Mirelle Siqueira
Lyon, França

 

Esqueça a imagem clichê do francês com a baguete embaixo do braço, em tempos modernos o computador conquistou este espaço na suvaqueira dos françolas. Quando percebi que eu era uma das poucas a lanchar no McDonald’s olhando para a comida de fato e não para a tela de um micro-computador, me senti a escritora mais desmazelada (alguém usa essa palavra além da minha mãe?) dos últimos tempos. Me dei conta também, que o mimo não devia ser tãaao caro, ja que os fãs de big mac não são la os indivíduos mais providos de dinheiro que existem.

Depois de muito pesquisarmos, eu e o Léo* encontramos uma oferta sensacional no Carrefour e financiamos o meu novo sonho de consumo, coisa rara entre os franceses. Quase ninguém compra a prazo por aqui, é mais comum as pessoas juntarem a grana por um tempo e pagarem a vista o que desejam adquirir. As lojas de roupas, por exemplo, não fazem aquele parcelamento em 2, 3, 10x como estamos acostumados no Brasil. Muito difícil ver um francês endividado, só acontece para a compra da casa própria e olhe lá! Até carro eles preferem pagar à vista, um raciocínio lógico num país que possui inflação e moeda estáveis. Vai tentar explicar pra eles porque aquela blusinha de 29,90 da C&A foi paga em 3X no cartão…

Mas como não havia desconto para pagamento à vista, o lado brasileiro falou mais alto e dividimos a compra, ao final das prestações terei pagado apenas 18€ a mais pelo computador. Aqui os juros são realmente muito baixos ou pelo menos, muito mais baixos que no Brasil. A taxa de crédito imobiliário na França, por exemplo, fica em torno de 4%, enquanto no Brasil ela chega a 12%. Ainda assim os franceses abrem o berreiro dizendo que elas são altíssimas.

Não entendo muito sobre economia mundial, mas me parece que a falta de concorrência entre os bancos estimula a cobrança de taxas absurdas no Brasil. Mesmo os bancos internacionais, cobram juros mais altos no nosso país do que nos de origem, já que existe este espaço. Enquanto o Lula não da um jeito nisso, faço minhas comprinhas por aqui. Lembrando que turistas e estudantes temporários na UE que compram na França, tem direito ao “detaxe” quando voltam para casa. Devo receber um reembolso de 16% sobre o valor do mini computador, que custou exatamente 3x menos que no Brasil.

Tudo isso para dizer que a partir de hoje meus textos serão concebidos e postados de um novo pc, pequenininho e portátil para incentivar o aumento da produção. O problema é que o teclado continua sendo francês, ou seja, acentos e corretor em português ainda são artigos de luxo que nenhum tipo de financiamento compra por aqui.

*Por ‘eu e o Léo’ entenda-se: o Léo. Ele sempre fica com a parte chata de descobrir quanto custam meus desejos de consumo. Já que eu lavo as cuecas dele, nada mais justo.