Vir para a Coreia não foi um plano; foi uma surpresa. A oportunidade apareceu, através de uma bolsa de estudos, e eu me inscrevi. Ninguém levou muito a sério a história – família, amigos, colegas de trabalho, todos acharam que seria um surto passageiro. Até que veio a confirmação e então a pergunta que mais ouvi foi “Mas por que a Coreia?”, que eu respondia prontamente com outra pergunta: “Por que não a Coreia?”.

Cheguei aqui sem saber falar um annyeong (oi!), sem nunca ter provado comida coreana (apimentadíssima!) e sem nunca ter assistido a qualquer filme, série ou desenho coreano. De maneira que vim totalmente virgem de qualquer coreanice, o que tem me proporcionado a experiência mais intensa da minha vida.

A Coreia do Sul, logo de cara, me fascinou. A grandeza, a modernidade, a tecnologia e a rapidez com que as coisas aqui acontecem e mudam é impressionante. Viajar de norte a sul pelo país inteiro em apenas 4 horas num trem-bala é algo que ainda me faz sentir em um filme futurista.

Mas não foi necessário tanto tempo de chegada para que eu começasse a ver o outro lado da moeda. O desenvolvimento do país foi tão rápido e extraordinário, que não deu tempo da cultura acompanhar, e o resultado é um conservadorismo sem par na Ásia democrática. Conservadorismo misturado com nacionalismo exacerbado, muita crendice e… uma boa pitada de breguice! Sim, você entra num restaurante e vê o contraste: uma tela enorme de uma TV de LCD da Samsung pendurada a um papel de parede que remete aos anos 40 no Ocidente.

E é bem provável que a ajumma que serve a comida tenha vivido anos de profunda miséria.
O estrangeiro que aqui chegar vai notar duas coisas. Primeiro, que não é difícil ser bonito na Coreia. Tudo o que você precisa é de um nariz e olhos que não sejam minúsculos (como o da maioria deles) e sobrancelhas razoavelmente grossas. Isso é tudo o que você precisa para ouvir elogios o tempo todo e ser comparado a atores de Hollywood.


A segunda coisa é que um estrangeiro, especificamente com cara de não-asiático, dificilmente vai conseguir se sentir parte do povo coreano. Um povo que sobreviveu a tantas guerras acabou criando um mecanismo de proteção da cultura deles, com um sentimento de identidade nacional muito forte, muito diferente do que se vê no nosso país, onde qualquer um que chega falando que ama o Brasil já faz parte da festa. Aqui, para se sentir em casa, requer muito mais empenho e paciência.

No entanto, como estudante, neste primeiro ano apenas estudando a língua e a cultura coreana, já me acostumei com os sustos das descobertas que faço todos os dias. E em meio a pontos positivos e negativos, não consigo deixar de me apaixonar cada dia mais pela Coreia, mesmo com todas as suas coreanices.

Alguns lugares

Seul é a capital e onde cerca de 50% da população vive, incluindo cidades da região metropolitana. É o encontro de vários mundos: palácios de reinados que datam a mais de 700 anos, templos budistas enormes, mercados de rua intermináveis, frequentes festivais, prédios modernos, uma rede de metrô eficiente e a maior concentração de estrangeiros no país.

Busan é aonde todos os coreanos vão no verão, por suas belas praias (tá bom, não dá pra comparar com o Brasil também).
Jeju-do é a maior a mais famosa ilha da Coreia. Fica ao sul da península, e é com certeza ponto de parada obrigatório para quem vier para estas bandas.
Gangwon-do é a província das montanhas, lugar onde o outono e o inverno proporcionam um show de visual.

Oportunidade

O governo coreano tem aberto muitas portas para o mundo, numa tentativa de internacionalizar a Coreia do Sul e divulgar sua língua e cultura. Aos interessados, ainda estão abertas inscrições (até 30 de maio) para bolsas de mestrado e doutorado, com vagas exclusivas para cada país, inclusive o Brasil. O site é www.niied.go.kr (tem um link em inglês no canto).
Para mais informações e “causos” sobre a vida por aqui, visite meu blog, o de prosa na coreia.

Henrique Teixeira


Nesta quinzena, cada colaborador do Brasil com Z está recrutando autores  de blogs interessantes de brasileiros que vivem no exterior para dar seu depoimento. Meu escolhido foi o blog do Henrique Teixeira, pela ousadia de viver em um país tão diferente e desconhecido para nós, brasileiros. Espero que seu blog (extremamente bem escrito) inspire coragem para os que querem conhecer culturas distintas.( Ingrid Mantovani)