Enfermeira Japonesa imagem de https://pxhere.com/en/photo/1026140 @blogbrasilcomz

Enfermeira Japonesa | imagem de PXHere

Se tem uma coisa que deixa qualquer pessoa preocupada, essa coisa só pode ser a saúde. Mais que isso é ficar doente no exterior. Um agravante que eleva à décima potência qualquer “indisposição” de marcar consulta e ir ao médico. Principalmente se você não fala muito bem o idioma dele e é incapaz de encontrar sequer uma aspirina para dor de cabeça na farmácia.

Mas ficar doente num país de primeiro mundo não é preocupante, certo? Afinal, nós brasileiros estamos acostumados com um sistema de saúde precário e ineficiente dos países em desenvolvimento. Então, tratar-se num país de primeira como o Japão é um privilégio! Não é?

Era isso que eu pensava até ficar doente alguns meses atrás. Nada grave, Graças a Deus, mas incômodo o suficiente para me fazer mudar o horário do serviço para enfrentar fila no hospital. Coisa que eu gosto muito por sinal. ¬¬

Já fui ao dermatologista, dentista, oculista e vários outros “istas” aqui no Japão. Todo funcionário regular paga um imposto de saúde que dá direito a descontos e certas regalias para cuidar da saúde. As consultas são baratas, ficando na faixa de 5 a 10 dólares e são bem rápidas, tanto na hora de ser atendido quanto durante a consulta. A típica eficiência japonesa funciona muito bem em clínicas e até mesmo hospitais, onde tudo pode ser resolvido muitas vezes em menos de 1 hora. Os remédios também não são muito caros e o máximo que gastei de uma vez na farmácia foi 30 dólares, em remédios para gripe.

Porém, há algum tempo atrás precisei me consultar com um clínico-geral pois estava sentindo alguma coisa estranha na região do estômago. Como vira e mexe eu passo mal com a comida daqui (sim, não é tudo que é saudável), a coisa piorou com a pressão no trabalho desde o início da crise. Geralmente eu vou sozinho ao médico, mesmo passando aperto para entender o diagnóstico em japonês. Como estava com receio de não entender o que o médico dissesse, o pessoal do trabalho me indicou o Centro Médico Internacional do Japão, aqui mesmo em Tóquio. A vantagem desse hospital é que os médicos e os funcionários falam o inglês. Apesar disso eu não vi muitos estrangeiros por ali e também não usei nada de inglês já que consegui me comunicar apenas com o dicionário do meu pequeno DS.

Consultório do International Medical Center of Japan | Imagem de Gabriel Shiguemoto

Os brasileiros residentes no Japão sempre se queixaram dos médicos japoneses. Primeiro por que comumente eles não explicam o que você tem, apenas passam a receita e dizem “odaiji ni”, que significa “melhoras para você”. Outra coisa é que os médicos muitas vezes são inseguros e parecem que não sabem o que estão fazendo, ou se sabem não dizem. Isso somado à fraca reação dos remédios japoneses contribui para a imagem de que a medicina no Japão não funciona bem.

Por exemplo, uma amiga espanhola que faz Taiko (os tambores japoneses) estava sentindo dores nas costas das mãos quando tocava e resolveu se consultar para ver se havia algo de grave. O médico ao examiná-la superficialmente prescreveu o tratamento: “Amarre alguma coisa na mão quando for tocar”. Ela ficou possessa e voltou do hospital xingando Deus e o mundo.

Comigo foi parecido.Vou narrar o evento:

Depois de passar por exames, entregar amostras e tudo mais; o clínico (que devia ser residente pois era mais novo que eu) disse que todos os resultados não mostravam nenhuma anormalidade no meu corpo e que não havia nada a se fazer. “Como assim? Eu ainda sinto DOR, está doendo agora mesmo” – disse incrédulo. Pensativo, ele pediu licença e saiu da sala, depois de alguns minutos voltou e disse com determinação. “Estive conversando com um médico mais velho. Não há indícios de doenças graves como câncer e também não há hemorragia interna, portanto não deve haver ferida. Vamos esperar algumas semanas, se não sarar sozinho você volta e então faremos mais exames”.

No consultório, um calendário com o tema “Brazil-futebol-Rio” | Imagem de Gabriel Shiguemoto

Alguns segundos de silêncio se passaram até que eu confirmei “Você está me dizendo para esperar doer MAIS para começar algum tratamento?” – no que retrucou: “Sim, não é nada grave. Deve ser estresse. Procure se divertir mais” disse. Concordei, meio chocado, e fui pegando minhas coisas. No corredor, quase saindo daquela área, o jovem médico veio correndo atrás de mim, com a típica expressão de quem se lembrou de algo subitamente. Com o indicar em riste perguntou “Você quer algum analgésico para aliviar a dor?”. Balançando a cabeça negativamente, pensei comigo “Não, vou esperar até começar a sangrar. Muito obrigado”. Com um sorriso se despediu dizendo: “Odaiji ni!”. Termo que ouvi de cada pessoa por quem passava até sair do hospital.

Quais são as chances de encontrar uma coisa dessas no hospital? | Imagem de Gabriel Shiguemoto

Não quero generalizar, mas ouvi muitas histórias do tipo aqui. Portanto acho que as chances disso acontecer são grandes. O Centro Médico Internacional é um complexo enorme que tem todos os tipos de clínicas, com a vantagem dos médicos falarem inglês. Minha experiência lá não foi das melhores, mas pode ser que tenha tido azar.

O melhor mesmo é cuidar da saúde para não ficar doente. Mas como ninguém tem saúde de ferro, Odaiji ni!

またね!

お大事に!