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Italiano: a eterna língua de Dante

28/11/2008

Luciana R.
Colaborando de Roma, Itália

A língua italiana ou italiano é uma língua românica falada por cerca de 70 milhões de pessoas, a maioria das quais vivem na Itália e na Suiça italiana. O italiano padrão baseia-se nos dialetos da Toscana e é de certo modo intermédio entre as línguas da Itália do sul e as línguas galo-românicas do norte. O italiano tem consoantes duplas (ou longas) tal como o latim, mas ao contrário da maior parte das línguas românicas modernas, como por exemplo, o francês, o espanhol ou o português elas são distintas. E além das consoantes duplas serem ambas pronunciadas, elas diferenciam o significado das palavras. Exemplo: ano (ânus) e anno (ano), nona (nona) ou nonna (avó), dita (empresa) ou ditta (dedos) ou ainda pene (pênis) e penne (macarrão penne). Nesse caso, a pronúncia correta seria algo tipo: non-na, pen-ne, an-no, dit-ta. Foi assim que o nosso professor de italiano nos ensinou a pronunciar as vocais duplas: simplesmente separando-as e pronunciando uma letra de cada vez. Para quem estuda música e sabe ler partituras, o conceito da “duração musical” na pronúncia da consoante dupla é o mesmo.

A língua italiana atual deriva em grande parte do latim vulgar, que era falado pelos soldados e pelos povos dominados pelos romanos. O italiano estandardizado, usado hoje na Itália, é descendente dos dialetos da Toscana, especialmente aquele falado em Florença, um dos mais importantes centros culturais da História italiana. Este dialeto ganhou prestígio sobretudo após ser usado por Dante Alighieri, o maior escritor italiano. Desta forma, o “italiano padrão” só era falado na região da Toscana. Com a unificação italiana, o dialeto de Florença foi escolhido como língua oficial da Itália.

A Itália, anteriormente dividida em diversos reinos, com línguas e dialetos próprios, só se unificou na segunda metade do século XIX. Diversos idiomas e dialetos prevaleciam entre a população do País. Estes dialetos eram, na maioria das vezes, incompreensíveis entre si. Por exemplo, um italiano que fale um dialeto do sul da Calábria não entende o dialeto de alguém do norte da Calábria. De uma cidade para outra, os dialetos italianos podem mudar completamente. Em conseqüência, era necessário unificar a população italiana dentro de um único dialeto que, no caso escolhido, foi o dialeto toscano.

Em 1861, ano do Risorgimento italiano, apenas 2,5% da população italiana se comunicava em italiano e outros 10% compreendiam a língua. A esmagadora maioria da população nem ao menos possuía conhecimento da língua. O italiano só se tornou dominante nos últimos cinqüenta anos, com a alfabetização em massa da população italiana e o desenvolvimento de tecnologias como a televisão, que contribuiu para a divulgação da língua italiana.

Apesar disso é muito importante saber que o dialeto faz parte da vida dos italianos, principalmente quem vem de áreas rurais e de pequenos aglomerados urbanos, seja eles no extremo Norte ou no Extremo Sul. Muitos italianos que não moram em grandes centros urbanos ainda usam os dialetos locais para se comunicar em família e com os cidadãos locais, e deixam o italiano somente para uso nos bancos da escola, da universidade e no trabalho, ou seja, em “ambientes oficiais”. Muitas vezes eu já conversei com pessoas idosas e uma vez aconteceu uma coisa muito curiosa: uma senhora siciliana ficou pasma for ver que eu sendo estrangeira “falava italiano com desenvoltura”, já que ela só começou a “falar italiano” com 28 anos, quando emigrou de uma cidadezinha da Sicília para Roma. E me contou, ainda, que quando ela voltava à Sicília, durante as férias, os parentes e amigos logo logo lhe perguntavam “como era falar italiano”, ou ainda, alguns riam e diziam que “ela estrava falando uma língua estrangeira”.

E qual é o nível de facilidades ou dificuldades para um brasileiro?

É claro que sendo o italiano uma língua de origem românica, a gente encontra uma facilidade natural em achar que vai abrir a boca e sair falando italiano. Mais ou menos no mesmo esquema que se revela com o “portunhol”. Aliás, muitas vezes brincamos e usamos o termo “portuliano” para essas misturas que o estrangeiro logo faz de cara.

Outra coisa muito curiosa, é que já percebi, de maneira muito simpática, que alguns brasileiros gostam muito de fazer a seguinte combinação: falar “portuliano” juntando com aquele sotaquezinho italiano forçado que a gente vê nos personagens das novelas da Globo, tipo Terra Nostra. Roba da Matti! (Coisa de louco!).

Inicialmente um brasileiro que possua um bom nível de alfabetização, não terá problemas em ler o italiano escrito. Com uma boa percepção do funcionamento de regras de morfologia da língua portuguesa e aglutinação de prefixos e sufixos, ele também logo logo vai compreender que muitas coisas funcionam de modo similar. Palavras como: embrione (embrião), panteon (panteão), camion (caminhão), sapone (sabão), patata (batata). Ou também temos palavras idênticas tanto na escrita, como quase na pronúncia, mas com significados totalmente diferente: morbido (it: mole), cintura (it: cinto), testa (it: cabeça). Também temos palavras cuja pronúncia e grafia nos fazem recordar palavras em português, mas cujo significado também são diferentes. Exemplo: debosciato [pronúncia: “debochato”, portanto lembrando o nosso debochado], que em italiano significa, entre outra coisas, depravado, corrupto, degenerado. Ou ainda sciatto [pronúncia: chato], mas em italiano uma pessoa “chata” é uma pessoa descuidada, relaxada.

Uma outra peculiaridade do italiano é que a formalidade ou informalidade é dada pelo verbo. No Brasil nós usamos “o senhor”, “a senhora” ao invés de tu ou você, para dar formalidade ao tratar uma pessoa. Na Itália praticamente a segunda pessoa do verbo (tu) é sempre informal e a terceira pessoa do verbo é sempre formal. Se eu digo “Podes me indicar onde fica a Piazza di Spagna?”, eu estou dando a uma pessoa um tratamento informal. Já se eu digo “Pode me indicar onde fica a Piazza di Spagna?”, eu estou dando um tratamento formal.

Os italianos fazem ou não questão dessa formalidade?

Me lembro que quando eu comecei a estudar francês, acho que uma das primeiras coisas que eu aprendi era “não ser informal com quem não é super meu amigo”. Na Itália existe um misto: com pessoas jovens a gente sempre trata com informalidade, mais ou menos acima de uns 30 sempre com formalidade. Mas tudo também depende da região: eu já percebi que mais para o Norte, onde se diz sempre que o pessoal é mais “fechado”, normalmente se usa muito mais a formalidade. De Roma para baixo, onde o mundo parece ser um “eterno carnaval”, usa-se mais a formalidade. Por default, eu sempre uso formalidade no primeiro tratamento, mas aqui em Roma é muito normal as pessoas nos tratarem com um “tu” e ponto final. Meu marido que é de Milão (mas filho de pai meio romano e meio toscano, e de mãe bolonhesa), e que mora em Roma há mais de 20 anos, às vezes faz comparações muito simpáticas entre o super-informalismo dos romanos até em repartições públicas ou situações que exigiriam formalidade, etc. e do “mega-formalismo” dos milaneses.

Considerando, enfim, que a Itália é um país de super-idosos, onde os idosos não possuem essa cultura do “velhinho jovem que quer ser tratado como jovem”, não faltará jamais a oportunidade do uso da formalidade.

Nota da redatora: para a parte histórica desse post, a fonte usada foi o Wikipedia

10 Comentários leave one →
  1. persistenciadamemoria permalink
    29/11/2008 1:04

    Que texto interessante.Eu sou apaixonada pela lingua italiana!
    Voce sabe que com o frances eu ainda tenho muito dificuldade em saber quando ser formal ou quando deixar de ser formal?

    Beijinhos

  2. 01/12/2008 9:35

    Para ser sincero, gostei mais da parte que fala do portuliano. Me fez lembrar até quando eu estudei italiano no consulado da Itália no Rio e eu achava cômico ver as senhoras que falavam em espanhol e se achando!…nem portuliano era hehehe…

  3. luciana permalink
    01/12/2008 10:52

    Caruso, eu também estudei italiano no Consulado Italiano. Mas nem sei se revelo em que ano…hahahahah… para vocês não pensarem que estou ficando velha 🙂

  4. 02/12/2008 12:57

    Em que consulado foi? Eu estudei no do Rio, em 2000, creio eu…

  5. luciana permalink
    03/12/2008 15:03

    Eu no Rio, tb… Acho quem em 2000 também, aos sábados.

  6. luciana permalink
    03/12/2008 15:06

    Viajei… 1998 foi meu ultimo ano por lá

  7. 05/12/2008 1:29

    Que legal Luciana! Mas eu não me lembro se eu estudava aos sábados. E vc hj mora em…?

  8. 05/12/2008 9:19

    Luciana, foi mal ae! Esqueci a minha pergunta…rs Vc é a Luciana R. né? hehehe…Desculpae!

  9. 16/12/2008 15:28

    Interessante e informativo, o blog todo. linkei e vou voltar.
    🙂

  10. Pablo permalink
    28/02/2010 14:53

    Interessante esse texto, gostei bastante. Parabéns.

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