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Beijando no Brasil e na Argentina

01/04/2010

 Lucy Leite (autora)
Murcia, Espanha
 
  
 
Nadja G. (comentarista)
Buenos Aires, Argentina

O post a seguir foi escrito pela Lucy, que morou por 7 anos na Argentina. Gentilmente ela pediu para eu, Nadja G., adicionar o que achava, já que ainda estou passando por este calvário morando na Porteñolandia. Meus comentários estão em itálico. Confiram:

Uma das grandes vantagens de morar em outros países não é tanto a de conhecer outras culturas como a de ver o seu próprio país com outros olhos. Taí uma verdade. A gente vê coisas que nem sabia que eram diferentes. Não sabia que era estranho ter “água em copo de iogurte” como tem no Brasil!

Primeiro, estando fora, sempre temos que lidar com o estereótipo da brasileira sexualmente disponível, exuberante. Oh yeah. Pé no saco. Eu vivi isso na Argentina muito, mais ainda do que aqui na Espanha, e estive pensando a respeito. Os moços de lá atravessam a fronteira e vão passar as férias em Floripa e beijam mais brasileiras em um mês no que beijarão o ano inteiro na terra deles. – No ano inteiro? Diria na vida. Então, a brasileira fica com essa fama. Ela é errada? Sim. Totalmente? Não.

Quando somos adolescentes no Brasil, beijar é bom, é saudável… Fazíamos até listas de quantos foram beijados. Falo da minha geração, hoje com trinta e tralalá. Não havia perversão nisso. A menina que beijava logo não era galinha, essa era a que “dava”. Hoje em dia a diferente não é a galinha, é a que não dá. Hehe… Mas numa adolescência de classe média bastante pudorosa se beijava muito e dava pouco. Algumas amigas minhas não eram de beijar muitos, outras beijavam trocentos no carnaval ou iam ao Oktoberfest encher a barriga de cerveja e tirá-la da miséria. Cada pessoa tem sua história, mas diria que, em geral, não sofremos uma repressão muito forte e terminamos desenvolvendo uma sexualidade relativamente sadia e livre (alguns dirão, com razão, talvez livre demais). As mazelas da adolescência sempre são as mesmas em qualquer lugar, suponho, os complexos, os medos, mas acredito que o Brasil é um ótimo lugar para passar a adolescência, pois principalmente nós, mulheres, crescemos com mais liberdade e independência do que em muitos outros lugares. É, isso se você é bem-nascida, classe média, boa educação. Acho que é o caso de todo mundo aqui, né.

Eu diria que a mulher brasileira não é fácil – ela sabe o que quer. Se ela quer, por exemplo, aquele argentino, ela vai ficar com ele. Ela vai paquerar, vai jogar charme, vai dançar, vai seduzir e também vai beijar. Ou vai tentar, pelo menos. Vai fazer a parte dela. Já paquerei e joguei charme e fiquei só na vontade… haha… E quem nunca passou por isso? Ele, acostumado à histeria* das argentinas, vai dizer que ela foi fácil, mesmo quando para ela não havia nada disso em jogo. Histeria é o famoso cu doce (tem um termo menos feio?). E aqui é assim mesmo. Diz que não quer mas quer, olha mas se faz de rogado, diz que vai fazer e acontecer e não faz nada… Tem muita gente que “histeriquea” quase por esporte. Nem quer nada, mas joga a rede pra pegar o peixe e joga o peixe fora quando pega. É um saco!

Os argentinos, psicanalizados que são, usam o termo “histeria” como Freud usava. Nesse sentido, é igual no Brasil e na Argentina. É que na Argentina, os termos freudianos entraram no cotidiano. Por exemplo, lá aprendi o que era a “angustia oral”, ou o negócio do “pecho bueno” y “pecho malo”. Aliás, eu nunca conheci tanta gente que tinha passado por um hospício como na Argentina. Aí todo o mundo tem um parente meio louco… Aqui tem até uma parte do bairro de Palermo apelidada de “Palermo Freud”, de tanto psicanalista. Eles adoram se analisar, mas ao mesmo tempo parece que fazer terapia é meio tabu. Tema pra outro post!

Para mim, aprendemos na adolescência a conhecer o sexo oposto. No Brasil, por exemplo, temos grupos mistos de amigos e amigas, na Argentina isso é bem mais raro. Verdade. Agora parece que é mais comum, mas na nossa geração isso é bem claro. Até o cúmulo de que ainda existem colégios só para meninas ou só para meninos. Quando vemos as típicas fotos de viagens entre amigos de argentinos, machos, eles nos parecem homossexuais, mas é porque eles não se misturam muito e por isso, acredito, desconhecem bastante o sexo oposto, além de serem bastante reprimidos. Que eles parecem bichas e ficam se agarrando é verdade. Haha… Que os sexos não se misturam também. Nunca saí com os amigos do meu namorado e ele, por exemplo. Ele não concebe isso. E é comum ver mesas de turmas em restaurantes, meninas de um lado e meninos de outro. Se eles são reprimidos, não sei, não… acho que isso tá mudando. As mulheres talvez sejam mais que os homens.

Os provérbios, por exemplo, dizem muito, e ali se fala “de lo bueno, poco”. Sério? Nunca ouvi. Mas não duvido! Ô povo que gosta de sofrer e se lamentar.  No Brasil, somos o oposto… não temos medo do prazer. Acredito que isso esteja mudando, felizmente, na Argentina. Acho que sim! O perigo, na minha opinião, tanto lá como cá e cada um por seu motivo, é descambar para a promiscuidade e para uma sexualidade desfigurada e carente de solidez. Nada em excesso é bom, né? Nem tango nem samba do crioulo doido!

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10 Comentários leave one →
  1. glendadimuro permalink
    01/04/2010 8:45

    Na minha época de adolescente, até quem beijava muito era galinha… porque acaba sempre levando a fama de dar, sem bem realmente ter dado. Inclusive, tinha amigas virgens que era consideradas as mais galinhas do mundo!!!
    Mas é verdade que a gente beija bastante. Eu não sou expert para falar sobre beijar na Espanha, pois já trouxe o meu acompanhante do Brasil…hehehe…mas posso dizer que vejo beeeem menos gente se beijando, tanto na rua quanto em bares e baladas. Acho que aqui é tudo mais reservado. Mesmo assim, também acho que é mais complicado ficar com alguém numa noite qualquer… o pessoal sai para beber, conversar com os amigos, não é com a intenção de beijar na boca (e se rolar algo mais, perfeito) como a gente sai, na maioria das vezes, no Brasil.

  2. glendadimuro permalink
    01/04/2010 8:46

    Que história é essa de pecho malo? Tem algo a ver com a teta asustada????

  3. 01/04/2010 12:05

    Gente, ta hilario isso. Nunca vi na minha vida uma escrever um post e a outra colocar comentario em italico !!!!
    B.A. ja chegou a ter mais psiquiatras, psicanalistas, piscologos e outos psi’s que New York. Claro ne ? Esse povos que viviam se matando na Europa (armenios, judeus, espanhois, italianos, alemaes, ucranianos, libaneses, etc, etc.) se mudaram tudo pra Argentina. Balaio de gatos. E tudo comandado por uns 12 clans que controlam toda a economia do pais = pouca re-distribuicao de renda.
    P.S.: ficar beijando varios numa festa? sempre tive nojinho… Mas ai ne ? Vai ver que a imunidade da pessoa aumenta com essa pratica…

  4. 01/04/2010 14:44

    Glenda, o negócio do “pecho bueno” e “pecho malo” é da teoria de uma psicanalista inglesa chamada Melanie Klein. Tem a ver com como o bebê vê a mãe às vezes boa, às vezes má, mas não sou nenhuma especialista no assunto. A questão é que na Argentina eu também já ouvi cada causo de maltrato de pais com os filhos… Se eu contar vocês ficam de cabelo em pé! Você não viu umas práticas maternas aí pouco maternais, Nadjia?

    • glendadimuro permalink
      02/04/2010 2:28

      Hahaha…se nota que não sei nada de psicologia! 😛
      Aqui na Espanha há uns anos atrás eu via mais dessas práticas pouco maternais…era mãe baixando o pau mesmo, puxando dos cabelos e tudo. Não sei se virou rotina e me acostumei com as cenas ou se a coisa mudou um pouco…

  5. persistenciadamemoria permalink
    01/04/2010 23:06

    Adorei o formato do texto!!!!!!!!!!!!Parabens meninas!
    Mas sabe o que as vezes me incomoda no Brasil?
    Aquelas pessoas xavecadoras em balada.
    As vezes gosto de sair, dancar, encontrar com os amigos e nao estou muito afim de conversinha…
    Claro que eh bom ter paquera, mas acho que no Brasil o pessoal exagera.

  6. 05/04/2010 3:28

    Obrigada pelos comentários!
    Lucy, o que eu vejo por aqui na verdade são mães que não dão muita bola… por exemplo, a fedelhada tá correndo pelo restaurante, enchendo o saco de todo mundo, e a mãe lá toda blasé, como se não fosse com ela… vejo isso direto! Mas nunca vi criança sendo maltratada.
    Uma coisa que me chocou foi quando uma balada de rock pesado pegou fogo aqui, em 2004, e matou quase 200 pessoas. Alguns dos mortos eram bebês e crianças que estavam nos banheiros, numa espécie de creche improvisada, enquanto as mães estavam no show de rock. Que mãe leva os filhos bebês num show de rock numa balada e deixa eles no banheiro???????

    Eu também nunca fui de sair beijando não. Eu era uma gorducha tímida, daquelas engraçadas e amigas de todo mundo e que nunca pegava ninguém. hahaha

    Beijos

  7. 11/04/2010 18:44

    Pois é esse tipo de maltrato que eu via mesmo, Nadjia. Por exemplo, conheci uma mulher que deixava o filho dela de 1 até os 5 anos sozinho à noite enquanto ela e o marido iam ao cinema. Outra, que não via problema em dar meio comprimidinho de calmante para o filho agitadinho dela. Vários casos de famílias ricas, antes da super crise, que iam para a Europa e deixavam os filhos com os avós ou com a babá por 3 meses ou mais. Vi muitas mães sorridentes dando safanões e beliscões doloridos por debaixo da mesa. Isso, só para começar o causo. As argentinas são “elegantes” demais para descer o pau no meio da rua…

  8. 14/04/2010 18:52

    Adorei o estilo e o conteúdo, com certeza um dos posts criativos do blog!

  9. 14/04/2010 18:52

    Adorei o estilo e o conteúdo, com certeza um dos posts mais criativos do blog!

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