Mirelle Siqueira
Lyon, França

 

Eu tenho pânico de telefone – pelo menos aqui na França. Arrisco dizer que atender ao telefone é uma das tarefas mais difíceis para quem vai morar fora, principalmente para os lesados que como eu, saem do Brasil sem conhecer absolutamente NADA do idioma falado no pais de destino. Para ser mais justa, eu falava abajur, petit gateau e baguete. Quantas frases você consegue formar com essas palavras? Não muitas, provavelmente.

Uma vez, a vizinha tocou a campainha e eu, que estava na cozinha lavando a louça, congelei. Fechei a torneira e fiquei imóvel, para ela pensar que não tinha ninguém em casa. Que sentido teria abrir a porta se eu não entenderia bulhufas do que ela ia dizer e vice-versa?

Teve também o dia em que o interfone tocou insistentemente por uns 15 minutos. Eu andava agoniada de um lado para o outro da sala, pensando se atendia ou não. Estávamos esperando uma encomenda que vinha pelo correio, então imaginei que fosse o carteiro. Mas eu não sabia nem como perguntar quem era e, mesmo se soubesse, provavelmente não entenderia a resposta. Avaliando os estragos que a situação poderia causar, acabei ignorando o tiozinho. Pobre do meu marido, que teve o maior trabalhão para localizar o pacote depois.

Agora ruim, ruim de verdade, é o telefone. Não sei por que, mas o daqui de casa toca muito. A cada ligação um buraco se abre no meu estômago, me sinto uma foragida com medo do FBI. Onde já se viu ter medo de telefone?

Um belo dia ele tocou e eu atendi, acidentalmente claro. Pensei que fosse o Léo, pois tínhamos acabado de nos falar e ele sempre liga de volta já que tem o habito de esquecer alguma coisa. No impulso eu disse: “Oi amor”. Só que não era o amor e sim uma vendedora qualquer procurando por ele. Bom, pelo menos foi isso que eu consegui entender. Cuspindo meias palavras, expliquei que ele só chegava às 19h. Ela agradeceu e desligou.

Depois dessa minha primeira experiência bem sucedida, me senti mais confiante para atender campainhas, interfones, telefones e afins. Mas por azar, eles pararam de tocar. Naturalmente, minha confiança foi indo embora…

Eis então que liga a moça da imobiliária. Entendi que era da imobiliária porque em francês a pronuncia é muito parecida com o português, depois não entendi mais nada. A danada falava rápido como um cometa e para piorar, estava brava. Pesquei uma palavra ou outra, mas nada que desse sentido a uma frase completa. Depois de pedir para ela falar devagar dezenas de vezes sem sucesso, desisti e desliguei na cara dela. Ela ligou de volta e eu claro, não atendi. Mais uma vez sobrou para o Léo, que se desculpou mais tarde colocando no nosso telefone velhinho a culpa pela queda da ligação.

Cara a cara é outra coisa. Se o fulano não entender, é só apelar para os gestos ou apontar. Falar ao telefone e depender exclusivamente das palavras ainda é um pouco complicado para mim. Graças ao maldito friozinho na barriga, que insiste em me fazer companhia, desisti de atender as ligações aqui de casa. Os que me ligam sem sucesso, agora já sabem o porquê.