona assim.

De onde vem a saudade então, essa saudade tão perturbadora para mim?

Acho que vem dos pequenos prazeres que não posso ter por aqui e que, lá, num mundo de solidão de seis anos, eram tudo para mim. Eu tenho muita gratidão a meus poucos amigos brasileiros por lá e a uma namorada brasileira, com quem hoje perdi o contato. Eles eram meu mundo. Quem volta de Londres sabe que, lá, você encontra com muito mais frequencia os amigos – o metrô facilita muito as coisas, e sempre você combina de levar uma garrafa de vinho e pegar a Northern Line para algum lugar onde você vai vencer o frio e ser recebido em uma casa quente pelo querido português dos seus amigos. Esses amigos, eles me deram felicidade, me ajudaram a enfrentar o inverno. Sinto falta de encontrá-los no frio.

Outro prazer pequeno, tão bobo: caminhar. Em Londres, ah, eu me perdia – caminhava horas e horas, descia em estações aleatórias do metrô com meu guia de ruas A to Z na mão e passeava, passeava…. até cansar, e encontrar um restaurante indiano ou turco, comer bem, e pegar o metrô de volta para casa. Como fazer isso aqui? Não dá.

Os parques. Perto da minha casa aqui em São Paulo, dou um suspiro diário – passo perto de imensos terrenos vazios, que eram ocupados por fábricas que há muito estão fechadas. São terrenos que o prefeito poderia tão facilmente transformar num parque legal! Mas não. Amanhã, vão virar prédios, é inevitável, e eu não vou ter uma graminha para me jogar e fazer piquenique a não ser em parques saturados, cheios de gente, como o Ibirapuera ou o Villa Lobos. Em Londres, putz, no Hampstead Heath você pode se perder e nunca mais encontrar a saída! E mesmo no Hyde Park, você pode ficar sozinho.

Sinto falta de ficar sozinho. São Paulo é minha cidade. Lotada, congestionada. E hoje tenho uma boa vida social, saudável. É legal ir no boteco aqui, encontrar a galera de vez em quando. Tomar um ótimo chopp. E tenho minha mãe e meu pai para visitar sempre, conversar, abraçar. Sozinho, eu raramente fico. E se fico, a solidão em São Paulo, com certeza, é mais chata do que em Londres. Interessante, sinto saudade da solidão de Londres!

Mas, enfim, o tempo passou e estou aqui. Valeu a pena voltar.

Queria que quem nunca esteve lá e morre de amores por Londres – acho que por qualquer cidade no exterior – refletisse um pouco. Não existe lugar perfeito, e nenhum substitui seu passado. Se seu passado é importante para você, pode ser que você sofra muito. Se você está disposto a abraçar um admirável mundo novo, você poderá se reinventar, essa é a graça. Se é o caso, vá, vá para Londres. Seja feliz. Só espero que você volte, nem que seja de férias. Pode ser que você então ache que o Brasil é substituível, mas eu tenho certeza que, para o Brasil, você é insubstituível.

8 Comentários leave one →
  1. rodrigo coelho permalink
    06/10/2008 11:43

    Muito bom!

  2. 06/10/2008 11:50

    Nossa, esse post foi realmente muito bom. Me identifico em várias partes. Sempre digo que a decisão de voltar para o Brasil vai ser mais dificil que foi a de vir (vivo há quase 3 anos na Espanha). Aqui é legal, tenho tudo o que se tem numa cidade européia: segurança, coisas culturais para fazer, posso andar de bike pela madrugada, posso pegar um avião amanhã e conhecer outro país. Mas enfim, não sou daqui, as pessoas com as quais me relaciono (fora os brasileiros) são bem diferentes de mim, a maioria dos meus “melhores amigos” já voltaram para os seus países de origem e cada vez tenho menos vontade de fazer “novos” amigos, isso cansa. tenho vontade de beber cerveja e jogar conversa fora com aqueles me conhecem da vida toda… Estrangeiro é estrangeiro, mesmo que tenha cidadania (outra coisa que sei que facilita bastante a vida, mas que não sei por quê não me interessa). É isso, aqui é bom mas é ruim…o Brasil é ruim, mas é bom. Parece que nunca estamos satisfeitos…mas ando louca pra viver com “gente da gente”! 🙂

  3. 06/10/2008 20:16

    Gostei do texto…Parabéns, mas sei que isso nao é ficçao, é a pura realidade.
    Eu moro em Andorra. Seria hipocresia dizer que nesse momento eu quero estar no Brasil, infelizmente nao quero,queria que os meus amigos do Brasil pudessem estar aqui. Nao tenho amigos, nunca fui tímida, mas aqui nao estou me encontrando e o pior, me sentindo triste. Tem dias que bate uma solidao. Ainda bem que moro com minha família. Mas mesmo assim, já tentei explicar, mas ninguem compreende. Minha mae sempre diz, ‘nao liga nao, uma hora você faz amizades, isso e aquilo’ ¬¬ Já estou me cansando, me fechei no meu mundo, as vezes acho que o problema está comigo mas em sua maioria, NAO. Tudo que eu queria nesse exato momento pra tudo ficar melhor era amigos. Amo o Brasil, país tropical, de pessoas bonitas, receptivas, festivas, sempre alegres, tudo é motivo de festa, saudades de uma parte da família, saudade dos amigos =(
    Europa é bom, é 1º mundo, mas as coisas vao perdendo seu valor, quando nao há amigos pra você tornar seus dias mais coloridos. Ah….Isso tem sido ruim…

  4. Vivian permalink
    07/10/2008 23:09

    Morro de vontade e tenho realmente planos de ir pra Londres. Namoro ha 3 anos e falei com ele que meu unico medo era esse: a solidao. Preferia ir pra Espanha, mas como vou pra estudar ingles, nao ia rolar neh ;] Mas nesse poxt foi comentado exatamente tudo q eu precisava saber a respeito do social / qualidade de vida / politica e os defeitos desse ”sonho”. Mesmo assim, se vc tem um objetivo traçado, vc n pode perder o foco. Independente de td. Claro q isso pesa, e mt. E ateh torna as coisas mais dificeis do que realmente sao. Mas trabalho no Brasil, vc tem q ter algo que te diferencie. A diferença para os outros estara em LONDRES mas pra vc estará a experiência, que ningm poderá te arrancar.

  5. Flor Do Exilio permalink
    08/10/2008 9:36

    Saudades de Londres? Quem diria…

    Saudades de voce, seu canalha, bichana! Me abandonou de vez… sinto muito, muito a sua falta mesmo.

    Beijos, Flor

  6. 09/10/2008 20:01

    Perfeito.

  7. 06/01/2009 21:10

    Que post incrível!!!!!!!!!!!!!

    Eu nem sou uma sentimentalista, mas, juro, quase chorei.
    Ainda mais estando ainda aqui ,no frio, me questionando qual seria a melhor alternativa: ficar ou voltar?……….

    Também pesa o medo que tenho de sentir falta de ficar sozinha neste São Paulo onde se está sempre rodeado……..

  8. gustavo permalink
    17/01/2009 17:54

    nossa, serio.. esse post parece que foi escrito por mim, ou pra mim….

    eu morei em londres por 8 meses…. mas fui para ficar 3 dias..

    nao podia trabalhar legalmente, por isso no inicio era dificil.. trabalho em horarios malucos.. na madrugada… e o resto do tempo ficava entediado em casa.. achava aquela vida um porre… e quando eu tentava me convencer que estava em londres e era pra aproveitar, alguma coisa me prendia naquela depressão… depois comecei a trabalhar de mais.. muito mesmo.. e ganhei um bom dinheiro , mas nao tinha tempo nem pra ficar entendiado mais.. mas o cansaço me fez ter muita “antipatia” por aquela vida… e saudade imensa da vida boa que tinha do brasil…

    voltei…

    fazem 11 meses..

    e o que mais tenho saudade é do frio, de pegar o metrô em uma tarde que mais parecia noite, onde todos estavao depressivos, inclusive eu.. pra fazer algo tão inutil que nem sequer me lembrava pra onde estava indo.. a depressão, o cansaso.. a vontade de ir embora.. as vergonhas por falar ingles horrivelmente… o zé ninguem que eu era la.. tenho muita saudade de tudo isso… não sei porque… mas tenho muita.. daquelas que da vontade de largar tudo e voltar pra la… mesmo sabendo que 3 dias depois ja estarei querendo voltar..

    nao sei, acho que a vida é assim para aqueles que não são educados para vivê-la intensamente… sempre sonhando com o futuro e lembrando o passado, deixando de lado o presente, este sim, tao chato, inutil e depressivo…..

    tenho uma vida boa no brasil… mas com um vazio… um vazio de saber qeu nunca mais sera daquele jeito… daquele jeito depressivo, frio e aconchegante que só londres tem…

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