Ingrid Mantovani
Paris, França

Depois da tristeza no olhar dos portugueses, da credibilidade alemã e da cultura da ausência americana chegou a hora de falar da insatisfação eterna dos parisienses.

Para não cair direto e sem retorno no abismo da generalização, já aviso que existem sim parisienses satisfeitos, apesar de nunca tê-los conhecido nesse um ano e meio de experiência francesa.

Ver o copo “metade vazio” tem lá suas (grandes) vantagens. Criticar a culinária, por exemplo, os fez desenvolver pratos e serviços gastronômicos impecáveis.

Coquilles saint jacques

Torcer o nariz para artes e literaturas fez com que o acervo cultural e artístico de Paris se tornasse um dois maiores e mais ricos do mundo.

Muitos artistas também foram para lá procurando inspiração e alguns a encontraram escondidas nas esquinas frustradas de Paris. Outros já nasceram submersos na cultura da busca pela perfeição e, sem ela, não sei o que seria das obras de Picasso (que viveu por quase toda sua vida em Paris), Charles-Pierre Baudelaire (nasceu, viveu e morreu na cidade da luz), e outros tantos que seria difícil nomear. Afinal, a arte precisa de insatisfação e estou falando da capital  das artes.

Às vezes penso que os brasileiros precisam um pouco desse poder crítico que os franceses têm. Não que brasileiros não reclamem, sim, eles reclamam,mas falta critério, atitude e, principalmente informação, o que torna essa crítica algo sem fundamento.

Mas conviver com essa falta de contentamento também é duro. No dia-a-dia francês, você encontrará diversas pessoas insatisfeitas com o trabalho e vida pessoal que acabam descontando em você. Além disso, vai entrar em milhares de conversas em mesas de bar onde o assunto principal é a crítica, inclusive sobre a própria cidade (os parisienses detestam a pirâmide do Louvre, o Centre Pompidou , a Sacre Coeur , entre outras milhares de coisas).

Centre Pompidou

É estranho dizer,mas, agora, pensando nos momentos que vivi em Paris a maior saudade que senti foi a de sorrisos.