Ana Fonseca – Amsterdam, Holanda

 

Na Holanda, há um hábito curioso para atender ao telefone. Você deve dizer diretamente seu nome e dar um pausa, permitindo que a pessoa do outro lado também se identifique. Se você atender dizendo “hello”, “pronto” ou alguma besteira do gênero, a pessoa do outro lado fica durante segundos muda, confusa, sem saber o que dizer. Os tamanquinhos não vão falar com você se não acontecer a identificação imediata e o propósito da chamada.

panic telefoon

Exemplo:

– Bom dia, poderia falar com o senhor Fulano de Tal, por favor?
 – Mas quem é você?
– Beltrano.
– Senhor Beltrano… de onde?
– Da empresa Baboseiras & Cia.
– Bom… A recepção já está fechada. Ligue amanhã mais cedo.
– Poderia anotar meu nome, empresa e passar uma mensagem?
– Não! Adeus.

 Outro exemplo que acontece muito quando tento marcar horário com o medico de família e ligo para as recepcionistas:

– Bom dia, eu queria marcar um horário pro meu filho essa semana com o Dr. Carneirinho, por favor.
– Sobrenome e data de nascimento?
– Blablabla.
– E a senhora é… ?
– A mãe da criatura doente.
– Mas o sobrenome não é o mesmo do filho, suponho?
– Não. É tal-tal-tal.
– Soletre por favor.
– T-a-l-t-a-l-t-a-l.
– Sintomas?
– Assim e assado. Tá praticamente morrendo.
– Ah, mas essa semana já não é mais possível. Vamos marcar para a semana que vem.

 

Pow, pra que perguntou então nome, sobrenome, seguro de saúde, sintomas e escambau se não tinha horário? Eu vou é correndo pro hospital!

Os holandeses por natureza são tímidos, cautelosos e desconfiados (pelo menos se comparamos ao brasileiros, somos muito mais descolados). Por exemplo: Há muitos holandeses que sofrem de fobia ao telefone (telefoonvrees). Os sintomas são ansiedade e extremo nervosismo quando necessitam atender ao telefone. Ter que deixar uma mensagem na secretária eletrônica também pode causar extremo nervosismo, taquicardia… a doença já foi catalogada e tem até nome: telefoonbeantwoorderapparaatvrees.

panic

A sociedade já é tão regulada, tudo já é tão controlado, que as pessoas desenvolveram um medo irracional (que beira a paranóia) de falar com estranhos ao telefone. Há muita escuta (não autorizada) aleatória dos cidadãos comuns também.

Eu, como já estou adaptada à vida na Holanda e já incorporei inconscientemente alguns hábitos, não atendo mais ao telefone. Me sinto insegura com questionamentos, com assuntos inesperados. Dizem que é do banco e perguntam que dia estou em casa. Ora essa, como posso saber se é ladrão ou do banco mesmo? Ou que se é o corretor de imóveis (andamos procurando uma outra casa para comprar), já que tem o celular do meu marido. Como assim malandro? Que é um estagiário da academia de ginástica e queriam “confirmar meu endereço”. Estranhooo!

Eu vivia cortando ligação! Vivia. Sim, porque agora se estou em casa e o telefone toca espero para ouvir a mensagem da pessoa (voicemail). Se ninguém deixa mensagem eu ligo para meu marido para perguntar se foi ele quem ligou. Outro truque quando atendo ao telefone e alguém me pergunta se eu sou a senhora de tal eu digo que sou a “a moça da faxina” e que vou anotar o recado pra patroa. E não libero nenhuma informação. Funciona bem.

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Ana Fonseca vive na Holanda desde 1999 e administra o blog Brasil com Z. Para saber mais sobre ela clique aqui. 

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