Lyon, França

 

Como toda língua que se preze, a francesa também tem lá as suas esquisitices. Por exemplo, limão em francês é citron, mas se você quiser beber uma limonada, precisa pedir uma limonade. Que geralmente nem é o suco do limão com água, é só um refrigerante bem sem graça, tipo Sprite sem gás. Portanto, deveria se chamar ‘citronade’, não?

Mas confusão mesmo eu faço com os verbos aimer e adorer (amar e adorar). Para nos brasileiros, amar é mais forte que adorar, certo? Dizer que adorou a balada de ontem demonstra que ela foi legal e que você se divertiu muito, mas dizer que amou é praticamente afirmar que foi a balada mais incrível da sua vida. Pois na França é o contrario. Se você diz j’adore (eu adoro), quer dizer que, putz, você ama loucamente aquele prato, aquele lugar ou aquela saia florida. Ja o j’aime (eu amo) é tipo ‘eu gosto’: normalzinho, sem muito alarde. Vira e mexe, esqueço que para demonstrar o quanto eu sou louca por uma determinada musica, por exemplo, tenho que dizer j’adore cette musique e não j’aime cette musique.

E tem pior. Dia desses uma amiga brasileira que estuda moda aqui em Lyon estava contando que recebeu o primeiro grande elogio da sua professora. A mulher olhou para o vestido desenhado no papel e disse: c’est pas mal. Que bem ao pé da letra quer dizer: não esta ruim. Dai você vai pensar “pô, que elogio meia boca hein?”, mas vindo de francês é um puta elogio, acredite. É que receber esse tipo de agrado deles é uma tarefa meio difícil e quando se consegue, na maioria das vezes, tem certo ar de desdém. Principalmente em ambientes competitivos.

Outra expressão que ainda soa estranha aos meus ouvidos é o tal do c’est pas terrible. Traduzindo: não é terrível. Se alguém te falar isso você vai pensar o quê? Que tudo bem, não é tão ruim, certo? Errado. Em francês ‘não é terrível’ quer dizer que é sim terrível, e muito! E ai, eu me confundo toda. Enquanto em português, nos usamos a palavra não como negativa para amenizar a situação em “não é terrivel”, aqui na França a negativa do pas, que é o nosso não, enfatiza o lado ruim. Ou seja, c’est pas terrible significa que é realmente péssimo, embora soe como o contrario.

Essa balela toda é só para contar que ainda acho estranho ser chamada de madame por aqui, não me acostumo de jeito nenhum (mas essa esquisitice é minha mesmo). Madame é uma mulher casada, as solteiras são mesdemoiselles. Só que no Brasil madame tem outro sentido, diz ai? “Hum, você viu aquela madame saindo?”. Tem um ar de arrogância, de esnobismo. Sem falar que madame faz eu me sentir muito mais velha, sendo que até outro dia eu era mademoiselle para todo mundo. Claro que a aliança na minha mão esquerda mostra que eu não sou mais uma mulher solteira, mas mesmo quando me esqueço de colocá-la, me chamam de madame. Estou perdendo minha carinha de 18 anos ou será só a crise dos 30 chegando com um mês de antecedência?

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