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Muito “gezellig”: espaço público com jeitão de privado

26/09/2011

 
Ana Fonseca – Amsterdam, Holanda
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Essa semana quando fui apanhar as crianças na escola percebi que havia muitas mães e pais de alunos reorganizando a decoração da escola para o outono. Umas repondo vasinhos de plantas floridas nos cachepots, outra encapando uns livros, um pai esticando umas bandeirinhas no salão de ginástica e uma avó colando stickers na porta da cozinha e outra avozinha distribuindo umas mini abóboras pela biblioteca. Parecia que queriam transformar a escola numa sala de estar de uma adolescente.  Ou melhor: que não se parecesse com escola impessoal e eficiente e de cores monótonas em branco, azul e bege.

Gente, isso é tão mas tãããão típico holandês, querer transformar os espaços públicos em espaços “acolhedores”, “quentes”, “sociáveis” e “alegres”. Tem até uma palavra para definir um ambiente/experiência/sensação assim: Gezellig (uma mistura de warm & sociable). Em inglês, poderia ser mais ou menos traduzido como “cozy”.

blog-gezellig

Eu me lembro que quando meu filho teve que ir ao hospital para uma pequena cirurgia, o quarto onde ele ficou para dormir tinha adesivos do Pateta e Mickey nos janelões de vidro, uma caixa de brinquedos, almofadas coloridas, móbiles.  Onde eu tive parto no hospital tinha vasos grandes de palmeirinhas, sofá, cestinha com revistas, mesinha com carta de baralho. Sacumé… o parto pode levar horas e o maridão vai ficar jogando “paciência”. Se mais alguém da familía aparecer então pra um joguinho enquanto a mulher tá lá se desmilinguindo, aí então é que o clima fica mais gezellig ainda.

(Aliás, algo que não falta nunca dentro dos hospitais públicos é uma loja – sim uma loja –  perto da recepção. Vendendo flores frescas, plantas, balões de hélio, cartões, brinquedos, revistinhas, stickers, canetinhas… É uma boa ideia: você vai visitar um parente ou amigo muito doente, está meio sem cabeça (ou sem tempo)  para pensar num agrado e vê a loja e se lembra de comprar um mimo para o doente. Legal, né? Gezellig!)

E carro com um monte de bichinhos de pelúcia pendurados? Acontece direto. Fica mais gezellig pras crianças (mas acho que isso acontece muito mais ainda no Brasil, tem taxista no Rio que pelamor… Coloca bíblia num saco atrás do banco e baianinha e figa e santinho e fitinha e o diabo a quatro pendurado no retrovisor… que pelamor de Deuso!).

O caminho contrário também acontece: o privado se exibindo ao público. Um exemplo: Há pessoas que não fecham nunca suas cortinas e você passa pelas ruas e vê os moradores lá dentro preparando um rango, comendo à mesa, celebrando uma festinha, na maior gezelligheid… Ou então na academia de ginástica, as mulheres não se importam se a porta de entrada do vestiário fica abrindo e fechando quando estão trocando a roupa. Ficam bem soltas e no maior papo. Quem está na recepção da academia tem grande chances de cada vez que alguém entra ou sai do vestiário ver uma bundinha aqui, um sutiã ali, um coxão celulítico acolá… Eu como fui criada na vergonha e no atraso, fico me encolhendo toda no canto na hora de trocar de roupa.

Agora, um lance legal desse público se confundir com o privado (ou o privado com o público?) é as casas não terem muro ou portão de entrada. E muita gente sair decorando os canteiros públicos com plantas e sementes compradas com dinheiro do próprio bolso. Oficialmente, poder não pode. A prefeitura não permite. Mas os policiais fecham um olhinho pra quem é pego em flagrante remoendo a terrinha. A rua fica mais gezellig.

______________

Ana Fonseca adora Amsterdã. Curtam nossa página no FB e nossa conta no Twitter para atualizações da vida no exterior. Quer ver fotos lindas de Amsterdã e outras cidades pelo mundo? Sigam nosso perfil no Instagram. Blog Brasil com Z, um blog feito por expatriados brasileiros, vivendo nos quatro cantos do mundo! 

9 Comentários leave one →
  1. 26/09/2011 21:01

    A idéia de fazer um espaço mais acolhedor é otima.A mentalidade è 10 e deveria ser copiada.

    Quanto aos hospitais com bichinhos etc é uma idéia mundial.Nos EUA existem lugares assim,no Brasil tambem(depende o hospital),etc e etc.Sou enfermeiro e ja trabalhei com equipes que usam esse metodo pra quebrar um pouco o tanto de clima negativo no hospital.Ah,nao precisa ser rico pra fazer isso e o sistema de saude/chefe local local deve permitir”brincar”com o paciente (riscos de processos e de confundir a relaçao com o paciente).Tem que ter tato,sensibilidade e bom senso.

    O resto sinceramente nada demais e talvez sejam os pais do Big Brother em uma sociedade que acha “tudo normal” vivendo na utopia do “tudo é permitido”..Mostrar intimidade pra desconhecidos?Desde quando isso é ser atrasado ou envergonhado?Se for assim as funkeiras cariocas e os reallity shows so possuem pessoas “evoluidas”……rs.

    Hum, o pessoal ai dando um jeitinho com as leis tambem,hein?

  2. 27/09/2011 10:29

    Acho genial esta proposta de fazer os espaços menos impessoais. Já tinha reparado nisso quando fui à Amsterdam, a história dos janelões de vidro e todo mundo ai, na boa, deixando a vista toda a sua casa. São costumes diferentes, sem tantos pudores e vergonhas como fomos criados no Brasil. Não acho que isso seja “atraso”, é simplesmente um reflexo da nossa cultura cada vez mais individualista, machista (e hipócrita, claro), que faz a gente ter pudor e relacionar, principalmente o corpo da mulher, diretamente com sexo. Com relação ao espaço público, isso sim é sinônimo de civilização. Muitas vezes não consideramos o espaço público como nosso, ele é terra de ninguém e por isso, ninguém precisa cuidar… isso sim é atraso. Praças, jardins, devem ser de todas e todas devemos cuidá-los tal como cuidamos nossas coisas.

  3. 27/09/2011 12:46

    Eu não gosto de quarto de hospital muito emperequetado. Sei lá… plantas, revistas e objetos acumulam pó, insetos, bactérias. Minha sogra foi operada na cabeça e o quarto dela era super limpo, quase estéril – apenas cama e mesinha de cabeceira. Mas há crianças pobres em hospitais que merecem um quartinho alegre sim !

    Bom, eu não acho legal ver a própria dona da academia retirar a roupa toda no vestiário e se lixar por estar diante da porta de entrada. Ela (e todas) deveriam se colocar mais no meio ou no fundo do espaço e evitar posicionar-se perto da porta. Os cavalheiros também. Questão de classe, preservação (minha opinião, que só serve prá mim.) Até senhoras doentes, de idade, que fazem fisioterapia ficam de fio dental na frente de mim e outras alunas no vestiário. Acham que é gezellig dividir a fragilidade e nudez. Eu disfarço, olho pra outro lado, emudeço e quebro o ambiente “gezellig” da coisa…

    Uma árvore na calçada diante da sua casa não pode ser podada, só pela prefeitura. Mas algumas pessoas vão lá e tascam margaridas, lavanda… Aí a prefeitura não tira.

    Há partes de Amsterdam que são podres, sujam e depredadas porque passam por ali muitos turistas doidões, “lokos”. Mas no geral os holandeses tratam os espaços públicos com bastante carinho e se possível querem transformá-los em algo “gezellig”.

  4. 28/09/2011 13:20

    Cuidar de espaços publicos é o minimo da educaçao e de um povo em uma sociedade civil.Vejamos o Brasil.Em algumas cidades pequenas isso existe,outras nao.Nas grande capitais dependendo o bairro existe, outros nao.Ao meu ver se voce começar a fazer,criar um grupo e o governo começar a fazer campanhas educativas isso vira realidade.Aqui na Italia vale o mesmo exemplo:umas cidades cuidam, outras nao(olhem como exemplo o lixo de Napoles).De qualquer modo Brasil e Italia estao muito longe nesse quesito ao meu ver.

    Falando em hospitais:o ambiente impessoal e pratico é feito pra nao gerar acumulo de bacterias e afins,além de que se voce esta la é pra se tratar e nao fazer curso de design.Ninguem pensa nisso na hora do aperto.Com tantas pessoas indo la nao sao todas que vao aprovar mil e uma cores no lugar. O minimo é legal,uma coisa ou outra mas nao pecar pelo excesso.Menos é mais e design nao salva vidas. Equipamentos,médicos e uma boa equipe sim.Melhor investir nisso.

    Quanto aos janeloes e BBBs.Bem cultura é cultura.Respeito.Mas por a culpa no mundo porque a pessoa conscientemente mostra mais do que deve pra qualquer um?Engraçado que hoje na sociedade moderna com valores invertidos o exibicionismo é “cultura,quebrar regras,etc”.Desde quando mostrar os genitais ou afins pra qualquer um é ter um QI altissimo e ser evoluido?Nao é a toa que no meu RJ,funk virou patrimonio cultural,pode?Ah, como se so o homem brasileiro olhasse pra nadegas e seios.No RJ vi muito “evoluido europeu”se transformar em selvagem ao ver qualquer mulher brasileira com um corpo bonito.Sorry, mas qualquer homem olha pra uma mulher bonita e com um belo corpo.Isso vale para o mundo todo.

    Vejamos um exemplo, os estrangeiros em geral olham a mulher brasileira como objeto(sexo,enfim aquela imagem que sabemos e meu ultimo post fala da visao delas em Portugal.Chocante!) mas muitas ainda assim querem mostrar que sao mais que um pedaço de carne(como os homens a enxergam) mostrando o corpo em vez de a capacidade intelectual .Dao um tiro no proprio pé por “serem do contra” com o maximo de incoerencia e fazendo o que a massa quer.O machista mais fanatico agradeceria.

    Outra,desde quando criticar a banalizaçao da sexualidade e do nudismo é ser hipocrita?No mundo moderno entao deveriamos nos tornar animais,dormindo com qualquer um so por desejo?Ou entao andarmos pelados pois nascemos assim?Quem sabe abolir as fronteiras do planeta pois “somos todos iguais”?O bom senso,um pouco de respeito e de nocao de certo e errado hoje foram trocados pela utopia essa sim hipocrita de um mundo todo igual, com fronteiras,pessoas e culturas diferentes.Antagonico.

    Nao é a toa que cada vez mais crianças sao sexualizadas cedissimo,suicidios aumentam,viciados dao dinheiro a traficantes,etc.O mundo esta acabando por falta de auto-critica e bom senso.

    • 28/09/2011 13:50

      Druida, você leva tudo muita ferro e fogo e já está cansando a todos os colunistas por aqui. Você insiste, insiste, insiste na sua opinião com sendo a melhor numa demonstração de ego frágil. A discussão sobre o tema “público e privado” me parece entre linhas mais um ataque seu à opinião da Glenda. Olha, aqui no Brasil com Z” ADORAMOS opiniões diversas – mas não gostamos de negativismo nem achamos que o mundo esteja necessariamente acabando.

    • 28/09/2011 15:32

      “”O mundo esta acabando por falta de auto-critica”. Tai uma coisa que concordo.

  5. RenatoAlves permalink
    28/09/2011 15:50

    Como estudante de Design (e não somente decoração) quero deixar meu comentário. Meu curso é de 4 anos e muitas vezes temos que fazer pesquisas profundas a respeito do design. A ordem é: Primeiro segurança, depois funcionalidade e por último, conforto e estética. Em uma das matérias mais difíceis que já tive, minha professora “doutora” nos fez examinar pesquisas feitas nos EUA e Europa onde é provado que, o design (incluindo todos os aspectos que mencinei), principalmente a cor tem efeito psicológico e contruibui muito para a recuperação do paciente. Não é só uma questão de ficar “bonitinho”. Existe estudo sério feito por trás disso. Inclusive asilos, casa de repouso e recuperação aqui nos EUA tem acompanhado essa tendência e são os mais procurados pelos pacientes. Não é à toa que muita gente tem trauma do design “Hospital Geral”, “hospital das Clínicas” e “Santa Casa”, lugares que dá medo, só de entrar…

    • 28/09/2011 16:11

      Falou e disse, Renato. Como arquiteta concordo plenamente com você. Um espaço para ser prático e asséptico não precisa necessariamente ser impessoal, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Um ambiente agradável ao olhos pode até não salvar uma vida na emergência, mas com certeza contribuirá para a recuperação do paciente.

  6. 28/09/2011 20:37

    Anita, eu adoro esse carinho com o ambiente público. Aqui nos EUA consigo ver alguns lugares assim e dá aquela sensação de que você está em casa/num lugar acolherdor. Mas como você, sinto um desconforto com algumas atitudes estranhas (?). Moro numa cidade bem religiosa, as pessoas vão para igreja toda semana e têm a mentalidade de missionários (tentam converter o outro), mas quando estão nos clubs, de noite, afff! É um esfrega esfrega tão grande que eu morro de vergonha! Juro, a cena é bem parecida com as do funk “barra pesada”.
    Ri com a sua vergonha no vestiário, eu sou exatamente assim, mas as americanas, nem tchum! Ficam andando peladas, falando no cel, secando o cabelo (mas a porta fica fechada).

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