Skip to content

A pobreza em Berlin

21/05/2011

Eve
Berlin, Alemanha

.

Desde que eu comecei a estagiar não vou mais à ONG aonde fazia trabalho voluntário. A verdade é que estive lá um dia antes do estágio começar e só encontrei uma pessoa. Não tive tempo de voltar, falar com todo mundo, me despedir e agradecer. Falta fazer isso.

Eu vou para o estágio de metrô. Faço uma troca pra chegar lá. Por pura preguiça e falta de preparo físico para ir de bicicleta (tem gente que vai me bater quando ler isso… rsrs). Mentir pra que, né mesmo? =P Eu já falei que sou fracote.

E essas minhas idas e vindas constantes no mundo “subterrâneo” me faz ver cenas cotidianas. Graças ao trabalho voluntário, tenho outra visão. Sim, senhoras e senhores. Na ONG tive contato com uma parcela da sociedade berlinense que eu não teria se tivesse ficado em casa. Uma parcela que, verdade seja dita, é discriminada aqui. Estou falando dos pobres. Das pessoas que recebem ajuda social.

Como brasileira, que conhece a miséria do país (aquela que está em toda esquina e em cada semáforo não nos permitindo esquecê-la, além de ser muito mais crítica), achava ridículo ouvir alemão falar que aqui tem pobreza. Aqui tem, a diferença é que eles não passam fome. Vivem à margem da sociedade. Não podem comprar roupas de marca ou da moda, não vão a restaurantes, não fazem viagens, não sabem o que é o superfluo. Para um brasileiro, isso soa uma bobagem. Soava pra mim.

Porém, o principal eles não têm: auto-estima.

Quem é pobre na Alemanha vive de ajuda social, não tem trabalho e é mal visto pela sociedade às vezes, até por não viver nela (e muitos fazem a sua própria. Punks, oi?)

Eu não estou justificando a vagabundagem. Isso tem em todo lugar, inclusive na miséria. Não dá pra generelizar tanto. 100% das pessoas que recebem Hartz IV não são “vagabundos profissionais”.

Só digo que vi pessoas que em outra época tinham trabalho, mas, por algum motivo (queda do muro, por exemplo), perderam seus postos de trabalho e, em alguns casos, nem suas profissões existem mais. São incapazes de se realocar por um motivo ou por outro (alcolismo, doenças mentais, dificuldades de aprendizagem etc.). São socialmente inúteis. Auto-estima pra quê?

Pra mim, o trabalho voluntário foi uma das melhores coisas que fiz pra ajudar na minha integraçao aqui. Eu consigo entender os dois lados um pouco. O das pessoas que alimentam esse sistema com o seu trabalho. E o das pessoas que são alimentadas por ele.

Tudo isso também depois que eu vi o presidente da ONG chegar um dia embaixo de alguns centímetros de neve com um sapato furado. Ele não andaria congelando o pé se pudesse comprar outro, né? Vagabundo ele não é, tão pouco alcólatra. Mas, recebe ajuda social.

9 Comentários leave one →
  1. 22/05/2011 4:11

    Chocada com esse episódio do sapato furado, Eve.

    Que barra, hein? Triste demais…

    Espero, do fundo do coração que essas pessoas melhorem de vida, porque viver na pobreza em um país que neva, frio pra caramba, é tão barra quanto viver num sertão miserável aqui no Brasil…

    Podem não passar fome, mas com a auto-estima baixa, pra começar a passar é um passo.

    Fiquei curiosa, se me permite saber: como vocês ajudam nessa ONG? Quais ações que vocês praticam?????

    Sua atitude em participar de uma ONG é muito nobre. Mesmo começando do zero para se estabelecer, lembrou de ajudar pessoas em situações mais delicadas que a tua! Parabéns!

    • 22/05/2011 9:06

      Oi Kiara,
      o trabalho voluntário foi início da minha tentativa de voltar ao mercado de trabalho. Como eu já fazia no Brasil, fazer aqui foi uma oportunidade de melhorar o alemão, conhecer pessoas e entender um pouco como as coisas funcionam por aqui. 😉
      A ONG é um centro de informação para drogados e alcólatras. Eles recebem orientação, participam de grupos, como o AA e são encaminhados para hospitais quando o caso é muito grave. Contudo, é uma ONG pequena, de bairro. Mas, valeu! Fiquei lá 3 meses.
      Obrigada!

  2. 23/05/2011 7:41

    que texto bacana, Eve
    achei importante voce dizer que entende que algumas pessoas nao consigam se (re)inserir na sociedade / mercade do trabalho. eh uma visao respeitosa e real da sua parte. eh facil atirar pedras e dizer que alguns optam por viver de ajuda do governo, mas uma parcela muito significativa dessa populacao vem de problemas serios e pessoais, problemas muito dificeis de serem contornados.
    voce nao ta em forma pra ir de bicicleta pro trabalho 🙂 mas sua capacidade de sintese ta em excelente forma. anote ai.
    parabens pelo post.
    abraco,
    Kalina

  3. Mystvan permalink
    11/06/2011 21:18

    Hmmm… Você esqueceu de citar que estes pobres devem ser provavelmente(?) imigrantes (ilegais) oriundos da Turquia, Vietnam, etc. Pessoas que são mal-vistas pelos germânicos.

    Pelo Gini Coefficient, aparentemente a Alemanha não apresenta tantas disparidades sociais, assim como a Europa Ocidental de maneira geral. Só os EUA, Japão, Nova Zelândia e Portugal apresentam maior desigualdade social, segundo esta tabela do Wikipedia:

    • eveberlin permalink
      12/06/2011 7:44

      Imigrantes ilegais não recebem ajuda social. Eu falei, principalmente, de pessoas que recebem ajuda do governo, que já trabalharam um dia. E também não falei de desigualdade social, falei do que significa a pobreza alemã (em relação ao que nós, brasileiros, entendemos de pobreza). Apesar da desigualdade social ser pequena, pessoas que recebem ajuda social (que não são maioria estrangeiros e sim alemã) e/ou recebem abaixo do que é “mínimo” por aqui, são consideradas pobres. Aliás, qualquer pessoa que precise ter a renda complementada pelo governo é considerada “pobre”.
      Quem é “mal-visto” na Alemanha é o estrangeiro que está aqui há anos e não fala alemão e que não participa do “sistema”, independente de ser turco, árabe ou europeu.

  4. Helena permalink
    10/08/2011 14:10

    È isso ai Eve, gostei da sua resposta acima, ta certissima,Nao é só no brasil que as pssoas vivem com muita dificuldades,bj

  5. 25/09/2011 18:12

    Eve Adorei o seu post acho de muita grandez fazer um trabalho social e tirar esse véu que alguns pessoas parecem colocar em nações desenvolvidas como a Alemanha e mostrar que mesmo em grandes centro como tal, encontramos diversos problemas e que os envolvidos precisam sim de ajuda.

    Gostaria muito de conhecer essa ONG que vc trabalhou, gostaria de dedicar um dia da minha semana para ajudar em alguma coisa.Poderia me passar algum contato?

    Beijão

    Marcela

    • 27/09/2011 21:09

      Olá Marcela,
      Vc mora em Berlim?
      Pra vc fazer trabalho voluntário, indico ir a uma Freiwilige Agentur do seu bairro, aonde sao concentradas as vagas disponíveis. Aí, de acordo o seu perfil, eles irão indicar uma vaga pra vc.
      Uma rápida pesquisa no google e vc encontra.

      Abraços!

  6. Claudia permalink
    30/09/2012 16:47

    Eve,
    muito interessante seu relato e vc me passou uma excelente e maravilhosa idéia de procurar Freiwilige Agentur, pois sempre tive vontade de ajudar alguem sem ver a quem e nao sabia como fazer aqui na Alemanha.
    Bem! como vc mesmo disse, isso é ótimo para melhorar cada vez mais a língua alema e talvez uma chance maior para entrar novamente no mercado de trabalho.
    Por favor, sempre nos passe informacoes das quais poderemos usufruí-las.
    Abracos,
    Cláudia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: