Mirelle – Lyon, France

 

Francês não tem muita noção das coisas, principalmente os criadores do curso de francês para estrangeiros da universidade onde estudo. Com certeza nunca estiveram no Brasil nem conhecem muitos brasileiros. Onde já se viu oferecer aulas para ensinar gírias e palavrões à gente diplomada no assunto como eu? Tá, palavrões eles não falam, mas expressões maliciosas não faltam na língua francesa. Alias, não faltam em língua nenhuma, só não esperava aprender isso na sala de aula! Para disfarçar a pouca vergonha, chamaram a matéria de “Francês familiar”, sei…

O professor, um negão cheio de estilo, me cativou logo nos primeiros 5 minutos de aula:
– De onde você veio?
– Brèsil.
– Hum, que bom! Meu tataravô era brasileiro, da Bahia.

Rá! Virou amigo de infância! Não sei se por isso, mas as aulas dele são as minhas preferidas. Ou talvez por ser lá onde eu aprenda a chamar policial de “poulet” (frango). Claro que ele ri e avisa imediatamente que não podemos usar a gíria na frente das autoridades, mas falar isso pra corintiana é como dar bom dia ao cavalo, né?

Na última semana o coitado ensinava ao bando de chinesinhos e às 2 pervertidas da terra do samba (Carol e eu), as partes do corpo humano, para no final entendermos melhor algumas expressões como “custa os olhos da cara”. Carol, sambista toda vida, logo deu falta de duas partes importantíssimas para o funcionamento de todo o resto:
-Professor, e as partes que faltam?
– Hã?
– Do homem e da mulher, aqueeeeelas…

Juro que eu nunca tinha visto uma pessoa ficar tão sem graça! Ele disfarçou, pensou, gaguejou e quando viu todos aqueles olhinhos puxados ‘made in China‘ se arregalarem a espera da resposta, escreveu “pénis” et “vagin” na lousa e apagou 10 segundos depois. Carol ficou p. da vida! Não entendia como um professor de país de primeiro mundo que ensina expressões contemporâneas francesas, podia ter ficado tão chocado com uma pergunta típica de jardim de infância. Eu ri e fiquei imaginando o que se passava na cabeça do mestre: “ah, essas brasileiras…”. Não é mais ou menos isso que todos eles pensam?

Muitos brasileiros ficam extremamente ofendidos quando um gringo pensa que somos o que realmente somos: desbocados, autênticos, espaçosos, criativos e barulhentos. Tem gente que se incomoda pra valer quando ouve falar que toda brasileira é bunda. Uai, não é?

Podemos não ser bunda, mas como negar que a parte glútea do nosso corpo pipoca para fora do biquíni (do vestido, da saia e do short…) com mais frequência que o necessário? Fingir que isso não existe é como dar as costas para o nosso futebol, para o nosso acarajé, para a nossa MPB. Brasileira é bunda sim, e das boas! E tão importante quanto saber como se diz ‘orelha’ em francês, é saber como se diz ‘vagina’. Eu sempre precisei muito mais do ginecologista que do meu otorrinolaringologista.