Mirelle Siqueira
Lyon, França

 

O dia mais romântico do ano esta chegando e eu nem me dei conta. Sim, porque me adaptar ao frio, a comida estranha e aos banheiros separados dos franceses é uma coisa, mas querer que depois de quase 30 anos, meu cérebro entenda que 14 de fevereiro é o Dia dos Namorados ja é demais, né? Puta data sem graça.

Fevereiro é o mês da bagunça, do frevo. Não cabe romantismo no mês do Carnaval! E para piorar, este ano a data cai num domingo, dia sagrado de futilidades como assistir ao Faustão, cortar as unhas dos pés e planejar a nova dieta que (nunca) começa na próxima segunda. O frio também não ajuda. Como fazer aquele passeio romântico a beira do rio com uma temperatura de -4°C? A imagem sensual da lareira + vinho não funciona na prática, por aqui todo mundo possui aquecedor elétrico e vinho eu não bebo. Não dá nem para ir ao motel, já que na França eles simplesmente não existem! (Sim, também achei estranhíssimo no começo e passei horas me fazendo essas mesmas perguntas que você se faz nesse momento.)

Propus ao Léo que mantivéssemos a tradição de comemorar o Dia dos Namorados só em 12 de junho e ele topou. Concordo que devemos nos adaptar ao máximo à cultura do país que nos recebe quando deixamos o Brasil, mas contemporânea como sou, prefiro João Doria a São Valentim.

Valentim, coitado, foi um bispo que lutou contra as ordens de um imperador mal-amado que havia proibido o casamento durante as guerras acreditando que os solteiros eram melhores combatentes. O danado continuou celebrando casamentos secretamente, foi preso e para completar o roteiro tradicional dos mártires da Igreja Católica, ainda devolveu a visão a uma mulher muito gentil. Foi morto em 14 de fevereiro de 269 e depois, declarado santo. O Google tem mais paciência para explicar as varias versões da historia, é só procurar.

Para ser sincera, eu nunca tinha nem ouvido falar desse tal São Valentim até chegar na Europa, padroeiro do amor pra mim é Santo Antônio! É que brasileiro tem mania de querer ser diferente, então não poderíamos celebrar o amor ao mesmo tempo em que o resto do mundo, né? Esperto e criativo que só ele, o publicitário João Doria percebeu que as vendas no mês de junho eram sempre muito baixas por não haver nenhum “feriado comercial”. Para alavancar as vendas das Lojas Clipper, criou em 1949 a campanha “Não é só com beijos que se prova o amor” e mudou o curso da historia do comércio. O povo gostou, a data pegou e nasceu assim, o Dia dos Namorados tupiniquim.

Aqui na França a data é menos comercial que no Brasil, a maior tradição é sair para jantar e os casais costumam trocar apenas cartões ou pequenos presentes como caixas de bombons. Graças ao João, vou fugir dos restaurantes abarrotados no próximo domingo e aproveitar o dia para cortar as unhas dos pés do Léo. É o meu jeito torto de mostrar o quanto sou feliz por tê-lo todos os dias ao meu lado. Afinal, existe prova de amor maior que essa?