Em muitas lojas em países do norte da África ou na Turquia, a única frase em holandês que os vendedores sabem dizer em (mau) holandês é:

Kijken, kijken, niet kopen“.

Olhar, olhar… e não comprar.”

E esses vendedores quando vêem pessoas muito altas, brancas e de rostão redondo e cabelo amarelo (a famosa “cara de queijo”) nem se dão ao trabalho de chegar perto. Conhecem a fama internacional de pão-duro dos turistas tamanquinhos. Do Marrocos até o oriente médio, muitos vendedores sacaneiam os holandeses dizendo o famoso “olham, olham, e não compram nada”.

É muito comum um holandês, quando no exterior, entrar numa loja – qualquer uma, de móveis, jóias, roupas, brinquedos…- olhar demoradamente diversos artigos e ir embora. Também olham os cardápios de restaurante (quando afixados na porta do estabelecimento), fazem cálculos mentais e vão embora.

Por quê esse comportamento do holandês, de analisar, compara e refletir muito antes de comprar?

Vários fatores.

1) Na Holanda os vendedores não ganham comissão. Estão ali por um bom salário para organizar as roupas, receber pagamento e limpar a loja no fim do dia. Por isso eles nem pensam em sorrindo perguntar as frases de praxe: “Busca algo?”, “Posso ajudar?”. Por isso é muito comum o cliente se sentir 100% a vontade em lojas, como se fosse a própria casa. Eles entram, anotam os preços, fuçam ao redor procurando alguma promoção, perguntam sobre entrega e condições de pagamento. Se a relação preço/qualidade não for vantajosa, não compram mesmo.

2) Há varias épocas por ano de promoções. Um exemplo: A refinada e careira loja de departamentos Bijenkorf organiza, depois do verão, os “Três Dias Loucos” onde todos os artigos ganham diferentes tipos de reduções. É uma LOUCURA, o pessoal (potenciais clientes) está preparado para duas opções: matar ou morrer. Tem ambulância na porta e vem muitas excursões do exterior (Bélgica, Alemanha, Holanda, Inglaterra) com turistas de fim de semana só para essa ocasião. Tem gente que vai uns dias antes dos três dias loucos para verificar o que vai comprar, mas aí a loja muda todos os produtos de lugar na véspera. “O pobrema” (e ai esta o segredo do sucesso) é que você nunca sabe com muito tempo de antemão se os “Três Dias Loucos” vão acontecer em fins de setembro, outubro ou novembro. Anyway… Em todo o país o comercio é super aquecido e há sempre coleções novas chegando, por isso muitas vezes há produtos com a etiqueta “Op=Op”, que siginifca “over=over” ou “acabou=acabou”. Ou seja: desconto ate o final do estoque.  Eu praticamente parei de entrar em lojas e buscar roupas quando preciso. Só faço compras quando vejo que a loja esta vendendo com descontos os artigos da antiga coleção.

3) O incrível senso para negócios que o holandês tem. Aprendem finanças na escola primariam, crianças de 12 anos sabem mais sobre conceitos básicos de economia que muito adolescente. Mesmo crianças muito pequenas sabem que tem que guardar a mesadinha para comprar um presente de aniversário. E também são estimuladas a se desfazerem dos brinquedos, livros e roupas vendendo-os durante quermesses e ocasiões festivas. Ou doando para países pobres. Gostam de saber exatamente que padrão de vida terão ao se aposentarem. E um homem holandês não gosta de mulher “Com um furo na mão”.

4) Fatores históricos. Não vamos esquecer que a Holanda praticamente não tem NENHUMA matéria prima no país e basicamente desde a Idade Media montou sua fortuna no comercio, explorando matérias-primas de outros países (Suriname, Ilhas do Caribe, Indonésia)  e negociando o trafico de escravos. Como esta situada num grande delta, sua vocação marítima foi rapidamente estabelecida.

5) O comedimento do holandês. Aqui, a modéstia é uma grande virtude, um estilo de vida, uma herança Calvinista. Nada de impulsividades na hora da compra. Claro que há muita gente que adora roupa de marca, por exemplo. Mas você vê executivos e mulheres vestidas luxuosamente pedalando uma bicicleta ferrada, sem freios. E no trabalho durante a hora do almoço comem só umas fatias de pão ou um iogurte com uma fruta. Ou gente que mora em casa bem bacanuda e passa as ferias acampando frugalmente. Não tem “ajudantes domésticos”, nem pagam babás… Fazem as próprias reformas na casa com a ajuda de amigos ou parentes: banheiro, cozinha, jardim, puxadinho… Até mudança de endereço fazem sem contratar caminhão de mudança. Eles sempre compensam os gastos de um lado com o comedimento de outro.

Só para encerrar: não acho os holandeses necessariamente uns mãos-de-vaca. Vamos chamá-los de… Hmmm… comedidos. Eles são um dos maiores contribuidores com fundações de caridade do mundo. Quase todo mundo doa no mínimo 10 euros por mês do próprio bolso para alguma instituição. (Menos eu. Conto o porquê de ter encerrado com esse ato ingênuo numa futura postagem, um dia desses qualquer, me aguardem…)