Mirelle Siqueira
Lyon, França

 

Morar longe de casa é mais ou menos como andar todos os dias de montanha-russa, os sentimentos ficam bagunçados. Tem dias que da vontade de jogar tudo para o alto e voltar correndo, em outros, a idéia de cruzar definitivamente o oceano parece suicídio. Uma confusão só. Quando penso em arrumar as malas, lembro como a vida aqui na França é mais tranquila e vou ficando.

Não estou falando da saúde e educação gratuitas, da segurança nem da vida cultural agitada que Lyon oferece. Falo de pequenas coisas, que no dia a dia facilitam muito a vida da gente e que infelizmente, estão longe de chegar no Brasil.

Por exemplo, as Vélo’vs, bicicletas que transportam os franceses de um lado para o outro. O nome é uma mistura de bicicleta em francês (vélo) com amor em inglês (love), o resultado não poderia ser melhor: redução do numero de automoveis, indices menores de poluição e até melhoria na saude da população.

Lyon trouxe a idéia super bacana para a França, são quatro mil bicicletas à disposição daqueles que como eu, precisam usar o transporte publico para se locomover. Pois é, assim como ônibus e metrô, a vélo’v é um transporte publico. Eu uso, tu usas, ele usa, nos usamos, vos usais, eles usam.

São mais de 340 pontos como o da foto acima espalhados pela cidade. Para usar uma das bicicletas, basta fazer uma carteirinha e deixar um “cheque-calção” de 150€ que será descontado apenas se as bicicletas não forem devolvidas. A primeira meia hora é grátis, depois disso o condutor paga pelo uso. Vou de casa para a universidade todos os dias sem gastar um centavo (ja que faço o trajeto em 20 min) e ainda aproveito para deixar o bumbum mais durinho, nos fins de semana eu e o Léo nem tiramos o carro da garagem, fazemos tudo em cima das ‘magrelas’. E assim faz a maioria da população, que esvazia os pontos de retirada nos horários de pico. É muito comum ver um cara engravatado com sua pasta na cestinha da bicicleta indo trabalhar às 8h da manhã.

O esquema é levado tão a sério que todas as avenidas movimentadas da cidade possuem faixas exclusivas para as bicicletas. Existem até códigos de conduta e leis para deixar a pratica mais segura. Não é permitido carregar outra pessoa nem falar ao telefone com a bicicleta em movimento, é proibido ultrapassar pela direita ou andar em sentido contrário aos carros, não pode andar sob as linhas do tramway (um outro tipo de transporte publico europeu). É proibido conduzir com uma taxa de álcool igual ou maior a 0,5 gramas por litro de sangue e aquele que não respeitar as placas de sinalização ou faróis, pode ser multado. Coisa de gente grande mesmo!

Não pense que a idéia deu certo por aqui só porque europeu tem consciência de que as bicicletas são bens que pertencem à população, isso também. Mas os 150€ debitados da conta de quem não as devolve ajuda a inibir o vandalismo e os furtos. A idéia já esta sendo colocada em pratica no Rio de Janeiro, mas sem muito sucesso. Pudera eu andar pelas ruas de São Paulo em cima de uma bicicleta do governo sem medo de freiar em cada esquina. Será que um dia eu consigo tirar a mesma foto com o rio Tietê ao fundo?