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Mulher Gondoleira

30/10/2010

Lilian Kano
Califórnia/Connecticut, EUA

 

Antes da recente viagem a Israel, passamos um tempinho na Itália.

Um dia, quando caminhávamos distraidamente ao longo de um dos canais em Veneza, demos de cara com Alexandra Hai, a primeira mulher gondoleira da cidade. Ela tinha acabado de se desentender com um jornalista e estava ainda meio exasperada, limpando sua gôndola, quando nos aproximamos. Perguntei-lhe se a incomodaria se tirasse uma foto, ao que ela disse que não, mas não queria ver nem sombra do “rude” jornalista enxotado.

A tensão de Alex, sua atitude firme, a couraça que desenvolveu ao longo dos anos se explica, em parte, pelas batalhas diárias que tem tido que travar diante da resistência que encontra de centenas de membros da Associação Italiana de Gôndolas. De origem alemã, primeira mulher num universo tradicionalmente masculino, onde desde o século 11 a técnica é transmitida de pai para filho, ainda hoje, sofre provocações, insultos e atrai atenção muitas vezes indesejada. Sua gôndola foi vandalizada em mais de uma ocasião.

A verdade é que foi reprovada nos três testes locais de operação de gôndola a que se submeteu (ela alega discriminação) e teve que recorrer à justiça por cerca de uma década para poder exercer a profissão, o que finalmente conseguiu em 2007. Mas, com restrições. Hoje ela é empregada apenas por um hotel, o Albergo San Manuele, e só poder atender aos hóspedes desse estabelecimento. Seu uniforme também é diferente.

Confesso que sua história me fascina, assim como sua força e determinação.

Recentemente, soube que uma outra mulher, chamada Giorgia Boscolo, de 24 anos – além de cria da casa, filha de peixe – foi pela primeira vez aprovada no teste da associação e conseguiu sua licença em agosto.

Gondoleira oficialmente licenciada, ao invés de gondoleira particular como Alex, Giorgia vai poder trabalhar mano a mano com os outros colegas de profissão, para qualquer cliente e vestir a tradicional camiseta listrada, cobrando 100 euros (cerca de 140 dólares) por um passeio de 50 minutos. 

Alguns dizem que, por não ter a licença da associação, Alex não pode nem ser chamada de “gondoleira”. Mas ao ver o brilho do seu elegante barco negro, sua destreza, classe e orgulho ao conduzi-lo, quem de nós se importa?

7 Comentários leave one →
  1. 30/10/2010 8:20

    Ainda falta muito para a Italia ser uma lugar de “pari opportunità” entre homens e mulheres….

  2. 31/10/2010 14:08

    Nossa que bacana!
    Bem, por um lado bacana ela ter vencido a descriminação é por outro lado é bizarro por ainda existir esse lance de sexualismo tão presente!

  3. 31/10/2010 22:00

    Sim, é uma pena.
    Para qualquer um que a veja (Alex) em ação, não há dúvidas de que ela é uma senhora gondoleira, sim, independente do que diz a associação.

  4. 01/11/2010 13:06

    A cultura Italiana e’ muito machista.

  5. 24/03/2011 10:30

    Qual é a diferença entre um gondoleiro e uma gondoleira?Resposta:nenhuma.

    Ridiculo nao deixarem a mulher trabalhar na dela porque é mulher.Uma coisa muito antiquada, pelo amor de Deus.Acredito que as diferenças devam ser compreendidas e como sempre digo”se somos diferentes, essa é a graça”.

    Aqui na Italia nao existe médic,até mulher é chamao de médico. Nao existe juiza, mulher é chamada de juiz também entre outras situaçoes.

    Parabéns e minhas felicitaçoea a esse exemplo de mulher.

    Druida

  6. 04/07/2011 13:31

    Preconceito na Italia é o que mais existe.Voce é estrangeiro é “extracomunitario”,voce é mulher estrangeira brasileira,voce entao é “prostituta e facil”.Lamentavel.

  7. Helena permalink
    03/07/2013 19:20

    Muito interessante… Acreditem, moro a quatro anos em Treviso, já passei dezenas de vezes por Veneza e só soube agora que existem mulheres gondoleiras. Eu particularmente não tive a sorte de vê-las. Soube que são muito chatos e ligados à tradições, todos os gondoleiros são venezianos natos e falam fluentemente o dialeto veneziano (realmente só falam veneziano entre eles), talvez por isso a restrição da moça da foto. Quanto ao machismo… oficialmente não deve existir, mas óbvio que tem né…

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