Eve
Berlin, Alemanha

.

Desde que eu comecei a estagiar não vou mais à ONG aonde fazia trabalho voluntário. A verdade é que estive lá um dia antes do estágio começar e só encontrei uma pessoa. Não tive tempo de voltar, falar com todo mundo, me despedir e agradecer. Falta fazer isso.

Eu vou para o estágio de metrô. Faço uma troca pra chegar lá. Por pura preguiça e falta de preparo físico para ir de bicicleta (tem gente que vai me bater quando ler isso… rsrs). Mentir pra que, né mesmo? =P Eu já falei que sou fracote.

E essas minhas idas e vindas constantes no mundo “subterrâneo” me faz ver cenas cotidianas. Graças ao trabalho voluntário, tenho outra visão. Sim, senhoras e senhores. Na ONG tive contato com uma parcela da sociedade berlinense que eu não teria se tivesse ficado em casa. Uma parcela que, verdade seja dita, é discriminada aqui. Estou falando dos pobres. Das pessoas que recebem ajuda social.

Como brasileira, que conhece a miséria do país (aquela que está em toda esquina e em cada semáforo não nos permitindo esquecê-la, além de ser muito mais crítica), achava ridículo ouvir alemão falar que aqui tem pobreza. Aqui tem, a diferença é que eles não passam fome. Vivem à margem da sociedade. Não podem comprar roupas de marca ou da moda, não vão a restaurantes, não fazem viagens, não sabem o que é o superfluo. Para um brasileiro, isso soa uma bobagem. Soava pra mim.

Porém, o principal eles não têm: auto-estima.

Quem é pobre na Alemanha vive de ajuda social, não tem trabalho e é mal visto pela sociedade às vezes, até por não viver nela (e muitos fazem a sua própria. Punks, oi?)

Eu não estou justificando a vagabundagem. Isso tem em todo lugar, inclusive na miséria. Não dá pra generelizar tanto. 100% das pessoas que recebem Hartz IV não são “vagabundos profissionais”.

Só digo que vi pessoas que em outra época tinham trabalho, mas, por algum motivo (queda do muro, por exemplo), perderam seus postos de trabalho e, em alguns casos, nem suas profissões existem mais. São incapazes de se realocar por um motivo ou por outro (alcolismo, doenças mentais, dificuldades de aprendizagem etc.). São socialmente inúteis. Auto-estima pra quê?

Pra mim, o trabalho voluntário foi uma das melhores coisas que fiz pra ajudar na minha integraçao aqui. Eu consigo entender os dois lados um pouco. O das pessoas que alimentam esse sistema com o seu trabalho. E o das pessoas que são alimentadas por ele.

Tudo isso também depois que eu vi o presidente da ONG chegar um dia embaixo de alguns centímetros de neve com um sapato furado. Ele não andaria congelando o pé se pudesse comprar outro, né? Vagabundo ele não é, tão pouco alcólatra. Mas, recebe ajuda social.