Ana Fonseca – Amsterdam, Holanda
.

O Dia de S. Valentim passou 14 de fevereiro e eu nem vi. O comércio por aqui até que tenta importar essa tradição americana. Mas está longe, muito longe, de “pegar” nos holandeses. E olha que eles adoram enviar cartão para tudo: pra felicitar quem passa na autoescola, quem muda de endereço, quem vai morar junto, quem ganhou bebê, quem fez 50 anos, criança que tirou diploma de natação… para cada acontecimento grande ou pequeno na vida de um parente, colega de trabalho, amigo ou vizinho há cartões específicos. Mas não para namorados/apaixonados/admiradores confessos ou inconfessos.

Uma grande amiga do Brasil quando esteve me visitando na Holanda no final de um mês reclamou: “Quanto homem bonito e disponível! Eu não vi UM olhar de luxúria por aqui. Não fui alvo de uma cobiça!”, reclamou com razão. E acrescentou:  “São ruins de flerte esses holandeses. Não sei como você fisgou um prá você!”.

Eu nunca percebi ninguém olhando pra mim enquanto eu passava ou conversava.  Se aconteceu… então foi discretíssimo. E olha que eu tenho olho na nuca! No Brasil era uma dor de cabeça e aqueeele constrangimento – toda mulher sabe disso.

Uma das coisas que quando cheguei à Holanda e fui logo percebendo em festinhas de amigos e parentes do meu marido, era justamente que não dava para perceber quem era um casal (e quem não era). Explico: os casais por aqui geralmente não andam de mãos juntas, não trocam olhares cúmplices. Até em início de namoro vejo que a participação do grupo de amigos se impõe à unidade do casal. Eles não acham de bom tom permanecer grudados em público.  E os homens num acontecimento social te olham nos olhos como se você fosse um potencial companheiro pra beber cerveja e bater papo, não te analisam como mulher.

Nos primeiro anos de relacionamento com meu marido eu segurava a mão do P. na rua e segundos depois ele… soltava. Na casa dos pais dele eu um dia o chamei de “amore” e ficou todo mundo alterado, dando risinho.

E o termo holandês para “namorado” ou “namorada” não pode ser mais sem criatividade: “vriend” ou “vriendin” (amigo ou amiga). Sério? Sim! Eu era corrigida quando dizia que o P. era meu amor… Diziam: “Amigo, Ana.  Você tem que dizer que ele é seu amigo e só.”  Ora, eu dizia logo para os holandeses: “Que absurdo, vocês não terem um termo específico na língua de vocês para a pessoa especial com a qual se tem um relacionamento amoroso.” A língua portuguesa aliás é bem especial por isso… inclui “amor” no termo: namorado, enamorado por alguém. E eu ainda acrescentava: “Eu não tenho relacionamento sexual com nenhum amigo. Como posso chamar meu grande amor/o cara mais incrível da minha vida de… “amigo”?  Eu tenho vários amigos, mas só um amor “.

Eles fazem a diferença assim usando o pronome possessivo para identificar um namorado (a):

Fulano é MEU amigo (=namorado)  Hij is MIJN vriend/vriendin (uso do pronome possessivo)

Fulano é um amigo (=só amigo) Hij is een vriend

Eu resistia a esses termos e usava “He is my love” para identificar ou apresentar o P. que era então meu namorado e hoje marido.

Aliás, uma característica muito buscada entre os holandeses para ter um relacionamento amoroso estável é justamente essa: apaixonar-se a partir de uma amizade sólida. Eles sempre dizem que o namorado (a) é o “melhor amigo(a)  e confidente”.  Ok, hoje em dia olhando pra trás eu posso dizer que meu marido é mesmo o maior amigo que eu posso ter nessa vida. Alguém que quando eu vou sair de casa pela manhã já limpou toda a neve do meu carro e que quando a vida me dá uma rasteira prepara algo especial pra mim: um jantar ou compra uma tortinha.  Alguém que continuou acreditando que eu ia superar cada dificuldade (de trabalho, de estudo) mesmo quando eu já tinha perdido toda e qualquer esperança depois de tanto esforço mental, financeiro e psicológico. Ou seja: meu marido = parceiro sexual + ajudante de partos + pai dos meus filhos + professor a contra gosto de holandês + melhor amigo + anjo da guarda + lavador de carro/janelão. (Só não é meu maior confidente porque reservo isso para uma amiga brasileira e à minha mãe, obrigada, o cabra já faz muito).

Claro que há também muito relacionamento superficial por aí também, e digo isso me referindo a casais bem estabelecidos e com filhos que estão juntos há anos e anos. São geralmente pessoas das pequenas cidades que se conheceram na juventude, na escola ainda, se casaram muito cedo sem saber o que é amor de verdade e por comodismo permanecem juntos. São amiguinhos, tem um amor amiguinho. Vejo DEMAIS isso. Tudo já acabou. Mas continuam se fingindo de amiguinhos.

BLOG Kusjes

A média de parceiros ao longo da vida do holandês ainda é baixa. São poucos aventureiros em assuntos de paixão. Quem começa um namorinho aos 16/17 anos e se casa com essa pessoa anos mais tarde; quando chega aos 30 e poucos não tem a mínima ideia de como seria flertar com alguém quando a paixão de adolescência já morreu há muito. Também já vi isso demais: homens e mulheres casados e também muitos solteirinhos da vida, mas meio perdidos e reprimidos no olhar. Vejo no trabaho, em academias de ginástica, em festinhas de Natal em hotéis, em acampamentos…  Deveriam  ir à luta, divorciar e recomeçar – mas não o fazem. Ficam circulando pela vida com a viola enfiada no saco. Essas pessoas frustradas são muitas na Holanda.

Há uma proporção muito grande de jovens solteiros (involuntários) no país. Homens relativamente bem apessoados e ganhando bem que passam anos e anos sozinhos – até que aparecem depois de uma longa viagem com uma parceira pobre + beeem mais jovem + estrangeira. Mas, de novo, o típico “amor amiguinho” – não há desejo, paixão, grandes projetos. Apenas arrumaram uma figurinha para estar ao lado. Ou mulheres lindas, com emprego, interessantes e que por não encontrarem um parceiro ideal para a vida engravidam de doador anônimo de banco de sêmen e vão sozinhas ser chefes de família.

Não vejo com frequencia grandes arroubos públicos de paixão, grandes gestos. O lado positivo é que também não vejo troca troca, baixaria pública ou grandes sofrimentos/depressões/vontade de morrer/quebra-quebra. Tudo parece muito contido…. Bom, cada um é que sabe onde colocar o desejo… ou deveria, não?

——

Ana Fonseca é carioca, publicitária e vive na Holanda desde 1999. Para saber mais acesse a mini-bio aqui. Siga o Instagram do livro dela: @comidadegringo Veja  fotos da Holanda e outros países no nosso Instagram: @blogbrasilcomz Sigam nossa página no Facebook: http://www.facebook.com/blogbrasilcomz Todo dia um post novo de um autor pelo mundo!