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Papo “cabeça”

04/11/2011

Gisele Teixeira
Buenos Aires, Argentina
.

Depois de três anos na Argentina, tenho uma meta para 2012: fazer terapia!

É uma das coisas que falta para viver como um portenho. Dizem que a Argentina é a país com mais psicólogos no mundo – um para cada 650 habitantes. Em Buenos Aires a relação é de um para 120 segundo pesquisa da Universidade de Palermo. Mais que em Paris e Nova York, que tem uma média de 65. Aqui todo mundo é ou já foi psicanalisado.

Tanto é que tem gente que brinca que “Hacés diván?” é a segunda pergunta que um portenho faz para outro quando são apresentados. A primeira é o nome, é claro.

Um dos fatores desse alto número de profissionais é a tradição e a quantidade de escolas. A psicanálise começou aqui há 100 anos (completados em 2010) e o país possui 34 universidades públicas e privadas de psicologia. Detalhe importante: as consultas estão incluídas em qualquer plano de saúde.

No bairro de Palermo estão estabelecidos cerca de mil consultórios. A maior concentração de psicólogos por metro, que encontram nos sugestivos Bar Sigi e Café Narciso.

A psicanálise è tão instalada no cotidiano dos portenhos que a população está familiarizada com palavras como “inconsciente, negación, proyección”. Expressões como “sos una histérica” ou “estás somatizando” são bem comuns.

Ao longo dos anos, o discurso psi também chegou à mídia. O jornal Página 12 dedica duas páginas semanais à seção Psicologia, que vale a pena ser acompanhada. As matérias saem todas as quintas e não incluem aquele papo chato, “família”, dos jornais brasileiros. É tema forte de verdade. O último, por exemplo, foi sobre o papel dos acompanhantes dos pacientes em estado terminal de câncer!

Para visões mais leves, o cartunista Rep mantém uma tira cujo principal personagem é Gaspar, El Revolú, que está sempre no divã e é cotidianamente assaltado pelo polvo El Culpo.

Diz-se que esse entusiasmo pela psicanálise advém do fato de o portenho ser um italiano desterrado, que fala espanhol, se comporta como francês, mas que gostaria de ser inglês. E que, por isso, não é surpreendente que o país seja cheio de neuroses.

Conversa para muita sessão!

6 Comentários leave one →
  1. 04/11/2011 12:00

    Taí, deveria ter mudado para a Argentina, deve ser mais fácil ser psicóloga aí…o único problema é que embora eu respeite a psicanálise, não é nem de longe a minha linha teórica de escolha, no caso, ou eu iria fazer muito sucesso por ser diferente ou meu consultório iria ficar vazio, vazio!

  2. Gisele Teixeira permalink
    04/11/2011 15:58

    É uma honra começar a colaborar neste espaço! Se alguém quiser que eu fale sobre algum assunto específico, é só avisar. Um abraço a todos e obrigado pela leitura.

  3. 04/11/2011 16:03

    Faz sentido sua conclusão. Povos que estavam em guerra se mudaram para a Argentina, levando toda uma dor mal resolvida. E muito trauma. Há também muitos armênios que fugiram do genocídio, judeus, alemães, ucranianos… Figurate !

  4. 05/11/2011 8:51

    Estes tempos vi um documentario sobre isso. Achei bastante interessante. E, vejam só, tenho um amigo argentino aqui na Espanha que também é psicólogo!

  5. Sandra permalink
    08/11/2011 14:10

    Adorei a matéria. Estudei psicologia, embora eu não tenha praticado e agora vivendo na Suíça fica ainda mais difícil. Ainda na Universidade tive professores que comentavam a respeito da psicanálise na Argentina. Tive uma professora que era fã do Enrique Pichon Rivière (que foi um psicanalista argentino muito atuante) e ela dizia que até com motorista de taxi era possível conversar sobre psicanálise em Buenos Aires..rs.. Pena que no Brasil a psicanálise ainda é muito elitizada e está distante da realidade de muitos. Abraços

  6. Mariana permalink
    15/11/2011 4:16

    Mas que alegria ver alguém contribuindo com o Brasil – Argentina!!!!! Não vejo a hora de novos posts 🙂

    Gisele, já tinha ouvido falar dessa cultura da terapia por aí. E o quanto isso transborda no dia a dia… aliás, o texto que li, foi sobre quanto os verdadeiros problemas, dramas, tristezas, agonias dos argentinos têm sempre tanta oferta de terapias e terapeutas pra serem cuidados, que ele dificilmente se sentam entre amigos, íntimos para confessionar seus problemas. E que quando isso ocorre, brota de imediato um mal estar meio no estilo, ‘ que desagradável falar algo tão íntimo’.É verdade?

    ( e vc está lascada, sou absurdamente apaixonada pelos argentinos e sua cultura, verá sempre meus comentários nos seus posts!)

    Sandra, verdade, ainda muito elitizado, mas acho que não é só isso não.
    Ainda tem MUITO preconceito idiota sobre terapia como coisa de louco ou ‘ meus problemas resolvo eu’, ‘não preciso de ajuda’, ou o que mais escuto ‘ faz terapia por que?’

    Uma pena, terapia não é preciso só quando se tem problemas. É uma das melhores ferramentas pro auto conhecimento. E de que adianta viver tantos anos, sem nem ao menos se conhecer direito?

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