Gisele Teixeira
Buenos Aires, Argentina
.

Depois de três anos na Argentina, tenho uma meta para 2012: fazer terapia!

É uma das coisas que falta para viver como um portenho. Dizem que a Argentina é a país com mais psicólogos no mundo – um para cada 650 habitantes. Em Buenos Aires a relação é de um para 120 segundo pesquisa da Universidade de Palermo. Mais que em Paris e Nova York, que tem uma média de 65. Aqui todo mundo é ou já foi psicanalisado.

Tanto é que tem gente que brinca que “Hacés diván?” é a segunda pergunta que um portenho faz para outro quando são apresentados. A primeira é o nome, é claro.

Um dos fatores desse alto número de profissionais é a tradição e a quantidade de escolas. A psicanálise começou aqui há 100 anos (completados em 2010) e o país possui 34 universidades públicas e privadas de psicologia. Detalhe importante: as consultas estão incluídas em qualquer plano de saúde.

No bairro de Palermo estão estabelecidos cerca de mil consultórios. A maior concentração de psicólogos por metro, que encontram nos sugestivos Bar Sigi e Café Narciso.

A psicanálise è tão instalada no cotidiano dos portenhos que a população está familiarizada com palavras como “inconsciente, negación, proyección”. Expressões como “sos una histérica” ou “estás somatizando” são bem comuns.

Ao longo dos anos, o discurso psi também chegou à mídia. O jornal Página 12 dedica duas páginas semanais à seção Psicologia, que vale a pena ser acompanhada. As matérias saem todas as quintas e não incluem aquele papo chato, “família”, dos jornais brasileiros. É tema forte de verdade. O último, por exemplo, foi sobre o papel dos acompanhantes dos pacientes em estado terminal de câncer!

Para visões mais leves, o cartunista Rep mantém uma tira cujo principal personagem é Gaspar, El Revolú, que está sempre no divã e é cotidianamente assaltado pelo polvo El Culpo.

Diz-se que esse entusiasmo pela psicanálise advém do fato de o portenho ser um italiano desterrado, que fala espanhol, se comporta como francês, mas que gostaria de ser inglês. E que, por isso, não é surpreendente que o país seja cheio de neuroses.

Conversa para muita sessão!