Ana Fonseca – Amsterdam, Holanda
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Essa semana quando fui apanhar as crianças na escola percebi que havia muitas mães e pais de alunos reorganizando a decoração da escola para o outono. Umas repondo vasinhos de plantas floridas nos cachepots, outra encapando uns livros, um pai esticando umas bandeirinhas no salão de ginástica e uma avó colando stickers na porta da cozinha e outra avozinha distribuindo umas mini abóboras pela biblioteca. Parecia que queriam transformar a escola numa sala de estar de uma adolescente.  Ou melhor: que não se parecesse com escola impessoal e eficiente e de cores monótonas em branco, azul e bege.

Gente, isso é tão mas tãããão típico holandês, querer transformar os espaços públicos em espaços “acolhedores”, “quentes”, “sociáveis” e “alegres”. Tem até uma palavra para definir um ambiente/experiência/sensação assim: Gezellig (uma mistura de warm & sociable). Em inglês, poderia ser mais ou menos traduzido como “cozy”.

blog-gezellig

Eu me lembro que quando meu filho teve que ir ao hospital para uma pequena cirurgia, o quarto onde ele ficou para dormir tinha adesivos do Pateta e Mickey nos janelões de vidro, uma caixa de brinquedos, almofadas coloridas, móbiles.  Onde eu tive parto no hospital tinha vasos grandes de palmeirinhas, sofá, cestinha com revistas, mesinha com carta de baralho. Sacumé… o parto pode levar horas e o maridão vai ficar jogando “paciência”. Se mais alguém da familía aparecer então pra um joguinho enquanto a mulher tá lá se desmilinguindo, aí então é que o clima fica mais gezellig ainda.

(Aliás, algo que não falta nunca dentro dos hospitais públicos é uma loja – sim uma loja –  perto da recepção. Vendendo flores frescas, plantas, balões de hélio, cartões, brinquedos, revistinhas, stickers, canetinhas… É uma boa ideia: você vai visitar um parente ou amigo muito doente, está meio sem cabeça (ou sem tempo)  para pensar num agrado e vê a loja e se lembra de comprar um mimo para o doente. Legal, né? Gezellig!)

E carro com um monte de bichinhos de pelúcia pendurados? Acontece direto. Fica mais gezellig pras crianças (mas acho que isso acontece muito mais ainda no Brasil, tem taxista no Rio que pelamor… Coloca bíblia num saco atrás do banco e baianinha e figa e santinho e fitinha e o diabo a quatro pendurado no retrovisor… que pelamor de Deuso!).

O caminho contrário também acontece: o privado se exibindo ao público. Um exemplo: Há pessoas que não fecham nunca suas cortinas e você passa pelas ruas e vê os moradores lá dentro preparando um rango, comendo à mesa, celebrando uma festinha, na maior gezelligheid… Ou então na academia de ginástica, as mulheres não se importam se a porta de entrada do vestiário fica abrindo e fechando quando estão trocando a roupa. Ficam bem soltas e no maior papo. Quem está na recepção da academia tem grande chances de cada vez que alguém entra ou sai do vestiário ver uma bundinha aqui, um sutiã ali, um coxão celulítico acolá… Eu como fui criada na vergonha e no atraso, fico me encolhendo toda no canto na hora de trocar de roupa.

Agora, um lance legal desse público se confundir com o privado (ou o privado com o público?) é as casas não terem muro ou portão de entrada. E muita gente sair decorando os canteiros públicos com plantas e sementes compradas com dinheiro do próprio bolso. Oficialmente, poder não pode. A prefeitura não permite. Mas os policiais fecham um olhinho pra quem é pego em flagrante remoendo a terrinha. A rua fica mais gezellig.

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