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A Coruña, Espanha

 

Mudar de país significa sempre ter que lidar com certo choque cultural.

A Espanha é um país cuja cultura de modo geral não é muito diferente de um país latino americano. Afinal de contas, estamos falando de um país democrático, de origem latina e de tradição religiosa cristã, ou seja, se você se muda para um país de origem não latina (Alemanha, Polônia, Rússia) ou não cristã (Turquia, Líbano, Israel) é provável que as diferenças culturais sejam mais evidentes.

No entanto, às vezes notamos diferenças até quando mudamos de bairro, portanto quando se muda para outro país, que fica inclusive em outro continente, então nem se fala. Ao chegar à Espanha (e já fazem 6 anos), várias coisas me chamaram a atenção, porém, vou listar as 5 coisas que eu mais estranhei (“estranhar” não significa “não gostar”, simplesmente achei diferente).

1. Cigarro

Como já comentei em outro post, fiquei mega impressionado com a quantidade de fumantes na Espanha, principalmente mulheres. Não tenho números oficiais, porém baseando-me nas minhas estatísticas “visuais” dos bares que frequento, de cada 10 mulheres, 8 fumam. Em relação ao cigarro, já vi de tudo um pouco: pessoas fumando em um restaurante no meio da refeição, grávidas fumando, famílias inteiras fumando com bebês no meio… Já vi até professora de academia de ginastica fumando entre uma aula e outra! Enfim… A Espanha é uma chaminé!!!

2. Atendimento em Lojas

No Brasil estamos acostumados a ver um (a) vendedor (a) fazendo verdadeiros malabarismos tentando atender a 5 clientes ao mesmo tempo em uma loja. No Rio de Janeiro, onde eu morava, me lembro de entrar em uma loja, e o vendedor interromper um atendimento para saber o que eu queria. Na Espanha é completamente diferente. Enquanto o vendedor está atendendo um cliente, você é completamente ignorado. E o vendedor não tem pressa. Ele pode ficar meia hora com um só cliente, sem te dar a mínima bola. Já entrei em lojas com um único vendedor, e havia 10 pessoas ali esperando pacientemente a vez de serem atendidos. A atenção dada ao cliente é exclusiva e “sagrada”. Se você tentar interromper o atendimento, tanto o cliente como o vendedor vão te olhar com uma cara feia como se quisessem dizer: “Ei, espere sua vez!!!”

3. La Siesta

Como não poderia deixar de ser, este clássico espanhol não poderia ficar de fora. Os espanhóis são profissionais da siesta, e isso é algo que repercute nas cidades. Vou contar rapidamente como foi minha primeira experiência com a siesta espanhola: Centro de La Coruña: 1 da tarde de uma terça-feira. As ruas apinhadas de gente, as lojas cheias, e aquele trânsito chato que toda cidade tem que suportar. Entrei para almoçar em um shopping center e aproveitei para olhar uns livros. Quando saio para rua, veio a surpresa: Lojas fechadas, ruas desertas, trânsito dominical. Na hora pensei: Será que soou algum alarme de bomba nuclear e eu não fiquei sabendo? Ou será que morreu algum traficante e até aqui tem toque de recolher? Não. Simplesmente, foram todos dormir a siesta. É isso mesmo: o comércio, os bancos, as farmácias… TUDO fecha para que a população possa exercer seu sagrado direito de descanso. Onde eu trabalho não podia ser diferente: Temos 3 horas almoço… Sim! TRES HORAS!!! Quando voltamos de tarde para o escritório, vejo a cara das pessoas com aqueles olhinhos puxados de sono e alguns bocejos, como se fosse as 7 da manha. Existem escritórios que podem chegar a ter 4 horas de almoço, tudo isso para garantir a sagrada siesta de cada dia.

4. O mês de agosto

Se a siesta é capaz de fazer uma cidade inteira parar por um par de horas, as férias de agosto são capazes de fazer o país inteiro parar durante 1 mês. É impressionante como todo mundo no mês de agosto se põe de acordo e resolvem todos tirar férias ao mesmo tempo. Nada funciona (ou funciona parcialmente). Você liga para uma empresa, e ninguém atende ao telefone. Você vai a uma loja, e dá de cada com um cartaz “estamos de férias até setembro”. Se tiver que resolver alguma papelada em um organismo público, a primeira coisa que te dizem é que são “malas fechas” (datas ruins). Se você precisa resolver alguma coisa burocrática na Espanha, seja o que for, jamais escolha o mês de agosto, ou você vai ficar a ver navios….. (na praia, literalmente).

5. Brigas sem rancores

De todas as coisas novas que eu vivenciei na Espanha está é, sem dúvida, a que eu mais gostei: Ter a liberdade de dar um esporro bem dado, sem medo de rancores (sempre e quando você tenha a razão, e logicamente saiba medir suas palavras). No escritório onde eu trabalho já presenciei altas discussões, pessoas defendendo seus pontos de vista aos berros, e quando você acha que vai terminar em porrada, simplesmente as pessoas resolvem suas diferenças, e vão tomar um café, como se nada tivesse acontecido. Sem rancores. Isso já me rendeu situações de eu tomar a liberdade de gritar com meu próprio chefe, e ele vendo que eu tinha razão, aceitou meus argumentos e ainda me deu os parabéns. Assim é bom demais. Você não leva desaforo pra casa, desabafa e ainda fica com a razão! Eu testemunhei algo parecido na Itália (país que também é conhecido pelo sangue quente): Estava jantando em um restaurante quando de repente 2 garçons começaram discutir um com o outro, aos gritos, no meio do restaurante. Veio o gerente, conversou com os dois e em seguida, estavam eles rindo de alguma piada. O lado bom disso, é que você não fica aquele rancor que dá margem à fofoquinhas de corredor. Você fala na cara o que acha, defende bem seu ponto de vista, e se tiver, razão, vai ser até parabenizado!