Edu Justo
A Coruña, Espanha

 

Quando cheguei à Espanha, uma das minhas primeiras surpresas foi quando conheci  o valor dos salários por aqui. Muita gente no Brasil pensa que na Europa as pessoas vivem com excelentes salários, e por isso chamamos este continente de “primeiro mundo”. Ledo engano. Pelo menos na Espanha, os salários são muito inferiores que no Brasil. POR UM LADO. Por outro, os salários são bem superiores que no Brasil. Confuso?

Me explicarei. No Brasil aprendemos desde criança que se queremos ser “alguém na vida”, temos que estudar. E isso é uma crua e dura realidade. Quem não estuda no Brasil está “condenado” a viver de empregos que mal pagam as contas. É o caso de milhões de porteiros, empregadas domésticas, pedreiros e outros profissionais que são verdadeiros guerreiros, enfrentam jornadas de longas horas de trabalho, fora o tempo perdido no transporte de ida e volta para casa, por um salario que na grande maioria dos casos não chega a 800 Reais.

Quem estudou MUITO e teve sorte de conseguir um bom emprego ou de passar em um bom concurso,  foi recompensado com um melhor nível de vida. Alguns salários no setor público podem ultrapassar facilmente a faixa dos 8.000 Reais, um valor que também é pago a engenheiros, economistas e outros profissionais de grandes empresas do setor privado. Sabemos que esta galera corresponde a uma porcentagem muito pequena no Brasil, mas não deixa de ser uma das facetas do mercado de trabalho brasileiro.

Que conclusão podemos tirar? Que o mercado profissional brasileiro penaliza duramente quem não estuda e recompensa aqueles que se esforçaram se matando anos e anos na escola e na faculdade (bom, aqueles que também tiveram sorte).

Aqui na Espanha, a realidade é outra. E acredito que isso se repete em toda a Europa. No que se refere a salários, o mercado não penaliza ninguém. Um pedreiro e um médico podem ter o mesmo salario. Isso é fato. No meu prédio tenho vizinhos que são pedreiros, eletricistas, engenheiros e advogados. O meu vizinho pedreiro tem um carro 0 km na garagem, e meu vizinho advogado tem um Ford Escort já bem usadinho. Injustiça? Desigualdade? Tem gente que acha injusto um pedreiro ganhar mais que um advogado ou um engenheiro, afinal estes 2 profissionais tiveram que estudar muito.

Mas será que o estudo é o único critério para definir um bom salário?

Já pensei muito no assunto, até porque eu também já me senti injustiçado. Sou formado em administração de empresas por uma das melhores faculdades do Rio de Janeiro. Tenho pós-graduação e um MBA e aqui na Espanha o meu salario se equipara a de um profissional que não tem nem o 2º grau completo. Só que começo a perceber que o importante é ser um bom profissional. Da mesma forma que você precisa de um advogado, de um dentista ou de um arquiteto, você também precisa de um pedreiro, de um encanador ou de um pintor. Eu já contratei os trabalhos de pedreiros, carpinteiros e pintores aqui na Espanha e o trabalho que eles fizeram foi impecável, limpo e rápido. Percebe-se que foi o trabalho desenvolvido por um PROFISSIONAL de fato. Se eu tentasse fazer uma reforma na cozinha, seria um desastre. Não é o meu oficio. Portanto, acho que um trabalhador que é profissional de verdade, que trabalha bem, merece ser bem remunerado.

Isso tem um efeito imediato na sociedade. IGUALDADE.  Você vê um carro 0 km estacionado na rua e não sabe se pertence a um engenheiro ou a um pedreiro. Estes dois profissionais fazem as mesmas compras de mercado, vivem em imóveis similares e podem fazer as mesmas viagens de férias.

O outro efeito é a ELASTICIDADE. No Brasil um juiz pode chegar a ganhar 30.000 Reais, enquanto um carteiro mal chega aos 700. Aqui na Espanha um juiz ganha 3.000 Euros em média (pasmem) enquanto um carteiro tem uma média salarial de 1.000 Euros. O Juiz, neste caso ganha o triplo de um carteiro (me parece justo), mas não é como no Brasil que um juiz ganha 30 vezes mais (o que provoca desigualdade).

Você ainda pode estar achando que é injusto um pedreiro ganhar quase o mesmo que um engenheiro. Eu não te critico. Fomos educados para pensar que quem estuda merece ganhar mais… Muito mais!!!  Se você quer uma compensação por ter estudado, aqui existe sim uma penalização para quem não estudou: Empregabilidade. Neste sentido, quem não tem estudos fica muito mais tempo desempregado. A crise mundial que estamos vivendo atualmente massacrou a Espanha, provocando um índice de desemprego de mais de 20%. Falamos de aproximadamente 4 milhões de trabalhadores desempregados. Desta massa de gente, cerca de 70% são garçons, pedreiros e profissionais de baixa qualificação. Existem pessoas que estão desempregadas há  mais de 2 anos e não conseguem uma vaga de jeito nenhum. Só que ao analisar seu currículo, esta pessoa nem completou o segundo grau.  Por tanto, estudar ainda vale muito a pena.

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Edu C. Justo é administrador de projetos e escritor e vive em La Coruña. Saiba mais sobre o autor clicando aquiVeja mais fotos da Espanha e outros países no Instagram: @blogbrasilcomz Sigam nossa página no Facebook: http://www.facebook.com/blogbrasilcomz Todo dia um post novo de um autor pelo mundo !