Cínthia Nascimento Coelho-Fize
Colaboração
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As ventimentas das mulheres muçumanas que vivem no ocidente há algum tempo viraram polêmica. França, Espanha e outros países estão criando leis para proibir o uso da burca em locais públicos. Na Espanha, a proibição do uso do véu em alguns colégios criou muita polêmica ano passado. Na França, desde o último abril, as mulheres não podem mais usar a burca em público. Diferente do véu, a burca cobre todo o corpo e rosto, deixando apenas os olhos a vista. Alguns em contra, muitos a favor… a polêmica é grande a cada um tem uma opinião diferente. Hoje a Cínthia, do blog Marsu en France, que vive na França há sete meses, nos conta um pouco da sua visão sobre os fatos.

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Burqas e niqab: o debate encoberto pelo véu

Desde o dia 11 de abril, as mulheres muçulmanas estão proibidas de usar a burqa ou o niqab nos espaços públicos franceses. A proibição se apoia em inúmeras,  infinitas, incessantes e incandescentes alegações, mas as mais recorrentes delas são: o respeito ao principio do Estado Laico, a preservação da liberdade e do  direito da mulher e, claro, a segurança do pais que estaria em risco graças a terroristas que poderiam se utilizar tanto da burqa como do nijab para garantirem seus anonimatos para, posteriormente, se explodirem por ai.

Não é a primeira vez que me vejo frente à este tema. Lembro de uma conversa calorosa que tive com Pierre, logo que chegamos à Aix, sobre a regulamentação do uso dos trajes mulçumanos. Isso foi ha uns seis meses atrás, quando a lei ainda não tinha saído às ruas. Naquela ocasião, lembro ter defendido com veemência o direito das mulheres usarem o que elas bem entendessem. Os meses se passaram, o acesso à informação aumentou, a lei foi plenamente discutida e entrou em vigor. Minha opinião, porem, não mudou: continuo não achando justo tirar de uma mulher o seu direito de usar as roupas da sua religião, de portarem a sua cultura, sobretudo, os seus valores. Entendo a boa intenção da lei, mas ela é deficiente mesmo assim.

A lei, coitada da lei, bem que tentou ser boa. Passou de raspão. Quando Nicolas Sarkozy afirmou que tanto a burqa como o niqab não são símbolos religiosos, mas sim a forma mais pura de submissão feminina, ficou evidente naquele momento que o objetivo desta lei era o de libertar a mulher oprimida pelos panos. Mais ainda: tirar dos homens a autoridade a eles concedida pela religião de obrigarem às suas esposas a usarem a burqa ou o niqab.

Foi por isso que ficou decidido que, a partir de 11 de abril, a mulher que fosse vista usando burqa ou niqab, seja por decisão pessoal, seja por ordem do
marido, uma multa de 150€ devera ser paga, ocorrendo ainda o risco da perda da permanência na França. Se o problema fosse somente esse, limitar a autoridade do homem sobre a sua esposa, nem polêmica a lei seria e eu não teria nada que estar de desacordo com ela. Mas acho que o Sarkozy se deu mal.

E o presidente se deu mal porque usar a burqa ou o niqab é para muitas mulçumanas um ato de profundo respeito pela religião que elas professam, algo
que vai bem além da submissão. Quando o Estado tira o direito de cada uma dessas mulheres usarem os seus véus, ai sim elas se tornam, enfim, submissas, mas da lei. Para nós, trata-se de um amontoado de panos. Para elas, não.

E por falar em submissão, o jornal Le Monde publicou na mesma semana da proibição da burqa e do niqab um estudo feito pelo instituto Open Society que entrevistou 32 mulheres que usavam o véu integral. Destas, 29 eram francesas. Do total das mulheres consultadas, 12 optaram pelo niqaj justamente apos a eclosão em torno do tema, em 2009. Para essas mulheres, o uso voluntário dos véus é uma “jornada espiritual”.

Percebeu o embrolio no paragrafo anterior? A palavra “voluntário” nunca tinha aparecido em tudo o que li sobre esse assunto. Ai a mente volta no
discurso do Sarkozy que fala de “submissão”. Alguém, então, já cogitou a possibilidade dessas mulheres terem optado em cobrir seus corpos justamente por acreditarem que este ato representaria para elas a prova de seus desprendimentos materiais? Que elas seriam orgulhosas de vestirem seus véus? Que elas optaram por viver assim? Que elas têm o direito de decidir o que é melhor para elas, e não o Estado?

Outra informação bem importante: a França é o país europeu que tem o maior número de mulçumanos: alguma coisa perto de 5 milhões. Bem distante desse número, estão as cifras referentes à população feminina que usa a burqa e o niqab: 2 mil. Tanto barulho por causa de uma minoria?

Por fim, o terceiro e último forte argumento da lei: a segurança nacional. Neste quesito, vou ser bem sucinta. Desde quando terrorista para se explodir e explodir os outros precisa esconder o rosto? Se eu andar na rua de óculos escuros, chapéu e cachecol, deverei também pagar multa? Motoboys proibidos então de usar capacete? Máscaras proibidas no carnaval de Annecy? Não, o argumento da tal segurança nacional não me convence.

Ao que tudo indica, o buraco é mais embaixo e é politico. Eu tenho a impressão, assim como muitos que eu conheço aqui, que esta lei tem uma mensagem escondida nas entrelinhas: diminuir a influência dos países mulçumanos no território francês. Garantir a soberania da França, da sua cultura e dos seus valores. Algo haver com a tal “Identidade Francesa”. No país que mais recebe imigrantes mulçumanos na França, essa lei nem de longe parece ser assim tão boazinha.

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