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Os japoneses e os japoneses

30/11/2010

 
Júlio Cesar Caruso – Colaborando de Tóquio, Japão

 

Sempre me perguntam se os japoneses gostam dos brasileiros. Eu digo que em geral sim, mas isso é muito relativo. Talvez um japonês que já tenha tido algum problema com um vizinho brasileiro, tenha se separado da mulher brasileira, esse sim deve se recusar até a ouvir bossa nova que é pra não lembrar de brasileiro nenhum. Do mesmo modo que se me perguntarem se eu gosto dos japoneses, responderei que em geral sim. Só no trem que encontro mais carinhas do tipo que eu não gosto! Mas uma coisa é certa: há japoneses e japoneses. OK! Pode parecer que estou dizendo algo óbvio demais, mas me refiro a uma separação de grupos muito peculiar aqui no Japão! Falo dos japoneses que nunca saíram do Japão ou tiveram qq contato com estrangeiros e daqueles que já viveram fora, são casados com estrangeiros ou trabalham com estrangeiros.

É notória a diferença dos dois grupos. Aqueles que já saíram daqui alguma vez falam de maneira diferente, reagem de maneira diferente, conversam normalmente, aliás, puxam conversa, riem, dão opiniões, se expressam e acima de tudo sabem o que nós estrangeiros sentimos. Eu costumo sempre acertar na mosca! Dia desses foi com o barbeiro. Ele que puxou conversa comigo e me perguntou de onde eu era e tal. Depois de uns 5 minutos num gostoso bate-papo, eu perguntei a ele quanto tempo ele havia morado fora. Ele arregalou os olhos pq até o momento, ele não havia mencionado nada. E ainda me perguntou: como vc sabe?? Eu falei?? Eu disse que não havia falado, mas que eu notei que ele não era um japonês, digamos, comum. Ele riu e respondeu: morei 10 anos nos EUA e tive que voltar para cuidar de meus pais. Na mosca!

Outro dia foi com um taxista. Esse tbm puxou papo. Ficamos conversando e rindo até que eu perguntei em que país ele havia morado. Ele disse: Lugar nenhum! Quando eu estava começando a achar que minha teoria estava indo por água abaixo, ele completou: bom, minha esposa é filipina e já ficamos lá 3 meses, mas a gente sempre vai pra lá! YES!!!!!!! Mais um que acertei!! !…de tabela, mas acertei! Enfim, eles são nitidamente diferentes. Agora, morar fora, somente não significa que ele será sempre assim! Cabe a esse japonês, quando voltar ao Japão, se impor e assumir que mudou e que aprendeu valores fora do país que o fizeram uma outro pessoa. Isso porque aqueles que se rendem à poderosa força da pressão da sociedade japonesa, esses, voltam ao normal. Em geral, eles têm medo de se expressarem, não puxam conversa com estrangeiros, pensam demasiadamente no que os outros irão pensar dele e temem serem vistos como “os diferentes” ou  “estrannhos” ou ainda, numa conotação mais amena, são taxados como “maluquinhos”. E muitas vezes, não são. Eles apenas não têm medo de se expressarem, puxam conversa com estrangeiros, não temem serem vistos como “os diferentes” e não estão nem aí para que os outros vão pensar dele. E alguns casos, não têm medo, ou melhor, não encontram barreiras para tocar, abraçar, beijar outra pessoa.

Conheço japoneses dos dois grupos. Tem até alguns do grupo dos que já viveram fora, mas que vira e mexe, têm uma recaída. No fundo, o que eu observo, é que são na maioria, muito felizes por terem visto outro mundo lá fora – diferente daqui –  e sabem o que estamos querendo dizer quando dizemos algo sobre os japoneses em geral. Muitos gostam do nosso jeito livre de ser, nossa espontaneidade, alegria de viver e saber que não precisamos nos importar tanto com os outros, principalmente com aqueles que não pagam a nossa conta! Acho interessante que os próprios japoneses sabem da pressão que a sociedade japonesa impõe. Bom, qual sociedade que não impõe valores? Mas aqui é de certa forma, uma imposição bem diferente! Bom, mas, enfim, a diferença dos tipos de japoneses está entre se render ou não….eis a questão!

10 Comentários leave one →
  1. Nadja G. permalink
    30/11/2010 18:56

    Muito interessante o post! Ja tinha ouvido falar nessas “imposicoes” da sociedade japonesa. Li numa revista uma entrevista com um italiano que morou ai falando do isolamento voluntario que jovens japoneses faxem, principalmente mulheres. Agora esqueci o nome disso, mas parece que e super comum, passam anos trancados no quarto. Que horror!

    Beijos

  2. 01/12/2010 19:43

    Olá Nadja! Obrigado pelo comentário. Que bom que achou interessante. Fico feliz em saber disso. Sobre o nome, creio eu que vc deva estar querendo se referir ao HIKOMORI, não? Realmente é um dos problemas sociais daqui, mas que, até onde eu sei, não se restringe apenas às mulheres. Bom, obrigado mais uma vez. Aproveito e a convido a visitar o meu blog particular onde conto muito mais coisas sobre o Japão de hoje. Acesse: http://www.muitojapao2.blogspot.com. Espero você lá! Abs.

  3. 01/12/2010 21:14

    Pois é, também já tinha ouvido falar um pouco sobre o caráter dos japoneses, mas não sabia que os que tinham morado fora tinham “se reciclado” e poderiam ser reconhecidos tão facilmente! E aquela históra dos suicídios entre jovens, é verdade?

  4. 01/12/2010 21:32

    No inicio do ano que vem irei morar no Japão, meu esposo já está aí. Estou preocupada com a discriminação e também com a lingua, foi tudo caindo de paraquedas na minha vida e nihongo wakarimassen >_<
    Em umas das reportagens que o Luciano Hulk fez no Japão, ele mostrou um ex jogador de futebol brasileiro, que é casado com uma japonesa dizer:

    "As mulheres brasileiras não são para casar. Elas beijam em qualquer lugar e as japonesas não fazem isso. Andam á alguns passos atrás do marido."

    Fiquei chocada em ouvir isso da boca de um homem que ansceu no Brasil!
    Somos o que? P*** aos olhos de certos japoneses/ imigrantes? Não sei se vc pôde assistir, foi no Vou de Taxi Japão! Absurdoooo!

  5. Chris permalink
    01/12/2010 22:57

    E muito isso que deparo com minha vida diaria aqui. Parabens pelo “post“.
    Os japoneses tem sair pelo mundo afora, e pararem de perdem tempo com essa pressao toda que acho um atraso na vida, e na evolucao como pessoa.

  6. Alexandre permalink
    01/12/2010 23:09

    Muito bom o texto! É bom que as pessoas saibam que existem esses grupos. Para muitos aqui no Brasil, o Japão é de 1820.

    Show!!

  7. 02/12/2010 0:26

    Sim, Glenda. Eles podem ser reconhecidos. Ah! E a história dos suicídios entre jovens é verdade sim. E digo mais, são jovens e jovens mesmo, mais precisamente crianças! Vira e mexe sai no jornal uma criança que se matou. Uma das mais recentes se matou no quarto, se enforcando com o cachecol que a própria mãe fez, porque os colegas de escola a excluíam do grupo. A gota d’água foi ela faltar por não querer ir mais à escola e em um dia que ela resolve comparecer, era o dia de uma aula mais descontraída. Foi qdo um coleguinha de sala a disse: Pra essa aula tu vem né?!….a menina nunca mais foi à escola, pq se matou!

  8. Leti - Suíça permalink
    02/12/2010 19:09

    Muito interessante o seu post. Aqui na Suíça percebo um comportamento muito parecido por parte dos nativos. Num país onde mais que 21% da população é estrangeira (e não estamos falando de estrangeiros que já possuem passaporte suíço) ainda existe muita gente fechada.

    Existe o suíço que viaja muito, tem a “menta aberta” para novas culturas, adora conversar sobre tudo e é muito receptivo. Porém existe aquele que foi no máximo até a França, a Alemanha ou a Espanha por 15 dias de férias e morre de medo da onda de imigrantes que chega todos os anos já dura mais de cem anos.

    A prova disso foi um um plebiscito que foi votado na semana passada onde os estrangeiros que cometerem crimes serão julgados de maneira diferente que os suíços. É uma questão um pouco mais delicada do que simplesmente dizer: “Pisou na bola, tá fora”.

    Quem quiser saber mais a respeito: http://www.swissinfo.ch/por/reportagens/Iniciativa_da_expulsao:_Uma_vitoria_do_medo.html?cid=28904012

  9. milleonaria permalink
    06/12/2010 15:46

    Olá! Interessante e bem observado, seu post! Morei no Japão durante a infância e entendo bem o que vc diz sobre japonêses que saíram e que não saíram do Japão. Os que viajaram mais, estes vinham nos visitar, participavam das festinhas na minha casa e até nos abraçavam depois de um certo nível de álcool (rss)! Eu como era criança, frequentei a escola e pude sentir na pele o gosto da discriminação. A pressão é realmente absurda e tb tive vontade de morrer de verdade. É difícil ser gaijin, mas aprendi muito com td. O senso de organização e respeito pelo próximo, principalmente pelos mais velhos, que adquiri no Japão foi muito muito muito importante para minha vida!

  10. 09/12/2010 0:46

    Muito interessante o seu ponto de vista. Moro em Curitiba e vim pra cá há mais de 35 anos. Os não curitibanos também dizem que os curitibanos puros são fechados, não puxam conversa, já quem tem fortes influências de outras regiões tem diferença também.
    Nenhuma pesquisa sobre isso, só conversas sem fundamento…

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