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Com os pés no Japão

15/01/2011

Gabriel Shiguemoto
Tóquio, Japão

No final de 2010, recebi uma visita inusitada do Brasil. Uma pessoa que nunca imaginei gostar da cultura japonesa a ponto de atravessar o mundo para conhecer o Japão. Armada apenas com uma câmera Canon e um guia de viagem, Leony “Sortido” enfrentou sozinha viagens e andanças pelo país. Sua experiência foi inspiradora, mesmo para quem já vive na ilhota há anos como eu.

Dona de uma energia positiva e um ótimo olho para detalhes, Leony registrou sua viagem com fotografias de tirar o fôlego. Confira abaixo algumas de suas fotos e conheça um pouco mais sobre minha nova amiga-ídolo!

Galeria da Leo

S: Leony, de todos os lugares do mundo, por que o Japão?

Além de ser um sonho de longa data, na minha cabeça o Japão seria o único país no mundo onde eu poderia encontrar, num pequeno espaço de terra, tantas coisas maravilhosas como: natureza exuberante, arquitetura primorosa, comida incrível para todos os sentidos sensoriais, pessoas lindas e interessantes, além de tradição e modernidade convivendo harmoniosamente. Claro que muitas dessas coisas eu não fazia idéia que seriam tão legais até conhecer pessoalmente.

S: Qual foi a sua primeira impressão ao chegar no país?

Antes de ir tive um pouco de receio de não conseguir me virar sozinha. Mas achei fácil encontrar lugares, pegar transporte público e pedir informações na rua mesmo com o meu parco japonês. Me impressionou a organização e a limpeza dos lugares. Numa cidade enorme como Tóquio com tanta gente e com tantos apelos visuais, não me senti acuada. Logo nos primeiros dias passei por situações cômicas por não estar habituada com algumas coisas da rotina dos japoneses. Muitas vezes saí com o chinelinho coletivo do banheiro até a recepção do hotel, acionei o botão errado da descarga e trombei acidentalmente com as pessoas que estavam andando do lado certo na rua.

S: Você entende japonês? Conte um pouco como foi a comunicação com os nativos.

Eu estudei um pouco de conversação em japonês antes de ir, por que sabia que lá o inglês muitas vezes não adiantaria. Então não encontrei muitas dificuldades quando precisava pedir informações na rua ou fazer o pedido em restaurantes. Eu não cheguei a estudar a parte escrita mas aos poucos fui me acostumando com algumas palavras em kanji e conseguia saber, por exemplo, o nome da estação que eu precisava descer ou se o vagão era de assentos reservados no trem bala.

Se cometi alguma gafe, tenho certeza que fui perdoada. Os japoneses tem muita boa vontade em ajudar os estrangeiros e sabem que tem uma língua dificílima pra nós ocidentais.

S: Quais foram os lugares que mais marcaram?

Primeiro Tóquio por uma série de razões. Foi a primeira e última cidade que eu visitei no Japão e já estou com uma saudade enorme de Harajuku, Shibuya, Asakusa e também Shimokitazawa que é tranquila e bacaninha.

Andar de monotrilho à noite em Odaiba foi uma das melhores surpresas da viagem. Acho que fiz umas quatro voltas completas na linha sem sair do trem. Queria ver muitas vezes pra não esquecer aquele mar de janelas dos prédios iluminando o horizonte. O trem também passa alto entre os prédios, cruza viadutos por cima e por baixo, faz curvas tão acentuadas que parece que está voando. Depois alcança os carros andando lado a lado com eles e desaparece no meio de mais prédios. Me senti na metrópole do filme do Fritz Lang. Também dei uma volta completa na linha Yamanote pra ver da janela como a cidade se transforma ao longo dos trilhos.

Me marcou muito a chuva que eu tomei em Osaka na região de Namba. Parei no meio de um cruzamento pra fazer fotos e me senti no filme Blade Runner. Em Osaka também tem um aquário lindo com peixes enormes e mergulhadores dividindo o mesmo tanque.

Gostei muito de Takayama por ser tão pequena e charmosa. Lá tem lojinhas lindas e comidinhas de rua muito gostosas.

Kyoto especialmente me emocionou. Visitei templos maravilhosos, alguns praticamente vazios. Sem pressa fiquei admirando os jardins e as folhagens coloridas do outono. As folhas que caíam formavam um tapete tão volumoso que dava vontade de deitar em cima. Também comi coisas que nunca tinha provado antes e tudo é muito chique e sofisticado. Fiquei horas circulando na estação principal de Kyoto (a segunda maior do mundo) e poderia ter passado muitas horas mais. Lá tem lojas sem fim de doces incríveis e mulheres com quimonos elegantes fazendo compras.

S: Você ficou hospedada em Tóquio. O que achou da capital?

Fui várias vezes para Shibuya por que simplesmente me apaixonei pelo lugar. Na minha opinião é lá onde estão as coisas mais legais da cidade e as pessoas mais interessantes. Além de Shibuya, fiz muitas compras em Harajuku. Encontrei roupas e acessórios lindos que não encontro nem em Nova York. É uma moda muito própria de Tóquio e é do meu gosto e estilo.

Fiquei abismada com a arquitetura tão variada da cidade. Tem todos os estilos de arquitetura e também construções que só se vê em Tóquio. Quando estive no mirante do Roppongi Hills, comprei um sorvete de chá verde e sentei para olhar a cidade. O desenho urbanístico não é muito definido por que quase não se vê espaços vazios entre os prédios. E são milhares deles dividindo espaço com avenidas, pontes e linhas de trem. As vezes se vê uma quadra, um heliporto, um parque.. e me perguntava como essa cidade consegue se manter de pé mesmo com tantos terremotos. Também ficava reconstruíndo a Tóquio do período Edo que eu tinha visto dias antes na maquete do museu. É uma cidade realmente surpreendente.

S: O que você acha que os brasileiros tem a aprender com os japoneses?

Acho que não só os brasileiros mas toda a humanidade tem muito o que aprender com eles.

  • A relação que os japoneses tem com o silêncio foi o que mais me marcou. Nos lugares cheios como os trens por exemplo, não se ouve o toque do celular nem conversas exaltadas. Numa cidade populosa como Tóquio, o silêncio acompanha o ritmo frenético das coisas. Não se ouve buzinas o tempo todo e vê-se que os japoneses se esforçam para respeitar o silêncio.
  • Tirar os sapatos antes de entrar em casa, nos templos e em alguns lugares públicos. Eu já fazia isso em casa antes mesmo de ir pro Japão e acharia legal se mais pessoas fossem adeptas desse hábito.
  • O desapego com o que é velho e o respeito as tradições: os japoneses constróem prédios e em poucos anos levam ao chão para erguer um novo e mais moderno. Ao mesmo tempo, templos centenários são muito bem conservados, assim como antigas tradições como as gueixas e a cerimônia do chá.
  • Depois da II Guerra Mundial os japoneses se posicionaram contra a proliferação nuclear no mundo. Sem dúvida, a humanidade poderia viver sem essas bombas. Acho que toda essa grana gasta na construção de bombas poderia ser usada na pesquisa científica e exploração espacial.
  • O tratamento aos animais domésticos também é uma coisa que devemos aprender com os japoneses. Eles simplesmente AMAM os bichinhos e os tratam muito bem. Alguns são levados até em carrinhos de bebê! Também não vi cachorros abandonados nas ruas. Sorte dos animaizinhos japoneses!
  • Chinelo com meia: os brasileiros em geral abominam mas não tem coisa mais confortável de vestir em qualquer época do ano.

S: Alguma dica para os marinheiros de primeira viagem?

Ande com muito dinheiro no bolso. Não é costume dos brasileiros fazer isso, mas lá não tem problema com roubos como aqui. É que os estabelecimentos raramente aceitam cartões e tudo precisa ser pago em moeda. Pra não perder tempo procurando caixas eletrônicos, vale a pena sacar uma boa quantia pra ir usando no dia a dia.

Não pense que no Japão só vai comer sushi e sashimi o tempo todo. Lá tem uma variedade de pratos enorme, os ingredientes são diferentes, o preparo e a apresentação também. Mas cuidado: tem coisa que parece que é de comer mas não é e tem coisa que parece brinquedo mas na verdade é comida.

Faça muitas fotos! Tem coisas que não vai adiantar só você contar, as pessoas só vão acreditar vendo.

Sobre a entrevistada:

Leony é uma designer apaixonada por arquitetura e fotografia. Já fez mochilão pela Europa e América do Sul. Sempre viaja sozinha por que acha que dessa forma nunca vai se perder. Depois que voltou do Japão ficou com a impressão que ele está muito perto do Brasil e descobriu que na verdade ela é japonesa. Vive em São Paulo com o marido e dois gatinhos bagunceiros.

6 Comentários leave one →
  1. 15/01/2011 15:21

    Muito boa essa entrevista. A Leony se expressa muito bem e tem um ar poético ao falar que nos transporta para os locais que descreveu! ;D
    Parabéns!
    Bjinhos,
    Manddy – http://tourdubaiguide.blogspot.com/

  2. 15/01/2011 15:30

    AMEY a personalidade e a atitude da Leony. You go girl ! Fiquei com vontade de conhecer o Japao, mas levaria o maridovski porque ele adora tudo que e’ pais do oriente extremo. Ja conheci Hong Kong sozinha (e sim, ja era casada) mas acho que a essa altura do campeonato seria muita sacanagem nao leva-lo pro Japao.
    Gostei de saber:
    * Do silencio de Toquio (Amsterdam tem muito barulho dos bondes, afemaria. Fora dos centros das metropoles e’ sempre silencio retumbante);
    * De tirar os sapatos nas casas (na Holanda e’ igual);
    * O tratamento dispensado aos animais domesticos (idem);
    * Chinelo com meia aqui nao rola, mas bota de couro no verao (ai-ai..) sim.
    O Japao no geral “chique e sofisticado”. Mmm, deve haver uma disparidade enorme entre o avanco do Japao e o resto do mundo. O Brasil tem muito chao pra percorrer minha gente !

  3. 17/01/2011 14:32

    Muito boa a entrevista! Tive o prazer de conhecer a Leony e seu bom humor e alto astral em sua vinda à Tóquio! Tbm pude testemunhar seu positivismo ao comentar sobre o que fez, os lugares por onde passou ou simplesmente quando contemplava, com olhar curioso, algo ao seu redor. Mas confesso que na hora, não pude perceber que além das fotos, ela tinha talento para texto e um jeito todo particular de se expressar que eu gostei muito e, lendo suas respostas, a vi novamente diante de mim novamente! Parabéns ShigueS pela ideia e Parabéns Leony pelas fotos, pela conquista, pelo belo texto e simpatia! Aparece mais vezes por aqui! (rs)

  4. Brunna Aranha permalink
    08/09/2011 3:21

    Adorei saber tudo isso.. Tenho um sonho de infância ir para o Japão…
    E quero realizalo ano que vem…
    E estava com um pouco de medo..
    Mas vendo o depoimento da Leony, fiquei mais tranquila…

    • 09/09/2011 2:00

      O Japão assusta mesmo. Antes de vir para cá, morria de medo de tudo. Pegar trem e me perder, não conseguir pedir comida e outras coisas simples do cotidiano. Mas chegando aqui você vê como o país é civilizado e as pessoas são prestativas. Vale muito a pena conhecer.
      Se você tiver oportunidade, visite. Não vai se arrepender!

  5. José Maria Cavalcanti permalink
    29/02/2012 0:58

    É numa viagem como essa que a gente percebe a solidariedade e a grandeza das pessoas de uma das mais belas culturas.
    Por trás da seriedade, há muito calor humano.
    http://bollog.wordpress.com/2012/02/26/japao-okinawa/#comments
    Parabéns pela reportagem e pelos lindos registros fotográficos.
    José Maria Cavalcanti

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