BIbiana Nilsson
Hamburgo, Alemanha

Não é a primeira vez que eu venho para a Alemanha, mas é a primeira vez que eu preciso me deparar, de verdade, com o jeito alemão de ser. Aos 16 anos eu fiz um intercâmbio e passei oito meses em terras germânicas. Eu amei, não queria voltar pro Brasil. Passei os anos seguintes sonhando em retornar para cá e agora … eu só quero entender.

Não que não seja uma experiência boa, mas é muito diferente do que eu imaginava. Trabalhando entre alemães, morando com alemães, eu tenho conseguido perceber mais as nuances – o que nos aproxima e o que nos separa, além do Atlântico. É surpreendente.

Estou morando em Hamburgo há praticamente dois meses. Trabalho na bab.la, um portal multilinguístico, em que sou responsável pelo conteúdo e também pela parte de Marketing. É bastante trabalho para um estagiário e bastante responsabilidade também – coisas que a gente vê no Brasil, inclusive. Assim como na nossa querida terra, aqui também a remuneração para estágios não é lá aquela coisa… o sujeito se vira, mas não dá pra acompanhar o padrão europeu de vida.

É interessante trabalhar com a própria língua e cultura fora do país de origem. Uma das minhas muitas tarefas é escrever a respeito do Brasil e da Língua Portuguesa, para o blog que temos aqui, o Lexiophilles. Nas últimas semanas, tenho me detido com os estados brasileiros. É incrível: só agora, aqui, longe, eu fui me dar conta da imensidão do Brasil. E das riquezas que temos. Aos poucos, eu entendo melhor a perplexidade dos europeus diante do nosso país… o Brasil é inexplicável. Tem que viver pra ver.

Algo que eu comecei a valorizar bastante por aqui é a preocupação que temos com os outros. Nós brasileiros queremos que os outros sempre se sintam bem e nos esforçamos para isso. Os alemães também querem isso, mas não sabem direito como. Noto que é difícil para eles perceber o que o outro está sentindo e, mais ainda, chegar até o outro. Não só abraço e beijo são raros por aqui… falar sobre os próprios sentimentos é difícil para qualquer um, mas para os alemães é um suplício. Eles têm medo de se machucar, não querem ter seu espaço invadido… Então, começar qualquer tipo de relacionamento aqui é uma novela. Uma brasileira me perguntou esses tempos: os alemães namoram? Eu descobri que sim – apesar de ter visto poucos indícios em espaços públicos. A diferença básica é o tempo que se leva até namorar: é muito maior. Por outro lado, muitos namoros aqui duram mais, são mais estáveis. E logo viram casamento.

Prefeitura de Hamburgo. Eu (BIbiana Nilsson) na torre da Igreja de St. Michael.

Não sei quanto tempo ainda vou ficar por aqui, mas uma coisa é certa: eu quero ter mais tempo para entender os alemães e sua forma de se relacionar com o mundo e entre si. Acho que, assim como eles têm muito a aprender conosco brasileiros – que ser espontâneo é divertido e demonstrar um pouco o que se está sentindo não mata ninguém – também temos muito a aprender com eles. Como aprender a levar relacionamentos com mais calma, aproveitando cada passo rumo à aproximação – com se houvesse amanhã.

imagem: Bavarian Dolls, Foto: Cecilia Coria e Ines Gravilut