Lucy Leite
Murcia, Espanha

Abaporu, da Tarsila, que está no MALBA, em Buenos Aires.

Uma das coisas mais complicadas de morar longe do próprio país por muito tempo é que você começa a ver que aquele estilo de vida no qual você nasceu e cresceu, às vezes tão querido, não é o único (e pior) e muito menos o melhor que existe. A complicação disso está em que você termina vivendo num limbo, porque vê seus compatriotas de forma mais objetiva, como se não fosse um deles, mas ao mesmo tempo você também não é do país onde está.

Isso não resulta mais fácil para os outros do que para a gente. As pessoas olham feio quando você faz uma crítica a algo óbvio ou nacionalmente aceito. Se você não tem aqueles hábitos tipicamente brasileiros, você é uma estranha (ex: comer arroz e feijão, se preocupar bastante com a bunda, gostar de passear no shopping), mas acontece que isso não tem apenas a ver com ter morado fora, mas sim com que eu nunca na vida fui assim. Como disse uma vez uma amiga, só quem se sente estrangeiro no próprio país consegue ser feliz num país alheio. Não vejo nisso nenhuma vantagem nem desvantagem, é simplesmente assim.

Morando fora, você vê que o brasileiro dá uma importância exagerada a coisas ridículas. Quantas pessoas têm um carro que, proporcionalmente, vale mais do que a casa onde moram? Ou quantas sonham em comprar um tênis de marca cujo preço é um terço do salário? E a quantidade de  pessoas da classe média que se matam na 25 de março em São Paulo para comprar um calça jeans imitação da Diesel, ou uma bolsa da Prada? Quem eles querem enganar? E que tal passear no shopping numa linda tarde ensolarada de domingo? E quantas pessoas acham que beber é coisa de macho? Não que mulher não possa beber, mas que homem que é homem, bebe! E muito! Que tal ter empregadas domésticas que ganham R$800 por mês, mas têm um celular que vale o salário delas? E mais: que tal reclamar da desigualdade social do Brasil, mas também reclamar da sua empregada doméstica que quer ter aumento no salário? Meu deus, até parece que ela quer sair da pobreza, onde já se viu? E pior ainda… já viu alguém falar mais de trabalho e de dinheiro do que paulista? E a necessidade que a mulher brasileira tem de ser gostosa acima de todas as coisas, como se isso pagasse as contas (ou será que é porque paga mesmo)?

Certamente algumas dessas coisas não são exclusivas dos brasileiros, mas lá elas adquirem um tom próprio. Principalmente, o que vejo do Brasil é que as distinções de classe são importantíssimas, até mais do que a classe na qual uma pessoa se insere. Ou seja, não importa tanto subir na vida, o que importa é mostrar que está subindo. Ninguém quer ser classe média, todo o mundo quer ser rico e, diante da impossibilidade, basta mostrar ter o que só um rico tem (ou seja, aquele que é mais rico que você). O que importa se é fake? O mais interessante é que os países verdadeiramente ricos não estão cheios de milionários, mas sim de uma classe média ampla.

Aqui na Espanha, mesmo com a crise e com as diferenças (embora não tão gritantes) de classe, há um nível educativo que homogeniza muito e que, infelizmente, não existe no Brasil. A saúde pública é usada pela maioria da população (porque funciona, lógico). Mas será que um brasileiro aceitaria compartilhar leito de hospital com um desconhecido? Será que estamos preparados para um Estado de bem-estar realmente difundido? Acho que não. O brasileiro gosta de marcar as diferenças de classe, gosta de mostrar que pode mais que o outro, mesmo que seja mais do que o vizinho de barraco dele (ou de mansão, neste caso, dá na mesma).

Sim, eu amo o meu país e os brasileiros, mas essa distância, que me fez conhecer outros povos, me faz amar também os argentinos, os espanhóis, os ingleses… cada um do seu modo, com suas elegâncias e decadências.

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