Lucy Leite
Murcia, Espanha
 

 Semana Santa na Espanha é coisa séria. A Glenda, que mora em Sevilha, poderá afirmar isso melhor que eu. Mas aqui em Murcia, cidade mais festeira que Salvador na Bahia, as procissões começam na sexta-feira “de dolores”, uma antes da Paixão, e vão até domingo de Páscoa. Todo dia tem procissão!

As procissões aqui são organizadas por “cofradías” ou “hermandades”, algumas que datam da Idade Média. Essas associações de clérigos e laicos às vezes também são beneficentes, outras são apenas de devotos para a procissão da Semana Santa. As confrarias aqui de Murcia não são muito antigas, porque a própria cidade teve um desenvolvimento bastante tardio comparado ao resto da Espanha, mas ela tem uma particularidade interessante: os nazarenos, que são as pessoas que saem na procissão, às vezes encapuzados às vezes não, têm a roupa cheia de balas que vão distribuindo às crianças. Acredito que eles começaram a fazer isso para que as crianças não desembestassem a chorar quando vissem aqueles trajes tão austeros e assustadores. Funcionou! Elas ficam o tempo inteiro gritando “nazareno, un caramelo!”, quando não chamam logo na intimidade “reno”, para facilitar o acesso ao doce.

Outra particularidade das procissões daqui, comparadas à única que vi em outro lugar (em Madri), é que parecem pouco sérias. Vai um nazareno, todo vestido de negro com seu capuz pontudo, carregando cruz, círio ou tambor, e vai um amigo em jeans ao lado, proseando. Isso é que é amigo, né! Ou também há pessoas que atravessam a rua no meio da procissão, como se nada estivesse acontecendo ali. Em Madri, perdemos a reserva do restaurante porque no meio do caminho topamos com o cortejo e não tinha jeito de atravessar. Não só pelo mundaréu de gente, mas porque não se permitia mesmo. Aqui os nazarenos passam e dão tchauzinho para os amigos sentados nas cadeiras. As crianças avançam sobre eles em busca de uma balinha.

Mesmo assim, é tudo muito bonito! Aquele monte de homens se sacrificando para carregar um andor de quase uma tonelada, a música solene e introspectiva, o “high” do incenso aos montões que enfumaçam toda a procissão, o fervor das beatas, o povo se benzendo quando passa o santo… Eu não sou religiosa, mas é uma manifestação cultural belíssima, digna de se apreciar.

Bem, mas a Semana Santa acabou de começar! Este ano pretendo conhecer mais o funcionamento da festa e postarei mais a respeito.