Ana Tereza
Aix-en-Provence, França

 

Quando saímos do país de origem nos preparamos para uma mudança que pode ser mais ou menos radical, mais ou menos dolorida, mais ou menos difícil. Os papéis e a burocracia são as primeiras descobertas e normalmente elas não são muito agradáveis. Em seguida, vem a cultura local, as diferenças dos hábitos culinários e a saudade da família. O problema é que nunca pensamos, aliás, nem imaginamos que essa adaptação também passa por detalhes quase sempre neglicenciados até que nos deparamos com eles :

– o teclado do computador, mesmo em um país ocidental, não é o mesmo. O “til” e os acentos agudos do português usados no “o”, no “a”, no “i” e no “u” não existem em francês e para escrever corretamente temos que inseri-los um a um no Word antes de publicar qualquer coisa ou de enviar um mail sem erros de ortografia. Felizmente os amigos entendem quando esquecemos algum…

– trocar de médico, de dentista e de ginecologista pode virar uma dor de cabeça,

– se acostumar com as estações e arrumar o guarda-roupa de acordo com cada uma exige muita prática e experiência, o que se leva anos para adquirir,

– aprender a usar o aquecedor e lembrar de fechar as portas quando eles estão ligados (o Nicolas repete a mesma coisa há cinco invernos, tadinho…),

– lembrar que vai ser necessário raspar o gelo dos vidros do carro em dias de muito frio e que isso não é desculpa para chegar atrasado no trabalho,

– no inverno, sair sempre com chapéu, écharpe, casaco, luvas e um guarda-chuva e lembrar de trazer tudo de volta para casa,

– aprender que não se pode plantar tudo no jardim por que o inverno é rigoroso e as plantas que não são adaptadas morrem,

– pelo mesmo motivo não podemos esquecer os vasos que enfeitam o terraço do lado de fora da casa,

– convencer o cérebro de que manicure é luxo e não uma necessidade absoluta e que podemos viver sem ela,

– usar a mesma roupa durante toda a semana pode ser considerado prático e não falta de imaginação ou preguiça,

– memorizar um telefone “gigante” para não precisar usar a agenda cada vez que liga para os pais,

– fazer supermercado olhando a foto da embalagem e rezando para que o que tiver lá dentro seja bom,

– por falar nisso: ficar muda enquanto a igreja inteira reza o Pai Nosso e a Ave Maria,

– confiar no transporte urbano francês que tem pontualidade inglesa, o que me surpreende até hoje,

– assistir filmes dublados em francês e sem legenda, filme original sό em cinemas especiais (o Renoir no Cours Mirabeau em Aix, por exemplo),

– a impossibilidade de comer arroz e feijão (com o segundo é ainda mais complicado: considerado “exόtico”  não é encontrado facilmente) todos os dias,

– enquanto os vinhos são baratos, excepcionais e variados as opções de carne bovina são poucas e caras,

– comer camarão frio com maionese, ostras e esgargots nas festas de fim de ano,

– tentar fazer feijoada, vatapá ou outro prato tipicamente brasileiro sem os ingredientes adequados,

– pagar caro qualquer mão-de-obra,

– pensar uma coisa, dizer outra e a pessoa que lhe escuta entender uma terceira mensagem, ninguém merece…

– não existir carnaval, micareta, festa junina, procissões, bailes de ano novo, de 15 anos, de formatura…

– esperar passar a vontade de comer pastel, coxinha, kibe e outras bobagens que trazemos no sangue (a não ser que se tenha vocação para a cozinha o que não é o meu caso…),

– se sentir analfabeto e perdido no meio da cidade sem entender nem as placas, nem as orientações dadas pelos nativos,

– ser formal e usar toda a gentileza possível com os desconhecidos com quem você se relaciona, chamar alguém de “você” é reservado para os amigos e familiares,

– achar esquisito seu filho lhe responder em francês,

– achar esquisito seu marido lhe falar em português,

– começar a se referir ao Brasil como um outro país!