Lilian Kano
Connecticut, EU


Há algum tempo em Nova Iorque, embarcamos na jornada mágica do clássico West Side Story, aquele Romeu e Julieta americano, mais contemporâneo e pop. Há décadas o musical, hoje em tour pelo país, encanta pelo romantismo e sacode o público com um fundo social crítico, tocando em questões como delinquência juvenil e preconceitos baseados em diferenças étnicas e culturais.

Saímos da Broadway comovidos, impressionados com o espetáculo que, muito bem cantado, coreografado e encenado, nos deixou literalmente “arrepiados”.

A peça, criada nos anos 50, no meio do século passado, me deixou matutando… Agora, quase 6 décadas depois, será que muita coisa mudou? Até que ponto o que vimos no palco é um estereótipo exagerado, folclore ou realidade?

Life can be bright in America, if you can fight in America, Life is all right in America, if you are all white in America…

“A vida pode ser brilhante na América, se você pode batalhar na América, a vida é legal na América, se você é branco na América…”

É um trechinho da canção “America”, de Leonard Bernstein, que aqui fala especificamente do sonho americano e da discriminação na terra das oportunidades. E a letra vai seguindo assim, ambígua, com a alternância de virtudes e defeitos, louvores e críticas, esperança e sarcasmo … O que por si só, sem a exaltação de um discurso ufanista, já soa mais verdadeiro, já que todo país é uma mistura de tudo isso mesmo. Ainda mais um tão complexo, com uma área tão grande, cores e tendências particulares em cada região.

Quando me mudei para cá, uma coisa que me chamou a atenção: já na primeira viagem do aeroporto para casa foi o grande número de bandeiras tremulando orgulhosas em varandas, janelas e quintais.

Para os americanos a bandeira nacional no mastro, em cada casa, simboliza o orgulho, o amor pelo país, tendo se tornado mais frequente principalmente nos últimos anos, depois do ataque de 11 de setembro de 2001. Ela também é uma maneira de honrar a impavidez dos tantos militares lutando no Iraque e no Afeganistão, e parece dar ao povo um senso de unidade.

Além disso, como fator adicional devo também mencionar a doutrina excepcionalista da nação “escolhida por Deus”, que continua muito viva por aqui. Para muita gente os Estados Unidos são a nação mais especial e magnificente da história do mundo, idéia que, de certa forma, é meio alimentada pelo sistema. Com relação a isso o presidente Obama tem sido criticado por muita gente por colocar freios no mito em alguns pronunciamentos.

Aos meus olhos de estrangeira recém-chegada, as bandeiras traziam sentimentos mistos, afirmando caladas esse excepcionalismo e a distância de uma unidade à qual não pertenço. Talvez aconteça o mesmo com muitos descendentes de africanos, mexicanos e índios americanos, em especial, pela sua história com o país.

Há também nessa época incerta aqueles imigrantes que colocam a bandeira no trabalho ou em casa por medo de serem confundidos com o inimigo.

Por outro lado, tivesse eu uma história longa no país, ou minha melhor metade, familiares ou amigos lutando na guerra, quem sabe não estaria também exibindo a bandeira entoalhada no banheiro…

A cidadezinha onde moro na Costa Leste tem mar, muito verde, história, um forte senso de comunidade e… uma população predominantemente caucasiana. Ao chegar um dos meus primeiros pontos de interrogação foi quanto a sua diversidade. Sempre tive por perto amigos de diversas raças e partes do mundo, me abrindo janelas múltiplas com a variedade de backgrounds, idéias e opiniões. O que sempre me estimulou e ajudou, longe do meu país, a cultivar o fascínio por aquele conceito aberto, além fronteira, de cidadão do mundo.

Será que eu me sentiria uma estranha no ninho? Teria aqui acesso a esse tipo de estímulo? Amigos são tão importantes…

Prestes a completar o segundo ano, não posso dizer que conheço muito do país, mas olhando ao redor, em determinados lugares, sinto uma certa segregação, sim. Muita coisa mudou dos anos 50, e de West Side Story, para cá. Hoje, por exemplo, os Estados Unidos têm o seu primeiro presidente negro da história mas, infelizmente, existe um clima de pessimismo quanto à reforma prometida da situação legal dos imigrantes, por causa da forte influência republicana (conservadora) atual nos rumos da política.

Na Califórnia, onde também passo boa parte do tempo, vejo inúmeros grupos de orientais aqui, hispânicos acolá, afro-americanos mais adiante… Há também as localidades conhecidas como Chinatown, Little Tokyo, Thai Town, Little India, Filipinotown, etc. Enfim, sinto uma tendência maior das pessoas se relacionarem dentro do seu grupo étnico.

Por outro lado, os Estados Unidos são uma nação de dimensão gigantesca, onde idéias e valores mudam ao sabor de ventos diferentes, de estado para estado, região para região. Inimigos mortais lá fora, ao cruzar as fronteiras para cá, passam a trabalhar lado a lado, unidos e/ou competindo uns com os outros, frequentando o mesmo padeiro, açougueiro, e, no parque, observando os filhos brincando entre si. Algo assim como o nosso Saara, no Centro do Rio, onde árabes e judeus compartilham o espaço em harmonia. Na Big Apple, por exemplo, a salada de sotaques e raças em cada tigela é bem maior… Assim como a atmosfera competitiva. Nada é perfeito.

De forma geral, continuamos, no entanto, habituados ao estereótipo do hispânico trabalhando em construções, estradas e jardins; a filipina enfermeira; chineses e coreanos em lavanderias e restaurantes, etc, porque é o que, no final das contas, vemos com frequência no pão-pão queijo-queijo, bread and butter do dia a dia.

Mas tem também, não tão raro, histórias como a que vimos recentemente num restaurante em Santa Barbara (CA), num artigo de jornal colado na parede para quem quisesse ler. O texto falava da troca de proprietários do estabelecimento. O dono atual, um imigrante mexicano teria trabalhado lá anos e anos lavando pratos. Hoje, é o bem-sucedido, orgulhoso, dono do negócio, empregando toda a família. Uma das muitas histórias de “vim, vi e venci” desse país onde, com honestidade, trabalho duro e determinação, o respeito é conquistado e ganhamos todos essa sensação de alma lavada, de otimismo e esperança na realização de mais um – nosso – sonho dourado americano.