Mirelle Siqueira – Lyon, França

 

Faz quase um ano que cheguei na França e já aprendi a conviver bem com a cultura do povo daqui. Mas algumas coisas simplesmente não fazem sentido. Por essas e outras, os franceses continuam sendo seres estranhos para mim:

1 – Não tem números nos apartamentos. Pois é gente, um povo tão inteligente ainda não percebeu que trocar os sobrenomes por números nas caixas de correios dos apartamentos é mais prático. Como não existem portarias nem porteiros por aqui, o pobre do moço do correio é quem fica com o trabalho sujo de distribuir as correspondências nas caixas dos moradores. Outro dia encontrei o carteiro quando estava entrando no meu prédio e vi sua cara de perdido ao tentar colocar um envelope pardo no buraco certo. Depois do bonjour fui logo perguntando: “Não seria mais fácil se tivessem números no lugar dos sobrenomes?”. Com um ar de “como não pensamos nisso antes?” ele respondeu que sim. Visitante: 1, donos da casa: 0.

2 – Apéro. O happy hour do francês pode ser meio estranho se ao sair do trabalho, seu colega te convidar para ir à casa dele fazer um apéro (tomar alguma coisa antes do jantar). Com duração de uma a duas horas no máximo, o encontro meio sem graça fica ainda pior quando o seu anfitrião te convida gentilmente para ir embora porque ele vai jantar com a família. Indelicadeza? Para eles é super normal.

3 – Assoar o nariz sem cerimônia. Aqui é assim: deu vontade, assoa o nariz. Com força mesmo, tipo colocando as tripas para fora. No cinema, no restaurante, no ônibus, em programas ao vivo de televisão. Tão comum quanto respirar, é ter um lenço para assoar o nariz no meio da rua. O pior é que esse lenço sujo volta para o bolso da calça e fica ali por semanas, até ser usado mais algumas vezes. Todo mundo pratica com a maior naturalidade esse tipo de limpeza de salão por aqui, crianças, adultos, idosos e inclusive, o meu marido.

4 – Comprar frios por fatias. Eles são vendidos nos supermercados por fatias, em pacotes com duas, quatro ou oito. E elas são mais grossas do que as que encontramos nas padarias do Brasil. Sinto falta das minhas fatias beeeem fininhas de mortadela, cortadas na hora.

5 – Não ceder lugar para os idosos. Tudo bem que os velhinhos franceses são muito mais atléticos e saudáveis que os nossos e que para ser considerado velho aqui, a idade mínima é de 120 anos. Até acho bacana a população tratar a terceira idade de igual para igual, incentivando-os a se manterem ativos até quase o fim da vida. Mas minha educação tupiniquim não se conforma ao ver os jovens franceses não cederem lugar para os idosos nos ônibus ou nas filas. Acho que nunca fiz uma viagem inteira sentada, porque quando entra um velhinho, dou o meu lugar. E como o que mais tem na França é velho…

6 – Preferir abajur à luminária. Se você já esteve na França ou já viu algum filme francês, com certeza reparou que as luzes nas casas e apartamentos não são claras como as nossas. Eles preferem luz fraca e amarelada, que da um clima mais intimista. Já eu, prefiro luzes brancas e fortes, senão fico com dor de cabeça. Nossa sala é enorme, com espaço para 3 ambientes e tem um único ponto de luz no teto. Na casa da mãe das crianças que eu cuidava é ainda pior, simplesmente não há nenhum buraco no teto, nem fiação nos quartos e na sala. Apenas um abajur em cada cômodo para iluminar. Da para imaginar uma casa sem lâmpadas no teto?

7 – Passar as férias sempre nos mesmos lugares. A França é realmente especial e o que não falta é cidade bonita para visitar. Dá para esquiar no inverno, ir para a praia no verão, para as montanhas no outono e para o campo na primavera. Mas passar todas as férias na mesma casa de praia da família ou as festas de fim de ano na casa de campo do avô, não rola. Francês é o povo europeu que menos viaja para fora do país. Isso tendo vizinhos como a Espanha, a Alemanha e a Itália, sem falar que é possível viajar pela Europa toda de avião pagando menos de 15€ pela passagem.

8 – Desejar ‘feliz ano novo’ até o fim de janeiro. Francês se sente na obrigação de desejar votos de um bom ano novo a todos que conhece. E não só na noite do dia 31. Se você encontrar um amigo lá pelo dia 20 de janeiro, ele vai lembrar de te dar os ‘melhores votos’ para o ano que já começou. O Léo acha super estranho quando fala com alguém ao telefone no final do mês e recebe esse tipo de cumprimento. Mas atenção: só vale para janeiro, fevereiro já é um pouco forçado demais.

9 – Festas com horário para começar e para terminar. Tai outra coisa que eu nunca tinha visto no Brasil, horário para a festança acabar. Por aqui é muito comum receber um convite especificando o horário de duração de uma comemoração, seja ela um aniversário de criança ou uma noitada na casa de um amigo. Para mim, festa só termina quando o mais bêbado da turma pega no sono. Quando eu cuidava das crianças, fui levar o pequeno de 4 anos ao aniversário do coleguinha cujo convite dizia: das 14h às 17h. A mãe foi clara: “Quando for busca-lo, não chegue nem 1 minuto depois do horário”. Então ta né?

10 – Não tirar o esmalte das unhas. A maior diferença entre uma mulher francesa e uma brasileira (esteticamente falando) é o cuidado com as unhas, no Brasil damos muito mais importância ao assunto. Além de não tirarem as cutículas e de preferirem o formado mais arredondado, as francesas simplesmente ignoram a existência do removedor de esmaltes. Quem me chamou a atenção para esse desleixo coletivo foi o meu marido, me fazendo jurar que eu nunca chegaria a esse ponto de mulambisse. Depois, fiquei viciada em observar as unhas das queridas e é sempre a mesma coisa: compridas nos pés, descascando nas mãos ou esmalte velho até a metade dos 20 dedos. Cruz-credo!!