Nadja G.
Buenos Aires, Argentina

 

Já foi discutido aqui como os estrangeiros tratam as brasileiras. Sabemos que nem sempre é como tratariam qualquer outra pessoa, já que graças ao Carnaval ou ao suposto tamanho avantajado das nossas retaguardas nós temos fama de sermos sensuais, quentes ou, na pior das hipóteses, tudo vaca.

Aqui na Argentina é assim também. Além de despertar a curiosidade natural que um estrangeiro provoca, muitas vezes os rapazes ficam animados demais ao saber que somos brasileiras.  Estão acostumados a fazer a rapa nas baladas de Florianópolis e Búzios durante as férias e acham que somos todas assim facinhas sempre. Acho que pensam “brazuca? Oba, tá no papo!”

Vou contar aqui o que aconteceu com uma amiga minha e uma amiga dela quando vieram passar um feriado em Buenos Aires. Não deixa de ser uma história engraçada de tão bizarra, mas demonstra também preconceito e falta de respeito. Tenho uma história que aconteceu comigo que é pior ainda, quem sabe conte em um próximo post. Mas a historinha do dia é:

Era um domingo pacato em Buenos Aires. A Avenida de Mayo, sempre tão movimentada – quando não convulsionada por protestos e atos políticos – estava quase deserta.

As duas morenas, cabelos cacheados ao vento, caminhavam sorridentes e saltitantes como só duas brasileiras solteiras num feriado em Buenos Aires podem estar. Prontas para gastar seus reais em alfajores Havanna e compras na Calle Santa Fé no dia seguinte, elas recapitulavam os rapazes garbosos que tinham visto desde que chegaram à Portenholândia, rindo alto como quase nenhuma argentina faz. Lépidas e faceiras, desfilavam sua malemolência por essa importante artéria da capital argentina.

Até que, durante uma tentativa de ligar para a pessoa que vos fala, elas foram abordadas por um senhor. O telefone público não funcionava, e o cavalheiro logo começou a meter o pau na Telefonica – porque argentino sempre tem que meter o pau em alguma coisa, né, e não no sentido da expressão que a mulherada gosta (e alguns homens, claro).

Ao notar a dificuldade das duas em falar espanhol, o gentleman fez a inevitável pergunta “de dónde son?”. Elas, sorrindo, disseram “de Brasil”. Já repararam como brasileiro sempre responde sorrindo que é do Brasil? Eu faço isso. Por que a gente faz isso? Mas enfim.

Os olhos do senhor se iluminaram. Ele abriu um enorme sorriso. “De Brasil?” “Sí.” Aí, segundo a minha amiga, o senhor amavelmente fez a seguinte pergunta (versão já traduzida para o português:)

– Posso passar a mão na sua bunda?

Assim mesmo. “Puedo acariciar su cola” ou algo parecido. Minha amiga, na sua ingenuidade, não entendeu bem o que era “cola”, fez um cara de estranhamento e perguntou ao gentil senhor: “Cola? Como, cola?”. Pacientemente, ele explicou: “cola, tra-se-ro”. E fez um gesto com as mãos, como se estivesse dando aquela buzinada na busanfa de alguém.

Só aí que minha amiga percebeu qual era o teor da pergunta e, surpresa e inconformada, disse “Nooooo!!!!”. Mas o senhor devia ser sábio. A experiência que ele acumulou na vida deve ter dado a ele virtudes como a persistência, o jogo de cintura, a paciência. Afinal, quando Deus fecha uma porta, abre uma janela. Então ele vira para a amiga da minha amiga e, docemente, diz:

– E na sua?

Novamente a reposta foi “Nooo!!”. Ele, tão educado, não entendeu o por quê das respostas negativas. E ainda insistiu:

– Por que não? Vocês podem passar a mão na minha!

Aaaah, agora sim, seria um trato justo. O que teria demais, não é mesmo?

As duas viraram as costas e foram embora.

The End.

Mas é aí que eu me pergunto: o que levou este senhor a pensar que elas deixariam ele sentir com as mãos as delícias das carnes brasileiras delas??? O fato de ser brasileira significa que você acha normal, diria até corriqueiro, algum estrangeiro desconhecido passar a mão na sua bunda assim sem mais? Seria um costume no Brasil? Que resposta ele esperava? “Claro, fique à vontade”?

Fim da picada.