Lucy Leite – Murcia, Espanha

No Brasil as férias são períodos de 15-20 dias, que as pessoas tiram ao longo do ano, pode ser em janeiro, março, dezembro. As pessoas vão para a praia, para a casa de parentes, para a Europa, para Miami, para Praia Grande, onde for. Meus avós, por exemplo, nunca tiraram férias na vida. Não sei bem o que eles entendiam pelo conceito de férias, mas eles tinham cafezais, não trabalhavam em empresas. A coisa é diferente.

Aqui na Espanha as férias são sagradas e com isso não se brinca! E mais, todo o mundo sai de férias em julho/agosto, principalmente em agosto. Aí as cidades ficam vazias e as praias abarrotadas. As “calas”, recortes do mar com uns poucos metros de areia pedregosa e escura, são invadidas por famílias, moças fazendo topless, magrinhos e gordinhos. A fauna é bem variada, tanto quanto a gastronomia!

Eu fico pensando em como será que um país se mantém financeiramente parando por um mês (ou poderia até dizer torrando dinheiro). Bem, a maior indústria espanhola é o turismo e vem mesmo muito gringo para cá. As praias de Murcia ficam cheias de ingleses e alemães, mas também de espanhóis. A cidade de Murcia, por exemplo, fica fantasmagórica, mesmo sendo uma das regiões com o maior índice de desemprego. Só que aqui é compreensível, não há cristo que aguente o calor de 45 graus. Então, tudo fecha das 2:00 até as 5:00 ou 6:00 da tarde e depois abrem até as 8, 9 ou 10. Agora, não pensem que aqui tudo abre às 8:00 da manhã, então, no cálculo, fecham 7 horas de trabalho. Aliás, o trabalho aqui parece ser algo muito diferente também do que para os brasileiros.

Eles dizem que é qualidade de vida e quem sou eu para duvidar. Num país onde ser funcionário público é o máximo (é mais, 70% dos espanhóis gostariam de ser funcionários públicos), mesmo para profissionais formados em boas universidades, dar o duro a vida inteira parece não ser uma noção amplamente difundida. São os direitos sociais adquiridos, dizem. É verdade! Mas a Espanha continua sendo um dos mais atrasados da Europa.

Sempre penso no tiozinho da banca aqui do lado de casa: jornal, só a partir das 9:30 e isso se você chegou lá e ele já teve tempo de arrumar tudo, senão ele te manda passar depois. Melhor não querer ler notícias em julho e agosto: ele fecha! Ou só abre de vez em quando, ou de vez em nunca. E não adianta querer ir à outra banca que está a 3 quarteirões de casa, pois o padrão é o mesmo. Será que ele tem tanta gente assim comprando jornal que dá para fechar praticamente dois meses no ano? Que bom, não?! Isso é que é país rico. Mas sou sincera: eu duvido de que isso seja assim.

Há algum mistério no estilo de vida espanhol que ainda não consegui entender neste meu ano aqui. Morei 7 anos na Argentina e lá estudei sociologia. Acho que conheço os argentinos tanto quanto os brasileiros, mas demorou. Não foi no primeiro ano, nem no segundo. Eu aqui estou começando a conhecer, a aprender. Como socióloga, não passa um na minha frente para quem eu não pergunte sobre os padrões de trabalho, lazer, consumo. Quero entender como isso aqui funciona além do que os jornais dizem! Quero saber como um país com 20% de desemprego, com salários bastante baixos para a média europeia, com tantos “mileuristas”, consegue sobreviver trabalhando apenas 10 ou 11 meses no ano. Alguém consegue me explicar, por favor?