Flor do Exílio, Inglaterra

brighton

Praia de Brighton “pra inglês ver” com o pier ao fundo – coberta de pedrinhas, água gelada e muito vento.

Pouco depois que cheguei na Inglaterra, fui morar por quatro semanas na casa de uma família inglesa na cidade de Brighton ao sul da Inglaterra. Escolhi esse lugar pela proximidade de Londres (45 minutos de trem) e pelo fato de o lugar ser à beira-mar. O curso de inglês que paguei não era tão caro como os de Londres e eu queria vivenciar o modo de vida do povo britânico e aprender a me virar em inglês.

A família que a escola arranjou já estava habituada a receber estudantes estrangeiros. Assim que cheguei, já havia uma outra menina chinesa e logo depois veio uma outra da Malásia. Tive sorte de pegar o maior quarto da casa, que na verdade era a sala de jantar que eles não usavam. O casal e as três filhas pequenas dormiam todos amontoados em um dos quartos no andar de cima. Tudo isso porque o único que trabalhava ali era o pai, Andy Aldridge, um jornalista free-lancer que escrevia sobre críquete para uma revista especializada.

Andy era a cara do ator John Malkovich. Tomava chá o dia inteiro e sua única tarefa doméstica era lavar os pratos após a janta. Dizia que lavar prato era uma terapia que o distraía dos problemas. Não cansava de louvar os saquinhos de chá to Tesco (rede de supermercados) que segundo ele custavam apenas dois pences cada um. Helen, sua esposa, também sempre me tratou muito bem, mas era com Andy que eu gostava de papear e praticar inglês. Das crianças, apenas tive contato com a menina mais velha, Louise, que de vez em quando vinha bisbilhotar no meu quarto. Ela ouvia o disco do Steps o dia inteiro e eu acabei virando fã (a banda já não existe mais).

A casa deles era grande com um belo jardim nos fundos e eles tinham um carro Toyota vermelho. Porém, convivendo com eles percebia-se que eles estavam passando por um certo aperto. O café-da-manhã não tinha nada de ovos com bacon e suco de laranja e sim pão de forma pra torrar e comer com geléia acompanhado de chá. O jantar era um filé de frango ou peixe empanado, daqueles que se compra já pronto e congelado e se esquenta direto no forno, com um pouco de salada. Hoje sei que não apenas a maioria das famílias britânicas com crianças passa por dificuldades financeiras, como também grande parte das pessoas se alimenta mal. Tinha dado de cara com estes tristes fatos já ali no comecinho da minha jornada.

O banheiro daquela casa me traz muitas recordações. A única coisa boa era o chuveiro elétrico que eu podia controlar a temperatura da água. Só que o chuveiro era dentro da banheira. Não é normal ter box de chuveiro no banheiro e sim chuveiro na banheira. Aliás, o normal é não ter chuveiro e sim apenas a banheira com uma mangueirinha. Felizmente havia uma cortina pra evitar da água cair fora da banheira pois havia carpete no chão do banheiro. Isso mesmo, um carpete bege encardido que eu evitava de pisar diretamente ao usar minhas sagradas sandálias Havaianas. E ali próximo da privada, ao invés do bidê que não existe em banheiro algum por aqui, havia uma gaiola onde ficava o porquinho-da-índia. Exatamente, todo dia o bendito me via pelada. Acabei acostumando e havia dias que eu até esquecia da existência do infeliz.

Além do porquinho-da-índia, também havia na casa um gato que não cheirava nem fedia. Animais de estimação são extremamente comuns no Reino Unido sendo que mais da metade das residências possui ao menos um animal.

Outra coisa que hoje me lembro é que eles tinham uma mesa na sala onde todos jantávamos juntos. Mas nem todos os lares são assim. Talvez por falta de espaço ou de costume, muitos optam por comer sentados no sofá assistindo televisão o que eu pessoalmente acha muito estranho.

Felizmente os Aldridges não eram viciados em nenhum programa televisivo em particular. Se bem que naquela época o meu inglês era tão fraco que eu nem entendia muita coisa mesmo. Agora que entendo quase tudo, assisto alguns reality shows como o X-Factor ou Dancing on Ice (não, eu nao assisto o Big Brother), além dos excelentes noticiários, documentários e programas culinários. Novela eu já não assistia no Brasil, muito menos assisto as daqui. Mas elas são extremamente populares entre os que jantam em frente ao sofá. Existem várias para todos os gostos e uma diferença entre as daqui com as do Brasil que eu notei é que as daqui não tem fim. A mais popular, Eastenders, vem desde 1985, enquanto Coronation Street é a mais antiga já tendo passado a marca de 7000 episódios, sendo que o primeiro episódio foi ao ar em Dezembro de 1960.

Outras impressões

Dentes feios e amarelados são a marca registrada dos ingleses. Estou generalizando logicamente, mas a carência de bons dentistas deve explicar o porquê dos péssimos dentes de tanta gente por aqui. Enquanto as celebridades fazem branqueamento, o resto do povo fica de boca fechada. Não se trata de insatisfação ou tristeza como os nossos vizinhos europeus; é boca feia e cheia de buraco mesmo. Além do título de nação dos dentes feios, eles estão quase batendo os Estados Unidos na questão da obesidade. Infelizmente não estou exagerando, esse é um problema nacional para o sistema de saúde público.

Pra fazer justiça, devo admitir que sequer imaginava o quão generoso é o povo desse país. Não apenas os ricos fazem grandes doações às instituições de caridade como grande parte da população em geral. Vi com meus próprios olhos quando trabalhei por dois anos para uma charity voltada aos idosos como as doações chegam de toda parte. Havia desde quantias quase insignificantes de quem tem poucas condições até heranças milionárias, tudo isso em forma de imóveis, cheque, dinheiro, internet, débito automatico, até mesmo selos. Eles acabam sendo tão generosos que mal sabem cuidar das próprias contas. Gastam mais do que ganham e se endividam até o pescoço usando cartão de crédito.

Outra característica bem britânica são as boas maneiras. Falam com a voz relativamente baixa comparado aos nossos padrões tupiniquins, sempre dizem thank you e não pedem nada sem incluir um please. Respeitam as filas. Se tiverem que esbarrar em você, já avisam com antecedência com um excuse me. Caso tenham esbarrado sem querer, imediatamente dizem sorry (isso não se aplica no transporte público). São pessoas geralmente muito pacientes, reservadas e ao mesmo tempo agradáveis.

No entanto, jamais espere ser recebido com um sorriso e um bom dia ou boa tarde ao entrar em qualquer comércio para fazer compras. Em alguns poucos lugares, talvez te perguntarão se você precisa de ajuda e o farão se você precisar, mas não espere muita boa vontade dos vendedores de loja. Quer algo, compre; não quer, adeus.

É muito difícil arrancar um sorriso desse povo. Até mesmo quando eles acham algo engraçado, o que não é difícil pois o humor inglês está em toda parte, eles dirão oh, that’s funny sem ao menos sorrir. Existe gente feliz e sorridente, o problema é que as pessoas não andam por aí rindo à toa. A única maneira infalível de ver gente feliz é ir ao parque em um dia de sol. Nem precisa fazer calor. Eles são tão carentes de sol, coitadinhos, que às vezes me pergunto porquê deixei meu Brasil ensolarado pra trás.

O tempo em si é um passatempo nacional. Há uma obsessão geral em se informar sobre qual será a previsão do tempo, sendo que o céu daqui é nublado a maior parte do ano. Porque se chover, eles estarão devidamente armados com seus guarda-chuvas. Se for fazer sol no fim-de-semana, eles irão programar um passeio obviamente ao ar livre. Muitos minutos são dedicados à previsão do tempo no noticiário diariamente, que é dividido em previsão nacional e local, minuciosamente explicado e demonstrado com tomadas externas dos pobres apresentadores geralmente encharcados ou batalhando contra o vento. Conversa fiada no elevador ou na fila do bebedouro quase sempre será inevitavelmente sobre o tempo ou, se você tiver sorte, sobre o que você fez ou fará no final de semana.

Sim, talvez aquele que nunca esteve por estas bandas vai estar achando que esse povo é meio estranho. Nas primeiras impressões, eles parecem introvertidos e excêntricos. A não ser que você seja lindo(a) de parar o trânsito, as pessoas normalmente evitam de te olhar nos olhos. Elas não gostam de invadir ou de ter o seu personal space invadido, ou seja, não gostam que te encarem ou que cheguem muito perto deles.

Com o tempo, você vai se habituando à maneira de ser do povo britânico. Se acabar morando por muito tempo aqui como eu, vai acabar como eles: dizendo sorry por qualquer coisa, comendo torrada com feijão e abusando do sarcasmo.

Só não vale ter dente amarelado.

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NOTA DAS EDITORAS: esse texto foi escrito em 2009 e a autora do texto saiu do blog faz muitos anos. Comentários nesse post não serão mais publicados.