Skip to content

A adaptação em um outro país passa, principalmente, pelos detalhes

01/12/2009

Ana Tereza
Aix-en-Provence, França

 

Quando saímos do país de origem nos preparamos para uma mudança que pode ser mais ou menos radical, mais ou menos dolorida, mais ou menos difícil. Os papéis e a burocracia são as primeiras descobertas e normalmente elas não são muito agradáveis. Em seguida, vem a cultura local, as diferenças dos hábitos culinários e a saudade da família. O problema é que nunca pensamos, aliás, nem imaginamos que essa adaptação também passa por detalhes quase sempre neglicenciados até que nos deparamos com eles :

– o teclado do computador, mesmo em um país ocidental, não é o mesmo. O “til” e os acentos agudos do português usados no “o”, no “a”, no “i” e no “u” não existem em francês e para escrever corretamente temos que inseri-los um a um no Word antes de publicar qualquer coisa ou de enviar um mail sem erros de ortografia. Felizmente os amigos entendem quando esquecemos algum…

– trocar de médico, de dentista e de ginecologista pode virar uma dor de cabeça,

– se acostumar com as estações e arrumar o guarda-roupa de acordo com cada uma exige muita prática e experiência, o que se leva anos para adquirir,

– aprender a usar o aquecedor e lembrar de fechar as portas quando eles estão ligados (o Nicolas repete a mesma coisa há cinco invernos, tadinho…),

– lembrar que vai ser necessário raspar o gelo dos vidros do carro em dias de muito frio e que isso não é desculpa para chegar atrasado no trabalho,

– no inverno, sair sempre com chapéu, écharpe, casaco, luvas e um guarda-chuva e lembrar de trazer tudo de volta para casa,

– aprender que não se pode plantar tudo no jardim por que o inverno é rigoroso e as plantas que não são adaptadas morrem,

– pelo mesmo motivo não podemos esquecer os vasos que enfeitam o terraço do lado de fora da casa,

– convencer o cérebro de que manicure é luxo e não uma necessidade absoluta e que podemos viver sem ela,

– usar a mesma roupa durante toda a semana pode ser considerado prático e não falta de imaginação ou preguiça,

– memorizar um telefone “gigante” para não precisar usar a agenda cada vez que liga para os pais,

– fazer supermercado olhando a foto da embalagem e rezando para que o que tiver lá dentro seja bom,

– por falar nisso: ficar muda enquanto a igreja inteira reza o Pai Nosso e a Ave Maria,

– confiar no transporte urbano francês que tem pontualidade inglesa, o que me surpreende até hoje,

– assistir filmes dublados em francês e sem legenda, filme original sό em cinemas especiais (o Renoir no Cours Mirabeau em Aix, por exemplo),

– a impossibilidade de comer arroz e feijão (com o segundo é ainda mais complicado: considerado “exόtico”  não é encontrado facilmente) todos os dias,

– enquanto os vinhos são baratos, excepcionais e variados as opções de carne bovina são poucas e caras,

– comer camarão frio com maionese, ostras e esgargots nas festas de fim de ano,

– tentar fazer feijoada, vatapá ou outro prato tipicamente brasileiro sem os ingredientes adequados,

– pagar caro qualquer mão-de-obra,

– pensar uma coisa, dizer outra e a pessoa que lhe escuta entender uma terceira mensagem, ninguém merece…

– não existir carnaval, micareta, festa junina, procissões, bailes de ano novo, de 15 anos, de formatura…

– esperar passar a vontade de comer pastel, coxinha, kibe e outras bobagens que trazemos no sangue (a não ser que se tenha vocação para a cozinha o que não é o meu caso…),

– se sentir analfabeto e perdido no meio da cidade sem entender nem as placas, nem as orientações dadas pelos nativos,

– ser formal e usar toda a gentileza possível com os desconhecidos com quem você se relaciona, chamar alguém de “você” é reservado para os amigos e familiares,

– achar esquisito seu filho lhe responder em francês,

– achar esquisito seu marido lhe falar em português,

– começar a se referir ao Brasil como um outro país!

10 Comentários leave one →
  1. 01/12/2009 12:03

    Gostei tanto do post que fiz questao de divulgar o mesmo no Twitter!

    • 03/12/2009 16:35

      Oi Roberto, muito obrigada. Estou começando agora a usar o Twitter e ainda tenho muito o que aprender. Um grande abraço.

  2. glendadimuro permalink
    01/12/2009 14:04

    Hehehe…muito bom texto. Com algumas coisas me identifiquei bastante, principalmente com relação aos médicos e com o supermercado. Já o frio, como sou do extremo sul do Brasil já estou acostumada a ter guarda roupa de inverno e de verão! 🙂

  3. 05/12/2009 3:25

    Ana, me amarrei nessa lista! Muito bem feita e cômica! Ou eu ria ou eu balançava a cabeça para concordar. Apesar de eu viver no Japão – e não na França – eu poderia muito bem malocar uns itens da sua lista e fazer uma como se fosse a minha tbm! Queria comentar alguns, mas são tantos bons. Essa da festa junina, das roupas de inverno, carne cara etc etc. Aliás, não vou a manicure, mas as brasileiras aqui no Japão fazem o mesmo esforço psicológico! rs. Muito maneiro! Boa Sorte ae !

    • 07/12/2009 8:48

      Oi Caruso,
      Muito obrigada! Nao pensei que fosse encontrar outros brasileiros com os mesmos “probleminhas”! Aproveitei para conhecer o seu blog. Gostei muito do novo layout e vou visita-lo sempre. Beijos e até breve.

  4. Alexy permalink
    06/12/2009 2:36

    O feijão branco não é facilmente encontrado na França?

    • 07/12/2009 8:55

      Oi Alexy, o feijao branco é encontrado, sim, nos supermercados. Em saquinhos com 200g ou em latas de conserva (é meio esquisito, mas meu pai adora). Tb achamos um feijao avermelhado como o que é usado no chili com carne, mas o “preto” e outras variedades so achamos em lojas especializadas de produtos exoticos. Pelo menos aqui na Provence, talvez em Paris seja diferente. Beijos pra você.

  5. 06/12/2009 9:55

    VejaBlog
    Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil!
    http://www.vejablog.com.br

    Parabéns pelo seu Blog!!!

    Você está fazendo parte da maior e melhor
    seleção de Blogs/Sites do País!!!
    – Só Sites e Blogs Premiados –
    Selecionado pela nossa equipe, você está agora entre
    os melhores e mais prestigiados Blogs/Sites do Brasil!

    O seu link encontra-se no item: Blog

    http://www.vejablog.com.br/blog

    – Os links encontram-se rigorosamente
    em ordem alfabética –

    Pegue nosso selo em:
    http://www.vejablog.com.br/selo

    Um forte abraço,
    Dário Dutra

    http://www.vejablog.com.br
    …………………………………………………………..

  6. 06/12/2009 22:22

    Adorei essa texto !
    Continuo achando estranho muita coisa,
    como por exemplo, meu filho falando ingles e meu namorado tentando o portugues, ja’ a manicure, dessa ai’ eu nao me livrei,continuo sendo dependente, toda a semana tenho que fazer a unha, senao, eu piro ! hahahahah

    A gente se ve!

    beijos meus

  7. 14/12/2009 0:47

    Excelente post!
    Realmente, eu vivo pensando nisso… tanta gente me escreve perguntando como conseguir tirar aquele documento ou outro, mas ninguém se preocupa em saber o que realmente vai sentir na pele – essas pequenas diferenças/conflitos do dia-a-dia.
    Aliás, me reconheci em vários itens, como ficar quieta nas missas, achar estranho o marido falando português e que o Brasil é outro país… é bem verdade isso.
    Um abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: