Flor do Exílio
Londres, Inglaterra

Eu sou da firme opinião de que tudo tem sua hora. Não adianta agonizar. Uma hora simplesmente chegará o final da sua estadia, exceto é claro para aqueles que acabam permancendo para sempre. De mala e cuia você irá para o aeroporto com o coração apertado e em algumas horas será recebido com festa pela sua família seja lá de que parte do mundo acabou de chegar.

Quando cheguei em Londres em Abril do ano 2000, vim com passagem de retorno marcada para o final de julho. Acontece que no dia do retorno, fui ao aeroporto, peguei o avião e desembarquei em Lisboa onde deveria apenas ter feito a conexão para o vôo pro Brasil. De mochilão nas costas, fui fazer um giro pela Europa e no final retornei a Londres. Tinha em mente voltar ao Brasil no final daquele ano para passar o Natal com minha família. No final daquele ano, estava passando o Natal não no Brasil, mas em Londres mesmo. Estou aqui desde então. Antes de vir pra cá, jamais imaginei que um dia eu iria morar no exterior.

Por mais que tentemos planejar nossas vidas, esquecemos de incluir fatores externos que acabam nos fazendo mudar de idéia. No meu caso, três meses passaram voando e fazia mais senso pra mim estender meu retorno para que pudesse fazer algumas viagens e mais outros cursos de inglês. Acabei me enrolando e hoje já não sei mais se voltarei definitivamente pro Brasil. Não faço mais planos. A idéia é permanecer por aqui por enquanto, mas dependendo do que acontecer, talvez eu volte. Não digo que não voltarei e não digo que fico aqui para sempre. Se estourar uma terceira guerra mundial ou uma epidemia se alastrar pela Europa, eu tô pegando o primeiro vôo pra São Paulo!

Eu adoro morar em Londres, amo essa cidade e amo essa nação. Minha vida no momento é aqui. Já acostumei a dirigir do lado contrário. Tem uma estação de metrô a um minuto da minha casa que me leva pra qualquer parte da cidade ou do país. Moro em frente a um parque imenso, com parquinho e vários campos de futebol e rugby. Não sei se posso viver sem a TV britânica. Nada me diverte mais do que o humor inglês. Para o meu próprio horror, já acostumei até com o tempo frio e nublado daqui.

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Cena do filme Um Lugar Chamado Notting Hill com Hugh Grant e Julia Roberts

Vivo na zona leste, próximo de onde está sendo construído o complexo para as Olimpíadas de 2012. É um lugar que não tem nada a ver com Notting Hill (foto)um dos bairros mais charmosos da cidade . Trata-se de uma das áreas mais pobres da cidade, porém o único lugar onde eu poderia comprar um apartamento. Estou rodeada de gente que vive dos benefícios do governo. O que mais tem por aqui é loja de kebab, frango frito e fish & chips e também as lojas que vendem tudo por uma libra. Tenho um padrão de vida relativamente inferior ao que levava no Brasil. Enquanto lá eu era classe média, aqui faço parte da chamada working class. Mas não me importo pois sou feliz aqui com tudo o que tenho conquistado até agora.

Brasil pra mim, só pra passar as férias. Ir ao dentista, visitar a família e matar a saudade das coisas boas como ir comer no rodízio, passear na feira e comer pastel com garapa, encher o bucho de coxinha, pão de queijo e guaraná, essas bobeiras. Porém, quando passa a euforia dos primeiros dias, eu começo a sentir falta das minhas coisas em Londres. Da minha cama, banheiro, cozinha e até começo a contar quantos dias faltam para o vôo da volta. Coisas pequenas começam a me irritar profundamente, como ver a cara daqueles velhos políticos sem vergonha na televisão, aquele monte de moleque querendo lavar o parabrisa no cruzamento, chuva de verão que alaga tudo de uma hora pra outra e os preços absurdo das coisas que se vendem nos shopping centers. O contraste é um choque muito grande e eu me pego perguntando a mim mesma se seria capaz de voltar a morar em São Paulo novamente após tantos anos fora.

Sei que faço parte de uma minoria. Tenho a opção de poder ficar ou poder voltar. A maioria dos brasileiros que vem pra cá acaba retornando. Quase todos os brasileiros que conheci por aqui já voltaram. Vi muita gente que não via a hora de retornar e também vi gente que estava voltando não por opção própria mas por causa das circumstâncias. Conheci pessoas em situação irregular e tenho amigas que pagaram para casar com europeu para poder permanecer no país. Ou seja, se for para você voltar, você voltará um dia. Senão, de uma forma ou outra você ficará, mesmo que seja na marra.

É da natureza humana sempre achar que a galinha do vizinho é mais gorda. Acredito que antes de se tomar a decisão de voltar ou não, é importante pesar bem todos os prós e contras na balança da maneira mais objetiva possível. Uma vez que você resolveu voltar, vá em frente e não olhe pra trás.