Update: Os jornais japoneses anunciam 70% de possibilidade de um segundo grande tremor nos próximos 3 dias. Supermercados e lojas de conveniência continuam desabastecidos e falta água, luz e gás em alguns bairros de Tóquio.

Dez para as três da tarde. Tóquio. | Imagem de <a href="https://www.instagram.com/shigues">Gabriel Shiguemoto</a> @blogbrasilcomz

Dez para as três da tarde. Tóquio. | Imagem de Gabriel Shiguemoto

 

O terremoto começou como um tremor qualquer: suavemente. Imperceptível a ponto de não notá-lo nos primeiros segundos mesmo quando indagado por outra pessoa. Em poucos segundos, porém, o tremor ganha intensidade e todos no escritório se levantam, pálidos, imóveis, enquanto o mundo ao redor se acaba.

Quando há terremoto é sempre assim, balança a ponto de assustar, mas logo perde força e desaparece. Dessa vez, não foi assim. O pico demorou para chegar e foi assustadoramente intenso. Os armários do escritório e os gaveteiros se abriram e as coisas que estavam dentro cairam no chão. Alguns monitores tombaram e era difícil manter-se em pé. O som ensurdecedor de coisas se soltando e batendo umas nas horas, em conjunto com movimentos abruptos vindos de todas as direções fez com que o pânico se instalasse facilmente. Muitos gritavam apavorados. Por incontáveis segundos, pensei que havia chegado a minha hora e que o prédio todo viria abaixo comigo e com meus companheiros de trabalho dentro.

O procedimento no caso de terremoto é primeiro abrir as portas de saída, e depois se abrigar embaixo de uma mesa. Abrimos as portas, mas quando vimos pelas janelas como balançavam os postes e a rodovia expressa (que é elevada por pilares como uma ponte), o desespero falou mais alto e todos correram para a saída de emergência. A escada de metal gritava com os chaqualhos e parecia que seria a primeira coisa a se desmantelar no prédio.

Muitos já estavam descendo a escada no momento que saí. A saída estava congestionada e as pessoas gritavam para que todos saíssem depressa dali. O medo estava na voz e na feição. Desci para a rua do jeito que estava no escritório: de camisa fina, segurando uma caneta. Teve gente que ainda estava segurando a caneca de café na mão. A pressa foi tamanha, que as não houve tempo nem para se pegar um agasalho (já que estamos no final do inverno e a temperatura é baixa).

Os postes balançavam, os fios balançavam, os prédios balançavam! Mesmo no solo, com os pés no asfalto, era possível sentir balançar. Como se estivéssemos todos numa pequena barca em alto mar, indo e vindo em movimentos bruscos.

Eu tive sorte pois trabalho no terceiro andar. Alguns tiveram que aguentar o tremor até o final, se abrigando em baixo das mesas enquanto tudo vinha a baixo. Muitas mulheres entraram em estado de choque depois disso.

Todo prédio tem uma área de evacuação no caso de emergências, geralmente um parque próximo. Subi ainda uma vez para pegar minhas coisas e logo me juntei ao pessoal no ponto de encontro. Lá um senhor japonês de macacão amarelo e capacete vermelho dizia a todos para se agruparem nas áreas abertas do parque e se afastarem de estátuas e pilares. Haviam já muitas outras pessoas ali, todas muito assustadas.

Uma vez que se está seguros, a coisa mais natural a se fazer é tentar falar com amigos e familiares. Principalmente pessoas que tem filhos ou pais idosos. Porém as linhas telefônicas entraram em pane e era impossível mandar um e-mail sequer pelo celular. Muitos pais quiseram voltar para encontrar com seus filhos nas escolas, mas não haviam taxis disponíveis e os trens haviam parado. O trânsito era caótico. Quem pode, foi de bicicleta. Já a maioria resolveu ir a pé mesmo. Ambulâncias gritavam por todos os lados e os pontos de ônibus pareciam formigueiros de tão lotados.

Alguns colegas que moram na redondeza abrigaram outros que não tinham como voltar. Por morar relativamente perto da empresa, fiz o mesmo e consegui voltar para a casa caminhando. Nas ruas, muldidões andavam incasavelmente tentando achar abrigo do vento frio e da noite. Isso continuou até hoje de manhã, quando os trens voltaram a funcionar.

Ao todo, foram mais de 100 tremores desde o “big one”, às 14:50h de ontem. Durante a noite toda o meu apartamento balançou. Por precaução, dormimos vestidos e deixamos malas e agasalhos no corredor, caso precisássemos sair correndo novamente. Resultado: insônia.

Agora as pessoas se preparam para um segundo grande terremoto. Assustadas com a catástofre de ontem, todos estão fazendo estoque de mantimentos (recomenda-se comida e água para 3 dias), esvaziando os supermercados e lojas de conveniência.

Supermercado em Tóquio. | Imagem de <a href="https://www.instagram.com/shigues">Gabriel Shiguemoto</a> @blogbrasilcomz

Supermercado em Tóquio. | Imagem de Gabriel Shiguemoto

Há também muita boataria e informação desencontrada. Parece que Tóquio sofrerá cortes de luz por conta da explosão de uma usina nuclear em Fukushima (280km da capital). Estou tentando acompanhar os canais oficiais, em japonês.

Ainda que, quando comparados com Miyagui e Sendai, nós da região de Kanto tivemos muita sorte.

Mata kondo!